Rússia celebra dia da derrota nazista com desfile reduzido, segurança reforçada e medo de ataque ucraniano
Pela primeira vez em quase 20 anos, o tradicional desfile militar para comemorar o Dia da Vitória de 9 de maio de 1945 sobre a Alemanha nazista deve ser realizado sem veículos militares nem mísseis em Moscou. Alegando a ameaça de drones ucranianos, o Kremlin colocou essas celebrações sob alta vigilância e reduziu as demonstrações de poder bélico. Alguns veem nisso a expressão de uma fraqueza de Vladimir Putin.
A Rússia comemora essa data desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mas, desde 2008, Vladimir Putin reativou a encenação de equipamentos militares. Em 2025, para os 80 anos da capitulação alemã, cerca de 11.000 soldados, tanques T-90, mísseis Iskander e drones participaram do tradicional desfile na Praça Vermelha, que comemora a vitória sobre a Alemanha nazista e a memória dos mais de 20 milhões de mortos na URSS durante o conflito. No ano passado, em plena guerra com a Ucrânia, o presidente russo Vladimir Putin recebeu com grande pompa cerca de vinte chefes de Estado, incluindo os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da China, Xi Jinping. A presença dos líderes internacionais visava mostrar que o chefe do Kremlin não estava isolado no cenário internacional, apesar do conflito com os vizinhos ucranianos desde fevereiro de 2022.
Um ano depois, o clima parece ter mudado e o Kremlin decidiu ser mais discreto nas comemorações. A Rússia indicou durante a semana que não mobilizaria nenhum equipamento militar para o tradicional desfile de 9 de maio em razão, segundo o governo, da "ameaça terrorista" representada pela Ucrânia. Várias escolas militares e os corpos de cadetes não participarão do desfile "em razão da situação operacional atual", anunciou também o Ministério da Defesa.
O Kremlin confirmou ainda que medidas específicas foram decididas para garantir a segurança do presidente Vladimir Putin, que assistirá no sábado ao desfile a partir da tribuna central erguida bem em frente ao mausoléu de Lênin. Embora restrições à internet móvel em Moscou já venham sendo aplicadas de forma intermitente há meses, em nome da "segurança dos cidadãos", as autoridades avisaram também que cortes específicos seriam efetuados no contexto das comemorações de 9 de maio.
A Ucrânia, que tenta repelir a invasão em grande escala de seu território por Moscou, havia buscado, em 2025, perturbar o desfile com ataques de drones contra Moscou nos dias anteriores à parada. A Rússia anunciou, na quinta-feira (7), a destruição de 32 drones que se dirigiam à capital. O prefeito de Moscou, Serguei Sobyanin, confirmou no Telegram que a defesa antiaérea da capital, equipada em particular com mísseis terra-ar Pantsir, vinha repelindo desde a manhã de quinta-feira ataques ucranianos.
Os medos do chefe do Kremlin
Desde o anúncio dessas restrições ao desfile, as especulações se multiplicam sobre as razões dessa decisão. O anúncio provocou comentários contundentes por parte dos opositores. "Eles têm medo de um motim? Ou então todo o material [militar] queimou na Ucrânia?", postou nas redes sociais Abbas Gallyamov, ex-redator de discursos do Kremlin, atualmente incluído na lista de "agentes estrangeiros" da Rússia.
Já para o presidente ucraniano, não restam dúvidas de que se trata de um sinal de fraqueza. "Eles não têm os meios de obter equipamento militar e temem que drones sobrevoem a Praça Vermelha", declarou Volodymyr Zelensky na segunda-feira (4), diante dos líderes reunidos na cúpula da Comunidade Política Europeia em Erevan. "Isso mostra que eles não são mais fortes", concluiu.
Para um especialista militar, citado anonimamente pelo Moscow Times, essa decisão decorre sobretudo do temor de uma má publicidade em caso de perturbação da parada. "Se um incidente ocorrer, se os veículos pararem no meio da praça, isso provocará um engarrafamento monstruoso e as imagens de televisão serão catastróficas", avalia esse especialista. "Seria muito difícil esconder e todo o alcance político do desfile da Vitória seria reduzido a nada", aponta.
Mas um relatório de um serviço de inteligência europeu, que vazou nesta semana em vários veículos de imprensa, descreve um poder russo tomado por uma intensa paranoia de segurança. O presidente russo "teme tentativas de assassinato, um golpe de Estado, e as tensões entre os diferentes serviços de segurança não param de aumentar", resume o iStories, um veículo de investigação independente russófono que publicou na íntegra o relatório na segunda-feira.
Apesar dessas ameaças, reais ou imaginárias, o Kremlin garantiu na quinta-feira que Vladimir Putin fará um discurso na Praça Vermelha.
Com agências e France 24
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