UE promete € 2 milhões ao Nepal após enchentes que deixaram mais de 580 mortos
A União Europeia fornecerá € 2 milhões em ajuda emergencial ao Nepal após as enchentes devastadoras que mataram mais de 580 pessoas e deixaram cerca de 1.900 desaparecidas, anunciou nesta sexta-feira (28) a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Segundo ela, os recursos permitirão prestar "assistência vital às famílias e comunidades mais afetadas".
Enchentes causadas pelo desprendimento de uma geleira na fronteira entre Nepal e China deixaram ao menos 584 mortos e mais de 1.900 desaparecidos, atingindo também áreas da Índia. O evento gerou alertas de novos transbordamentos e mobilizou socorristas em buscas complexas, incluindo dezenas de operários ilhados em uma hidrelétrica. O governo nepalês aceitou ajuda financeira internacional, mas dispensou apoio externo em resgates na pior tragédia do país desde o terremoto de 2015.
O Nepal emitiu um alerta de inundação devido ao risco de rompimento de um lago glacial em território chinês, complicando o trabalho das equipes de resgate na região do Himalaia. Dois dias após a catástrofe, que atingiu áreas da fronteira entre Nepal e China, os socorristas continuam uma corrida contra o tempo para encontrar sobreviventes.
O governo nepalês agradeceu a ajuda financeira oferecida pela comunidade internacional desde o desastre, mas afirmou não necessitar de assistência externa para as operações de busca e resgate.
Os milhares de socorristas mobilizados nos dois lados da fronteira já recuperaram 584 corpos, sendo 579 no Nepal e cinco na China, segundo os dados oficiais mais recentes. As autoridades informam ainda que cerca de 1.924 pessoas continuam desaparecidas, entre elas centenas de turistas estrangeiros.
Nesta sexta-feira, a polícia nepalesa emitiu um alerta após ser informada sobre o possível rompimento de um lago formado na quarta-feira (26), quando o desprendimento de uma geleira provocou uma gigantesca enxurrada de lama nos vales da região.
As autoridades orientaram socorristas e moradores a permanecerem em alerta e a buscar abrigo em locais seguros. Mais tarde, a Autoridade Nacional de Gestão de Emergências do Nepal informou que o fluxo do rio que transbordou na quarta-feira havia aumentado ligeiramente. O alerta foi suspenso no início da tarde, sem registro de novas inundações significativas.
Buscas continuam no Nepal e na China
Do lado chinês, a emissora estatal CCTV informou que o risco de rompimento do lago, localizado na região tibetana, "está diminuindo gradualmente". As operações de resgate, que haviam sido suspensas na área de Gyirong, "estão prosseguindo sem problemas", acrescentou o canal.
Um primeiro grupo de 21 bombeiros chineses, acompanhado por um cão farejador, chegou à área da passagem fronteiriça de Gyirong, epicentro da zona devastada, na tarde desta sexta-feira, informou a mídia estatal.
"Por volta das 16h30 (4h30 pelo horário de Brasília) de 28 de agosto, seis membros da primeira equipe de resgate do Corpo de Bombeiros do Tibete e 15 integrantes, além de um cão, da equipe enviada pela província de Sichuan chegaram à região fronteiriça. Estas são as primeiras equipes profissionais a alcançar o epicentro da tragédia", informou a agência estatal Xinhua.
O presidente chinês, Xi Jinping, que presidiu uma reunião sobre a situação nesta sexta-feira, também ofereceu apoio ao Nepal.
"A China está pronta para auxiliar ativamente o Nepal em seus esforços de resgate e para fornecer todo o apoio e assistência disponíveis", escreveu Xi em mensagem de condolências enviada ao presidente nepalês Ram Chandra Paudel, segundo a CCTV.
No Nepal, o Exército tentava localizar e resgatar cerca de 100 trabalhadores presos em um túnel de uma usina hidrelétrica em construção.
"Não tive notícias desde que falei com ele naquele dia às 7h da manhã", disse Sita Adhikari, cujo marido está entre os trabalhadores desaparecidos. "Também não sabemos como estão as operações de resgate."
"Dois helicópteros foram enviados ao local, mas localizar as entradas do túnel continua sendo uma tarefa muito difícil", afirmou à AFP o porta-voz do Exército, Raja Ram Basnet.
O gabinete do primeiro-ministro nepalês informou que 350 trabalhadores e moradores já haviam sido retirados da área "em condições muito perigosas".
"Eu estava na usina quando ouvi um estrondo ensurdecedor", relatou à AFP Ananay Sharma, engenheiro indiano de 29 anos que trabalhava no projeto. "Quando saí, tudo havia desaparecido, exceto o rio."
Localizada na região central do Himalaia, a região afetada atrai alpinistas de todo o mundo, especialmente aqueles que tentam escalar o Monte Everest. Também abriga importantes locais de peregrinação para hindus e budistas tibetanos.
Uma cidadã indiana que participava de uma peregrinação ao redor do Monte Kailash, no Tibete, contou à AFP que dois dos três ônibus que transportavam seu grupo de 57 fiéis foram arrastados pela enxurrada na quarta-feira.
"De repente, fomos envolvidos por uma espécie de neblina, uma fumaça, que cercou tudo", relatou Sivaranjani Muthunathan, de 46 anos, enquanto mostrava um vídeo gravado com o celular da torrente que atingiu o comboio.
"Conseguimos sair do ônibus, um após o outro, pela porta do motorista", acrescentou. Os passageiros do veículo em que ela estava conseguiram se refugiar acima da estrada, mas os ocupantes dos outros ônibus desapareceram.
"Trauma enorme"
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a onda foi provocada pelo desprendimento de parte de uma geleira. O fenômeno foi tão poderoso que foi registrado como um tremor de magnitude 5,2 e desencadeou diversos deslizamentos de terra.
A enchente também atingiu áreas da Índia. Sete corpos, presumivelmente de vítimas do desastre, foram encontrados a dezenas de quilômetros rio abaixo: quatro no distrito de Maharajganj, no estado de Uttar Pradesh, e três no distrito de Kushinagar, localizado a cerca de 70 quilômetros da fronteira com o Nepal, segundo a polícia local.
Trata-se do desastre mais mortal registrado no Nepal desde o terremoto de 2015, que matou cerca de 9 mil pessoas. Antes disso, as históricas enchentes de 1993 haviam provocado mais de 1.300 mortes. O difícil acesso às áreas atingidas continua dificultando a avaliação completa dos danos.
"As estimativas atuais indicam que cerca de 93 mil pessoas podem ter sido afetadas pelo desastre", afirmou David Fisher, representante da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) no Nepal. "O trauma será enorme."
Com AFP
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