Sem consenso no Conselho de Segurança, sucessão do secretário-geral segue em aberto na ONU
As grandes potências mundiais não conseguiram chegar a um acordo, na sexta-feira (17), sobre um candidato para suceder a António Guterres no comando da ONU, abrindo espaço para o surgimento de novas candidaturas. Até o momento, quatro mulheres e três homens disputam a sucessão do português de 77 anos, que encerrará em 31 de dezembro seu segundo mandato de cinco anos à frente da organização, marcada por crises e divisões.
A sucessão para o comando da ONU segue indefinida após votação no Conselho de Segurança, já que nenhum dos sete candidatos escapou do veto de membros permanentes. A costarriquenha Rebeca Grynspan lidera a disputa, seguida pelo argentino Rafael Grossi, ambos enfrentando rejeição de potências com poder de veto. Em meio a crises globais e pressões por reformas financeiras, novos nomes ainda podem surgir na corrida pelo cargo, que tem forte apelo por uma liderança feminina e latino-americana.
Ao fim de uma votação que ainda tem caráter apenas indicativo, nenhum dos sete candidatos conseguiu evitar um voto negativo de uma das cinco potências com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU: Reino Unido, França, Estados Unidos, China e Rússia. O órgão é composto por 15 membros.
Até agora, a costarriquenha Rebeca Grynspan, de 70 anos, ex-chefe da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), vinha liderando a disputa.
Na votação de sexta-feira, realizada a portas fechadas, os Estados-membros atribuíram anonimamente a cada candidato uma das três classificações possíveis: "encoraja", "desencoraja" ou "sem opinião".
Pela primeira vez desde o início desse processo eleitoral, considerado complexo e pouco transparente, os votos dos cinco membros permanentes foram identificados por cores.
Com nove votos de "encoraja", Rebeca Grynspan permanece na liderança. No entanto, recebeu também cinco votos de "desencoraja", dois deles de membros permanentes, além de um voto "sem opinião".
Logo atrás aparece o atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o argentino Rafael Grossi, de 65 anos, com oito votos de "encoraja", seis de "desencoraja", incluindo dois de membros permanentes, e um "sem opinião".
Na terceira posição está Carolyn Rodrigues-Birkett, de 53 anos, ex-ministra das Relações Exteriores da Guiana (8-6-1), seguida pelo ugandense Olara Otunnu, de 76 anos, ex-representante especial da ONU para Crianças e Conflitos Armados (4-10-1).
Nas últimas posições aparecem o ex-presidente do Senegal Macky Sall, de 64 anos (5-10-0), a ex-ministra das Relações Exteriores e da Defesa do Equador María Fernanda Espinosa, de 62 anos (3-9-3), e a diplomata equatoriana Ivonne A-Baki, de 75 anos (1-14-0).
Novos candidatos ainda podem entrar na disputa. Em 1996, "Kofi Annan não era candidato e surgiu um dia antes de ser eleito", lembrou recentemente uma fonte diplomática.
"Se alguns países desejarem apresentar mais candidatos, isso está totalmente dentro de seu direito soberano", declarou antes da votação o representante permanente dos Estados Unidos na ONU, Mike Waltz.
Ao fazer a afirmação, ele também deixou claro o que Washington espera do próximo secretário-geral. "É necessária uma reforma das operações de manutenção da paz, uma reforma orçamentária e mais rigor (...) Vamos reduzir a burocracia. Vamos reduzir os custos estruturais."
Crise e multiplicação de conflitos
Entre os nomes que circulam nos bastidores estão o búlgaro Nikolaï Mladenov, alto representante para Gaza do Conselho de Paz criado por Donald Trump, e Lana Nusseibeh, ministra adjunta para Assuntos Políticos dos Emirados Árabes Unidos.
Seguindo uma tradição geográfica nem sempre respeitada, a América Latina reivindica o cargo desta vez. Muitos países também defendem que, pela primeira vez, uma mulher assuma o comando da ONU.
"Entendemos que existe um desejo de rotatividade regional. Naturalmente, se o melhor candidato for uma mulher, ficaríamos muito satisfeitos. Mas, acima de tudo, o que realmente precisamos é do melhor candidato", enfatizou Mike Waltz.
O processo ocorre em um momento em que a ONU atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história. O multilateralismo defendido pela organização vem sendo abalado por países que tradicionalmente o apoiavam, como os Estados Unidos.
A entidade também enfrenta uma multiplicação de conflitos ao redor do mundo e graves dificuldades financeiras.
No mês passado, António Guterres fez uma avaliação amarga da situação. "A cada dia, as coisas pioram um pouco. Não há melhora em lugar nenhum", afirmou. Segundo ele, a situação chegou a tal ponto que já não tinha "poder algum".
Com AFP
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.