Visita de Netanyahu a Washington expõe divergências com Trump sobre o futuro de Gaza
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, inicia nesta segunda-feira (27) uma visita de três dias a Washington. Ele se reunirá com Donald Trump na terça-feira (28) e deverá explicar uma estratégia marcada por ambiguidades: ao mesmo tempo em que busca resistir às pressões da Casa Branca para retirar o Exército israelense de Gaza, do Líbano e da Síria, seu governo acaba de aprovar a participação de uma Força Internacional na Faixa de Gaza.
Michel Paul, correspondente da RFI em Jérusalem
Segundo a televisão israelense, Netanyahu afirmou durante uma reunião de governo realizada em um bunker que resistirá firmemente às pressões americanas para uma retirada das tropas israelenses dessas três frentes.
A posição gera aparente contradição, já que o Gabinete de Segurança de Israel aprovou o marco legal para o envio de uma Força Internacional de Estabilização à Faixa de Gaza, inicialmente em uma zona humanitária-piloto em Rafah.
Trata-se da primeira participação oficial de Israel em um mecanismo internacional destinado a preparar o período pós-conflito no território palestino. A decisão também prevê as etapas iniciais da implantação de uma força multinacional de estabilização em Gaza.
Projeto para o pós-guerra
Longe de ser um simples gesto diplomático, o acordo valida o projeto-piloto em Rafah, com o envio inicial de cerca de 200 soldados de países parceiros, como Marrocos e Uganda. Os militares da Força Internacional teriam a missão de proteger uma zona humanitária fora do controle do Hamas.
Embora o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, da extrema direita, tenha se oposto à iniciativa, o governo israelense tenta demonstrar boa vontade à aliança com os Estados Unidos.
Israel, no entanto, mantém uma linha vermelha: o Exército continuará presente no terreno e não haverá novas retiradas enquanto o Hamas não estiver completamente desarmado.
Relação entre Netanyahu e Trump
O encontro ocorre em um momento em que Netanyahu busca um novo mandato nas eleições legislativas marcadas para 27 de outubro.
Tanto a imprensa israelense quanto a americana noticiaram que, há várias semanas, o premiê tentava obter uma nova reunião com Trump, alimentando especulações sobre possíveis atritos entre os dois líderes.
Quando Trump voltou à Casa Branca, os dois governantes demonstravam forte alinhamento político. Netanyahu chegou a afirmar que Trump era "o melhor amigo que Israel já teve na Casa Branca". No entanto, após a guerra lançada contra o Irã em 28 de fevereiro, surgiram divergências sobre a estratégia a ser adotada diante de Teerã: manter a pressão militar ou privilegiar uma solução diplomática.
"Nos entendemos muito bem. Ele sabe quem manda", declarou Donald Trump ao site americano Axios no início de julho.
As tensões ficaram ainda mais visíveis durante as negociações de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã realizadas em abril, que já não estão mais em vigor. Segundo o New York Post, Trump teria demonstrado irritação com Netanyahu ao considerar que a continuidade das operações israelenses contra o Hezbollah pró-Irã no Líbano dificultava as conversas com Teerã.
"Você está completamente louco? O que diabos está fazendo?", teria dito o presidente americano ao premiê israelense.
Trump também classificou Netanyahu como um líder "muito difícil" e acrescentou que Israel deveria ser grato aos Estados Unidos. "Se o Irã tivesse uma arma nuclear, Israel não duraria duas horas", afirmou.
Por sua vez, Netanyahu minimizou as divergências. Ele reconheceu a existência de desacordos, mas insistiu que ambos continuam compartilhando os mesmos objetivos estratégicos: desarmar o Hezbollah e impedir que o Irã obtenha armas nucleares.
"Podemos discordar pela manhã e agir juntos à tarde", declarou.
Durante sua visita aos Estados Unidos, Netanyahu também participará das cerimônias fúnebres do senador republicano Lindsey Graham, figura influente nas relações entre Washington e Israel que morreu em 11 de julho. Considerado um "amigo de Israel", Graham era um dos principais aliados do governo israelense no Congresso americano. A presença de Netanyahu nas homenagens busca reforçar a proximidade entre os dois países, apesar das tensões recentes.
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