Quem é Navi Pillay, sul-africana que ganhou o Nobel da Paz 2026 e presidiu comissão que apontou genocídio em Gaza
Navi Pillay, ex-Alta Comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos, foi reconhecida por seus 'esforços para promover a paz e o direito internacional'.
A jurista sul-africana Navi Pillay, de 85 anos, venceu o Nobel da Paz de 2026 por sua trajetória em defesa dos direitos humanos e do direito internacional. Pioneira na luta contra o apartheid, ex-Alta Comissária da ONU e ex-presidente do tribunal sobre o genocídio de Ruanda, Pillay presidiu recentemente a comissão da ONU que acusou Israel de genocídio em Gaza. A premiação celebrou sua integridade moral e coragem na responsabilização de líderes globais por crimes humanitários.
O Prêmio Nobel da Paz 2026 foi concedido a Navanethem "Navi" Pillay, jurista sul-africana de 85 anos, anunciou o Comitê Norueguês do Nobel, em Oslo, nesta sexta-feira (10/10).
Pillay, ex-Alta Comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos, foi reconhecida por seus "esforços para promover a paz e o direito internacional", segundo o comitê responsável pelo prêmio.
"O compromisso de Navi Pillay com os princípios jurídicos universais e sua firme bússola moral são constantes ao longo de sua extensa carreira. Nascida em uma família de origem tâmil indiana, durante o apartheid, em Durban, na África do Sul, Pillay tornou-se advogada e pioneira no campo jurídico, enfrentando a profunda discriminação estrutural, a segregação e a exclusão", afirmou o presidente do comitê, Jørgen Watne Frydnes.
Natural de Durban, na África do Sul, Pillay foi presidente do tribunal internacional sobre o genocídio em Ruanda entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000.
Mais recentemente, ela fez parte da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o Território Palestino Ocupado, criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU em 2021.
A comissão foi responsável por publicar, em setembro do ano passado, um relatório que concluiu que Israel havia cometido genocídio na Faixa de Gaza. O governo israelense classificou as acusações como escandalosas.
Quando o prêmio foi anunciado, Pillay ainda não havia sido informada pela conquista porque o comitê não conseguiu entrar em contato com ela, segundo Frydnes. "Se vir um número norueguês ligando, por favor atenda", brincou o presidente do comitê.
Posteriormente, quando soube da notícia, Pillay brincou dizendo que não acreditava que a notícia fosse real.
"Deve ser uma piada", disse ela em um discurso improvisado de aceitação do lado de fora de uma das salas do Palácio da Justiça de Nuremberg, na Alemanha, onde acontecia uma conferência sobre crimes de guerra.
"Seus aplausos significam tudo para mim", afirmou ainda para a pequena multidão que se reuniu ao seu redor quando a notícia lhe foi dada. "Mas, sendo advogada e juíza, ainda quero verificar isso."
Ela ainda brincou: "Se vocês baterem mais palmas, posso acabar dividindo esse prêmio com Trump".
A vencedora do Nobel da Paz do ano passado, a venezuela María Corina Machado, entregou a sua medalha ao presidente dos Estados Unidos em janeiro.
Além da medalha de ouro, Pillay também receberá 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6 milhões).
Uma vida nos tribunais
No início de sua carreira, Pillay foi a primeira mulher a abrir um escritório de advocacia na província de Natal, na África do Sul, em 1967.
Filha de um motorista de ônibus de um bairro pobre de maioria indiana em Durban, ela cresceu e iniciou seu trabalho em direitos humanos durante o apartheid. Com o fim da segregação, se tornou a primeira mulher não branca a ser nomeada juíza da Suprema Corte da África do Sul.
Em seu anúncio, o presidente do Comitê Norueguês do Nobel, Jørgen Watne Frydnes, enfatizou que existe "um fio condutor" que liga o trabalho inicial de Navi Pillay em defesa de Nelson Mandela e outros que se opuseram ao apartheid "ao seu trabalho como juíza em alguns dos principais casos jurídicos internacionais de nossa época".
Após defender vários opositores do apartheid, Pillay foi eleita juíza do Tribunal Penal Internacional para Ruanda pela Assembleia Geral da ONU, criado para julgar os responsáveis pelo genocídio de 1994 naquele país africano — em que, em apenas cem dias, cerca de 800 mil pessoas foram massacradas por extremistas étnicos hutus. Ela atuou na corte por oito anos, incluindo quatro anos como presidente.
Entre 2008 e 2014, ocupou o cargo de Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. É a principal autoridade da ONU dedicada a acompanhar violações cometidas por governos no mundo inteiro.
Até recentemente, Pillay presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado.
Atualmente, a sul-africana é juíza da Corte Internacional de Justiça no caso em que Mianmar é acusado de genocídio.
Relatório sobre crimes em Gaza
Em setembro do ano passado, sob a liderança de Pillay, a comissão da ONU sobre o Território Palestino Ocupado publicou um relatório que concluiu que Israel havia cometido genocídio na Faixa de Gaza e que autoridades israelenses de alto escalão, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, haviam incitado esses atos.
Israel classificou as acusações como escandalosas e acusou os três membros da comissão de servirem como "representantes do Hamas".
Durante o anúncio desta sexta, Frydnes afirmou que Pillay trabalhou para responsabilizar os Estados e seus líderes por seus atos e ofereceu esperança às vítimas.
Ele alertou que o direito internacional está sob enorme pressão e que o que descreveu como uma "política de poder" está ganhando cada vez mais terreno. "Quando a força prevalece sobre a razão, ela mina a estabilidade", acrescentou.
Posteriormente, o presidente do Comitê Norueguês do Nobel disse que a organização não se posicionaria sobre se a ofensiva israelense em Gaza representava genocídio.
"É o relatório dela", disse Frydnes à agência de notícias AFP. "É claro que temos muita fé no seu profissionalismo, na sua integridade, mas esse trabalho é de uma comissão de inquérito da ONU."
Ele diz que a decisão cabe ao Tribunal Internacional de Justiça (CIJ), acrescentando que "o Comitê do Nobel não é o tribunal".
Ao receber a notícia de que havia ganhado o prêmio, Pillay se referiu ao relatório sobre Gaza: "A última coisa que fiz foi entregar o relatório sobre Gaza, qualificando o que está acontecendo lá como genocídio".
No Palácio da Justiça de Nuremberg, ela afirmou que o prêmio foi dado a ela por sua coragem. "Mas por que você precisaria de coragem para falar a verdade?", questionou.
"Você interpreta a lei, você olha para todos os fatos. É uma tomada de decisão imparcial", afirmou.
Ela afirmou ainda que continua atuando na área dos direitos humanos, dessa vez julgando acusações contra Mianmar.
"Todo mundo pergunta 'quando você vai parar', 'quando você vai parar'?. Acabei de fazer 85 no mês passado", disse.
'Poucos dedicaram suas vidas à justiça como Pillay'
Ao parabenizar Pillay pela conquista do Prêmio Nobel da Paz, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que ela "encarou a brutalidade da injustiça de frente e jamais desviou o olhar".
"Ela é a defensora dos perseguidos, dos vulneráveis, dos sem voz e dos excluídos", continuou Von der Leyen.
Em um post no X, ela escreveu que poucos dedicaram suas vidas à "justiça, à paz e à dignidade humana" como Navi Pillay.
"Em um mundo que precisa de justiça mais do que nunca, sua coragem e clareza moral são uma bússola preciosa", concluiu.
Volker Turk, atual Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, afirmou que sua antecessora ter recebido o prêmio é uma "vitória coletiva para os direitos humanos".
"Parabenizo calorosamente minha irmã, minha irmã mais velha, Navi Pillay, por este prêmio fantástico, absolutamente fantástico", disse Turk em entrevista coletiva da ONU.
"Dizer que é bem merecido é um eufemismo total, especialmente em um momento em que os direitos humanos estão sob ataque em tantas frentes, incluindo por parte daqueles que exercem um enorme poder", acrescentou.
Já a secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, que estava com Pillay na Alemanha quando ela descobriu que tinha ganho o prémio, disse que a sul-africana é uma "escolha inspiradora" para o Prêmio Nobel da Paz.
"A impressionante biografia de Navi testemunha seu trabalho e compromisso com o direito internacional e a justiça internacional", escreveu Callamard no X.
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