Sem Lula, cúpula do Brics marca reaproximação entre Índia e China após confronto
Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e do Irã, Masoud Pezeshkian, já chegaram à Índia nesta sexta-feira (11), véspera do início da cúpula do Brics, sediada em Nova Délhi neste fim de semana. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não participará do evento, que marca uma reaproximação diplomática entre a anfitriã e a China.
A cúpula do Brics na Índia marca a reaproximação diplomática entre o líder chinês Xi Jinping e Narendra Modi após anos de tensões na fronteira. O encontro ocorre sem a presença de Lula, representado pelo chanceler Mauro Vieira. Em meio à expansão do bloco, o evento aborda os conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, que testam a coesão do grupo e os impactos econômicos globais, enquanto Nova Délhi tenta equilibrar seus laços com a Rússia e a China diante das pressões dos Estados Unidos.
A chegada do presidente chinês, Xi Jinping, à capital indiana é esperada para sábado. Ele não visitava o país desde 2019. A viagem marca uma nova etapa na lenta reaproximação entre os dois países, seis anos após o confronto militar que opôs os dois membros do Brics ao longo de sua fronteira disputada no Himalaia. Desde então, Nova Délhi e Pequim têm retomado aos poucos suas relações, mas a desconfiança persiste.
"Só se pode estabelecer diálogo e amizade com os virtuosos, nunca com aqueles que não o são", escreveu Modi em sânscrito, em uma mensagem de boas-vindas aos seus convidados.
"A China está pronta para trabalhar com a Índia sob uma perspectiva estratégica de longo prazo (...) reforçando a comunicação e a cooperação, e tratando adequadamente as diferenças, como dois vizinhos e parceiros amigos", comentou na sexta-feira a porta-voz da diplomacia chinesa, Mao Ning.
Xi deve ter uma reunião a sós com Modi, à margem da cúpula de dois dias, segundo fontes diplomáticas indianas.
Algumas dezenas de tibetanos, segundo um fotógrafo da AFP, protestaram na sexta-feira em Nova Délhi contra a visita anunciada de Xi à Índia - país que acolhe seu líder espiritual no exílio, o Dalai Lama, desde 1959.
Ampliação do Brics gera desconforto
O Brics foi criado em 2009 para reunir as grandes economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e, posteriormente, África do Sul) à margem das instituições dominadas pelos Estados Unidos e pelas potências ocidentais, como o G7. O bloco se expandiu desde então, incluindo, entre outros, o Irã e os Emirados Árabes Unidos, cujos representantes também são esperados em Nova Délhi.
Putin foi recebido à tarde pelo anfitrião, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, para uma reunião bilateral. Os dois líderes "compartilharam suas perspectivas sobre questões regionais e globais (...), incluindo os conflitos no Oriente Médio e no Mar Negro, que afetaram o comércio marítimo e a segurança dos marinheiros indianos", informou na sexta-feira o ministério das Relações Exteriores da Índia após a conversa.
O Brasil, membro fundador do bloco, será representado na cúpula pelo chanceler Mauro Vieira. O presidente Lula permanecerá envolvido na campanha eleitoral para as eleições de outubro.
O conflito em curso desde o final de fevereiro no Oriente Médio por ataques americanos e israelenses contra o Irã, a guerra entre Rússia e Ucrânia e o impacto dos conflitos nos preços do petróleo e do gás devem pautar parte das discussões em Nova Délhi, a partir deste sábado (12).
Durante uma reunião da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) no Quirguistão, no início do mês, Pezeshkian garantiu a Putin e Xi que Teerã permanecia aberto a uma solução negociada e que respeitaria seus compromissos caso Washington retomasse os seus.
Ambos os países, determinados a combater a hegemonia americana, continuam a negociar com o Irã, apesar das repetidas ameaças de sanções por parte de Washington. Essa posição é de difícil conciliação com a dos Emirados Árabes Unidos - também membros do Brics -, que suspenderam em agosto suas trocas comerciais e financeiras com o Irã após terem sido alvo de mísseis iranianos.
"A guerra contra o Irã representa um teste para a coesão do grupo", avalia o economista Shilan Shah, do centro de estudos Capital Economics. "Esse conflito será a principal linha de divisão durante a cúpula", prevê também, em declaração à AFP, Harsh V. Pant, do Observer Research Foundation, um centro de estudos próximo do governo indiano.
Posição da Índia
A Índia mantém relações cordiais com o Irã, mas busca preservar um equilíbrio delicado em suas relações com Washington. Menos de um ano após a última visita do presidente russo à Índia, as discussões previstas para sexta-feira entre Putin e Modi também servirão para avaliar a qualidade dos laços entre os dois países.
Aliada tradicional da Rússia, a Índia continuou a importar petróleo do país, apesar das sanções dos Estados Unidos, que afirmam que essas compras financiam a guerra de Moscou contra a Ucrânia. Durante a última cúpula da OCS, Modi, que até então sempre evitou condenar abertamente a invasão russa, pediu para seu "amigo" Vladimir Putin encontrar uma saída para o conflito - apelo imediatamente saudado pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
A reunião deste fim de semana também poderá ser uma oportunidade para discussões intensas sobre a predominância econômica da China, que inunda seus parceiros do Brics, a começar pela Índia, com suas exportações.
Com AFP
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