Por que a Rússia volta a falar em negociações com Ucrânia
Após meses de estagnação, a Rússia sinalizou disposição para retomar negociações com a Ucrânia e os EUA após as eleições da Duma, movimento impulsionado pela visita de enviados de Washington a Moscou e Kiev. Contudo, analistas e a União Europeia veem a iniciativa com ceticismo, apontando que os lados atendem a interesses próprios: Trump busca ganhos eleitorais, enquanto Putin tenta fraturar a aliança ocidental, ganhar tempo para ações no inverno e evitar sanções, mantendo seus planos de vitória.
Moscou sinaliza "nova disposição" para dialogar. No início de setembro, Putin recebeu negociadores dos EUA. Kremlin não descarta iniciar nova rodada de conversas após eleições da Duma.A possibilidade de novas negociações para encerrar a guerra da Rússia contra a Ucrânia voltou ao centro do debate após um hiato de meses. Em entrevista exclusiva à DW, o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, afirmou estar disposto a se reunir com o líder russo Vladimir Putin na cúpula do G20 em Miami, em dezembro. O Kremlin rejeitou a proposta.
Ao mesmo tempo, porém, Dmitri Peskov, porta-voz do presidente russo, não descartou negociações de paz entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos em outubro.
No início de setembro, o enviado especial de Washington, Steve Witkoff, e Jared Kushner, genro do presidente dos EUA, Donald Trump, visitaram Moscou e se reuniram com Putin. Em seguida, Vitkoff e Kushner viajaram para Kiev, onde se encontraram com Zelenski e outros representantes do governo ucraniano em 6 de setembro. As autoridades de segurança nacional da França, Alemanha e Reino Unido também participaram das conversas.
Uma fonte do governo francês disse a jornalistas que os americanos informaram seus parceiros europeus em Kiev sobre o teor das conversas com Putin. Segundo a fonte, os negociadores comunicaram a Paris a "nova disposição da Rússia para negociações" após as eleições para a Duma, câmara dos deputados russo, e indicaram que é preciso preparar o terreno para uma retomada do processo de negociação.
Por que Washington quer negociar com a Ucrânia agora?
A União Europeia (UE) viu com bons olhos as visitas dos enviados americanos, mas avaliou com cautela as perspectivas de negociação. "Precisamos da vontade da Rússia, que claramente não vemos no momento", disse o porta-voz daComissão Europeia, Christian Wiegand. Ele enfatizou que a UE deve manter a pressão das sanções sobre a Rússia e continuar a apoiar a Ucrânia para incentivar Moscou a negociar seriamente e a buscar uma paz justa e duradoura.
O aumento da atividade diplomática não significa que as partes estejam mais próximas de um acordo. Segundo especialistas consultados pela DW, cada lado tem seus próprios motivos para demonstrar interesse em negociações.
O especialista em segurança Roland Freudenstein, cofundador do think tank Brussels Freedom Hub, com sede em Bruxelas, acredita que o governo Trump tem seus próprios interesses políticos em retomar as negociações. "O governo dos EUA quer chegar a um acordo, ou pelo menos criar uma perspectiva nesse sentido, antes das eleições de meio de mandato nos EUA, pois Donald Trump quer ser visto como um pacificador", afirmou.
A Rússia, por outro lado, busca um objetivo diferente que nada tem a ver com as próximas eleições. Na avaliação de Freudenstein, Putin quer criar a maior divisão possível entre Washington e Kiev. Como até agora não conseguiu suspender a ajuda dos EUA à Ucrânia, o presidente russo está alimentando as esperanças do governo Trump de um possível acordo.
Os EUA continuam a fornecer informações de inteligência a Kiev e a vender armas pagas pelos europeus. "Putin mantém a ilusão de que está sempre pronto para negociar. Mas ele não cedeu em quatro anos e meio e não cederá enquanto achar que pode vencer - e ele acredita que pode", afirmou Freudenstein.
Kiev também busca seus próprios interesses nesse "jogo triangular", como definiu o especialista. A Ucrânia, segundo disse, quer manter distância entre Trump e Putin e demonstrar a Washington que não está obstruindo uma solução pacífica. Segundo o especialista, Kiev já fez concessões significativas em comparação com sua posição de negociação em 2022 e quer sinalizar que agora cabe à Rússia dar o próximo passo.
Moscou pronta para um acordo?
Todos os especialistas ouvidos pela DW demonstram ceticismo quanto à possibilidade de avanços nas negociações. Eles não veem sinais de que Moscou esteja realmente preparada para mudar sua posição.
"Sou extremamente cético quanto às perspectivas de negociações de paz com os Estados Unidos e ainda mais cético quanto à participação dos europeus", afirmou Arkady Moshes, do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais (FIIA). Segundo ele, a posição oficial da Rússia permanece "extremamente radical".
"Putin enfatiza que quer vencer a guerra", ressaltou o especialista. Ele acredita que, em qualquer negociação potencial, Moscou se concentrará principalmente nos resultados das operações militares e na escalada do conflito. "Atualmente, não vejo base para negociações sérias", concluiu.
De acordo com Iulian Romanyshyn, a suposição de que uma nova janela para negociações possa se abrir após as eleições para a Duma Estatal Russa é pura ilusão. Essas eleições não mudariam nada na política russa, já que decisões importantes não dependem do seu resultado, segundo o pesquisador sênior do Centro de Estudos Avançados de Segurança, Estratégia e Integração (Cassis) da Universidade de Bonn.
Freudenstein acredita que Putin não tem motivos para mudar sua postura nos próximos meses. No entanto, ele acrescenta que a situação a longo prazo pode ser diferente.
Por que negociações somente "após as eleições"?
Não está claro por que o Kremlin condiciona uma possível retomada das negociações às eleições para a Duma. Romanyshyn suspeita que a discussão sobre esperar até depois do pleito possa estar relacionada aos interesses de Moscou. Ele acredita que a Rússia quer evitar um aumento na pressão das sanções dos EUA.
Os apelos por mais tempo, na esperança de que o Kremlin entre seriamente em negociações, poderiam, em sua opinião, contribuir para esse atraso.
Por sua vez, Freudenstein considera outro fator temporal mais crucial para os cálculos de Moscou: a aproximação do inverno. Ele acredita que Putin pretende destruir a infraestrutura energética da Ucrânia com ataques massivos de mísseis e drones. Isso, segundo argumentou, levaria a problemas no fornecimento de energia, desencadearia uma nova onda de refugiados e causaria mais vítimas civis.
Caso esse plano falhe e a Ucrânia resista, Freudenstein acredita que a situação poderá mudar, principalmente se Kiev conseguir recapturar parte de seu território. "Então, talvez na primavera, Putin reconsidere sua posição e finalmente retire algumas de suas exigências maximalistas", avaliou.
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