Padre 'compara' papa Leão XIV com Beatles, cita cálice escondido em máquina de lavar e diz que segredo virou meme
Antes de assumir o posto do papa Francisco há um ano, Robert Prevost visitou locais em São Paulo e celebrou missas na capital
O que você estava fazendo no dia 8 de maio do ano passado, quando Robert Prevost foi o escolhido no conclave para substituir o papa Francisco e se tornou o papa Leão XIV? O padre Tarcísio Mesquita, da Paróquia São Carlos Borromeu, na capital paulista, pensava em onde esconder o cálice que foi usado pelo novo líder da Igreja Católica em sua passagem pelo Brasil.
Com medo do objeto sagrado ser roubado, já que começaram a circular fotos do papa celebrando uma missa com o cálice em mãos, o padre acabou levando o item para sua casa e o escondeu em um local inusitado. Em entrevista ao Terra, ele conta os bastidores da história que virou meme entre o clero brasileiro --e que pode até já ter chegado aos ouvidos de Leão XIV, como brinca.
O cônego Tarcísio Mesquita, que passou mais de 14 anos em outra comunidade, tinha assumido o posto de pároco da São Carlos Borromeu há cerca de um mês quando o papa Leão XIV virou papa. Ele ainda estava se adaptando à mudança, conhecendo o pessoal, até que de repente se viu no papel de zelar por um objeto litúrgico que passou pelas mãos do ‘santo padre’ em 2012, em uma visita à comunidade agostiniana --ordem religiosa da Igreja Católica que segue os ensinamentos de São Agostinho.
Considerando o fato de furtos serem comuns na realidade de paróquias em São Paulo, e que ele ainda não sabia muito sobre os esquemas de segurança da igreja, a preocupação bateu.
“Eu ainda não tinha muito domínio sobre portas, fechaduras e armários na paróquia, então eu levei [o cálice usado pelo papa] para minha casa”, explica. A segunda parte da missão veio ao chegar em casa: “Onde eu coloco esse cálice?” -- padre Tarcísio Mesquita ao Terra
Mesquita pensou em esconder debaixo da cama, no armário da cozinha, debaixo da almofada do sofá… Mas todos os locais pareciam óbvios se fosse um caso de um ladrão invadir seu pequeno apartamento na capital paulista em busca do cálice. No intuito de fugir do óbvio, a máquina de lavar se mostrou o local perfeito.
“Com todo respeito ao cálice, porque é um objeto sagrado. Mas o meu desejo era preservar uma coisa que é um patrimônio da comunidade e que se tornou um patrimônio especialíssimo dado o fato que o hoje papa tomou nas mãos aquele cálice e celebrou a eucaristia usando do cálice e da âmbula aqui da nossa comunidade paroquial”, relembra.
Segredo revelado virou meme
O segredo foi revelado em matéria publicada pelo Terra há um ano, logo após o Vaticano anunciar o novo papa. Foi assim que o padre, que ainda não tinha comentado sobre o feito com ninguém, acabou virando meme entre outros colegas de clero.
“Um padre me ligou: ‘Tarcísio, você poderia me emprestar a máquina de lavar para a minha procissão da padroeira?’ Na hora eu não entendi dele falar aquilo, né? Depois pensei, ‘ai, meu Deus, ele leu no Terra’”, relembra, dando risada da situação. A história também foi assunto em um grupo de padres no WhatsApp e seguiu perseguindo o pároco onde ele ia. Até o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, tirou sarro da situação.
Para o padre, essa situação também vem para quebrar um pouco do estigma que se tem com relação à vida dos padres. “Às vezes as pessoas acham que a nossa vida é muito sisuda, e não é verdade. Nós temos aqueles momentos mais difíceis, momentos mais isolados. Mas em geral, entre nós, nós somos muitos dados também a sorrir.”
A situação também vem para ensinar de outras formas. O cálice acabou ficando "famoso", mas ele não é um item luxuoso, e isso remete à simplicidade que tanto faz parte dos agostinianos. Além disso, como pontua o pároco, toda essa história lembra os ensinamentos do papa Francisco de acolhida e do convite ao sorrir. “O papa Francisco dizia que é importante ter bom humor. Acho que tudo se juntou, se encaixou de alguma maneira”.
"Ele não é um cálice de altíssimo valor, nada disso, né? não é uma peça de ouro maciço com pedras preciosas cravejadas, o que faz, eu acredito, isso ainda mais bonito" -- Tarcísio Mesquita
E agora, onde o cálice está?
O cálice agora fica guardado em segurança dentro da igreja, junto a outros objetos litúrgicos. Ele não é o único cálice que a igreja tem e, dado o valor que recebeu, é utilizado apenas em momentos especiais.
O cálice é leve, bonito, repleto de detalhes. O pároco não sabe precisar desde quando o item faz parte da igreja, nem sabe precisar seus materiais, mas identifica se tratar de um item folheado parte a prata e parte a ouro, com uma charmosa pedrinha azul. É levinho. Ele chuta que, atualmente, o valor de mercado de um item do tipo deve estar R$ 1,8 mil em média. Apesar de ser caro, itens do tipo ficam anos e anos sendo usados pela igreja.
“Não é nada de luxo, não é nada de grande valor. O valor do cálice é que ele é dessa comunidade, há muitos anos é usado para celebrar a missa, E agora, particularmente, ele tem esse valor também embutido nele, que é o cálice usado pelo atual Papa Leão XIV”.
De Leão XIII a Leão XIV: relembre os últimos 12 papas
O papa Leão XIV, que completa um ano de papado neste ano, é o 267º sumo pontífice da Igreja Católica
![[Imagem do Papa Leão XIII]](https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/65/Papa_Leone_XIII_%281898%29.jpg)
‘É que nem pra quem ama os Beatles conhecer o Paul MacCartney’
Quando Robert Francis Prevost, o agora papa Leão XIV, visitou a Paróquia São Carlos Borromeu, no bairro Belenzinho, na capital de São Paulo, em 2012, ele era prior geral da Ordem de Santo Agostinho. Ou seja, era uma liderança mundial dos Agostinianos.
O papa seria nomeado bispo dois anos depois, mas, na ocasião, era somente padre. Mesmo assim, pelo cargo de liderança, foi “tietado” na comunidade quando celebrou a missa no Brasil. Mas o que tinha sido apenas um encontro especial, se tornou um momento de grande orgulho para quem o conheceu na ocasião.
“Naquela época ele não era um figuraça, agora conhecido no mundo inteiro, mas ele era bem conhecido dentro do âmbito dos padres agostinianos e dos trabalhos desempenhados pelos padres agostinianos e pelo laicato relacionado ao empenho pastoral dos agostinianos. Se ele viesse aqui, acho agora que tinha que fechar o bairro, né?.”
“O pessoal fica muito orgulhoso, né? ‘Ah, eu conheci o papa. É que nem para alguém que ama os Beatles conhecer o Paul McCartney, né? Deve ser o mesmo fenômeno”, brinca o padre Tarcísio Mesquita. Se a visita fosse hoje, o pároco, bem-humorado, diz que teria quem acampasse em frente à igreja – “que nem adolescente em show de cantor, tipo do [Justin] Bieber, quando era novinho”.
Quando a comunidade se deu conta de que o cálice usado pelo papa segue na igreja, muitos pediram para tirar foto com os itens sagrados e queriam ver de perto. “Tem gente que achou que aqui ia virar um centro de peregrinação por causa do cálice. Eu falo assim: ‘Não exagerem, não é assim também’. Como a gente diz, ‘menos, menos, menos’”, ri o padre.
Papa Leão XIV
Destaques do Primeiro Ano
-1hrosahk38mcx.jpg)