Protestos estudantis continuam e governo da França promete 3 mil professores a mais nas escolas
O ministro da Educação da França, Edouard Geffray, apresenta sua oferta após mais um dia de manifestações, algumas delas violentas, dos estudantes do ensino médio.
Após semanas de protestos estudantis com confrontos e quase 6.900 prisões, o governo francês cedeu e prometeu alocar 3 mil professores substitutos para cerca de 500 escolas prioritárias, além de pagar horas extras a docentes. As manifestações, que reuniram 71 mil pessoas e fecharam liceus, exigem mais verbas para a educação secundária. Apesar da concessão oficial, líderes estudantis consideraram as medidas insuficientes e mantiveram a convocação de novos atos em meio à crescente tensão política.
O governo da França apresentou seu primeiro sinal de concessão aos adolescentes manifestantes do país, prometendo destacar mais 3 mil professores substitutos nos próximos dias.
O ministro da Educação francês, Edouard Geffray, fez a oferta em uma entrevista para a televisão na noite de quinta-feira (8/10), ao final de mais um dia de manifestações, algumas delas violentas, por estudantes do ensino médio.
O governo afirma que 6.877 pessoas foram presas, 86% das quais menores de 18 anos, desde o início dos protestos exigindo aumento dos recursos para a educação secundária.
Durante o que os sindicatos denominaram de Quarto Ato do movimento que já dura três semanas, cerca de 71 mil pessoas realizaram protestos em todo o país na quinta-feira (8/10). Destas, 24 mil se reuniram na Bastilha, em Paris.
A polícia interveio novamente com gás lacrimogêneo para dispersar os grupos que os atacaram com paralelepípedos e fogos de artifício domésticos.
Em Bordeaux, os manifestantes saquearam um liceu (o nome dado, na França, às escolas destinadas a jovens de 15 a 18 anos) e, em Marselha, um vice-diretor foi agredido.
Nesta sexta-feira (9/10), cerca de 140 do total de 3,5 mil liceus do país ficaram total ou parcialmente fechados, o que representa uma grande queda em relação aos dias anteriores. Mas outro dia de manifestações foi convocado para a próxima terça (13/10).
O anúncio de Geffray foi a primeira concessão concreta às reivindicações dos manifestantes.
Todas as pessoas envolvidas com a educação na França reconhecem, há muito tempo, que muitas horas de aulas são perdidas devido à ausência de professores, que não são substituídos por docentes temporários disponíveis.
O ministro declarou que, graças ao novo software sendo oferecido online pelo Ministério, será possível destacar 3 mil professores substitutos para os cerca de 500 liceus identificados como os mais necessitados.
Muitas dessas escolas provavelmente ficam em subúrbios das grandes cidades, com alto percentual de imigrantes, onde há maior carência de professores.
Geffray também afirmou que será disponibilizado mais dinheiro para um esquema já existente para os professores que desejam fazer hora extra para preencher as lacunas.
O ministro prometeu ainda que as queixas dos estudantes serão levadas em consideração nas próximas discussões do setor de educação para o orçamento estatal de 2027.
Mas a oferta não continha promessas importantes de novos investimentos em escala que pudesse agradar os manifestantes.
O governo receia parecer estar comprando a paz da sociedade, já que a situação precária da dívida francesa é acompanhada de perto pelos mercados financeiros internacionais.
A reação dos líderes estudantis foi cautelosa, para dizer o mínimo.
Nathanaël Combary, representante do Renouveau Lycéen ("Renovação dos Liceus"), o mais moderado dos três principais sindicatos dos liceus franceses, declarou que os estudantes aguardam para ver como a promessa será conduzida na prática.
"Tivemos alguns anúncios que correspondem a parte das nossas exigências", segundo ele. "Mas, obviamente, as pessoas querem ver o dinheiro e resultados mais concretos."
"Enquanto não tivermos 10 bilhões de euros [cerca de R$ 56 bilhões] sobre a mesa, prosseguiremos com nossas ações", declarou Sabrine Kharbach, da União dos Estudantes. A entidade é próxima do partido de extrema esquerda France Insoumise ("França Insubmissa"), do candidato à presidência Jean-Luc Mélenchon.
'Retomada da Bastilha'
Mélenchon elogiou as manifestações de quinta-feira (8/10). Ele afirmou no X que os estudantes haviam "retomado a Bastilha".
Mas, no outro lado do espectro político, um porta-voz do Rali Nacional (RN), de extrema direita, condenou as concessões do governo.
"A mensagem é: se vocês quebrarem tudo, receberão as coisas", afirmou o deputado Laurent Jacobelli.
"Quando vocês queimam carros e atacam a polícia, ganham algo em retorno. É a legitimização da violência."
O movimento atual é o protesto estudantil mais sério da França em muitos anos.
Ele surgiu em um cenário de aumento das tensões no país, em meio ao furor causado pelo aumento dos preços dos combustíveis e às dificuldades no setor agrícola, que também podem gerar protestos.
O sábado 17 de outubro foi marcado como um dia de manifestações, com uma nova edição do movimento dos "coletes amarelos", que forçou o governo francêes a suspender um aumento dos impostos sobre os combustíveis, após protestos e tumultos em 2018.
E a aproximação das eleições presidenciais francesas, entre abril e maio, também exacerba a disposição para o confronto. A expectativa é que os partidos radicais, de direita e de esquerda, atinjam fortes resultados nas eleições.
O governo espera que a chegada dos feriados de meio de semestre, no final da próxima semana, além do tempo mais frio e úmido, possa enfraquecer os protestos.
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