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Ofensiva houthi provoca crise humanitária com 76 mil deslocados e superlotação extrema no Yêmen

A ofensiva dos Houthis no oeste do Iêmen provocou nova onda de deslocamentos que pressiona a já saturada cidade de Aden, capital provisória do governo reconhecido internacionalmente. A captura das últimas ilhas do estreito de Bab el‑Mandeb consolidou o controle rebelde sobre a costa do mar Vermelho, enquanto ataques e contra‑ataques envolveram a Arábia Saudita. A ONU informou que ao menos 76 mil pessoas foram deslocadas desde julho, número que quadruplicou na última semana.

12 set 2026 - 14h24
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Resumo
A ofensiva dos rebeldes houthis no Iêmen consolidou o controle sobre o mar Vermelho e o estreito de Bab el-Mandeb, forçando a fuga de mais de 76 mil pessoas desde julho. O avanço militar e os bombardeios sauditas agravaram a crise humanitária e sobrecarregaram a cidade de Aden, que já abriga centenas de milhares de deslocados. Sem recursos e com serviços essenciais em colapso, milhares de famílias enfrentam escassez extrema de água, comida e abrigo em meio ao declínio da ajuda internacional.

A captura das últimas ilhas do estreito de Bab el‑Mandeb, anunciada na sexta‑feira (11), consolidou o controle dos rebeldes sobre toda a costa do mar Vermelho. No mesmo dia, a Arábia Saudita fechou temporariamente o oleoduto Leste‑Oeste após sofrer ataques, enquanto os Houthis afirmaram ter sido alvo de dezenas de bombardeios sauditas. A ONU informou que ao menos 76 mil pessoas foram deslocadas desde julho, número que quadruplicou na última semana.

Com seus onze filhos e alguns pertences amontoados na caminhonete, Saddam Ali fugiu da região de al‑Waziiyah rumo a Aden, já sobrecarregada por sucessivas ondas de deslocados. Como milhares de iemenitas encurralados pela ofensiva do movimento apoiado pelo Irã, ele deixou sua casa às pressas, sem saber onde encontraria abrigo. Ao chegar, encontrou apenas a rua. "Não achamos água nem comida, e o calor é sufocante", disse à AFP.

Ao redor, caminhonetes lotadas de pessoas e objetos empilhados no teto cruzam as vias estreitas da cidade. Aden se tornou capital provisória em 2014, após a tomada de Sanaa pelos Houthis, evento que desencadeou a guerra. Desde então, sua população dobrou com o fluxo de pessoas que fogem das áreas controladas pelos rebeldes em busca de segurança e trabalho. A cidade também recebe migrantes da África que tentam alcançar monarquias do Golfo, mas acabam retidos no país mais pobre da península Arábica.

Em 2025, Aden já contava com 755 mil deslocados oficialmente registrados, em uma população estimada de 3,5 milhões, segundo o Ministério de Assuntos Sociais e Trabalho. A nova tomada de Bab el‑Mandeb deve aumentar ainda mais a pressão sobre suas frágeis infraestruturas e serviços públicos, num momento em que a ajuda humanitária se torna cada vez mais escassa.

Deslocamentos em massa e relatos de pânico

Vindo de Mokha, cidade tomada pelos Houthis na quinta‑feira, Abdulalim Al‑Rajihi descreve a fuga como um episódio de desespero. "Nos disseram: 'Saiam, dispersem‑se. Vocês têm meia hora'. O que se faz em meia hora?", relatou. "Fugimos com a roupa do corpo e levamos as crianças." Ele afirma que muitos moradores foram pegos de surpresa, descrevendo "crianças, mulheres, idosos… cenas de horror".

O avanço dos rebeldes ocorre após o Iêmen voltar à guerra em julho, rompendo anos de relativa calma desde a trégua de 2022. Desde a retomada dos combates, ao menos 76 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas, segundo a ONU. Mais de 70 mil fugiram apenas desde setembro, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM). A entidade alertou para "uma crise de deslocamento", afirmando que estoques de emergência já se esgotaram após operações recentes para enfrentar enchentes.

A OIM destacou necessidades urgentes de abrigo, alimentos, água e itens básicos. A combinação entre ofensiva militar, colapso de serviços públicos e redução da ajuda internacional cria um cenário de vulnerabilidade extrema para famílias que chegam a Aden sem qualquer estrutura de acolhimento.

Bab el‑Mandeb sob controle rebelde

A captura das últimas ilhas do estreito de Bab el‑Mandeb pelos Houthis tem implicações estratégicas para o comércio marítimo global. O movimento afirmou que a navegação permanece "segura" para todas as companhias, exceto navios sauditas. O estreito é rota essencial entre o mar Vermelho e o golfo de Áden, conectando fluxos comerciais que abastecem Europa, Ásia e o Oriente Médio.

A Arábia Saudita, alvo de ataques ao longo da semana, anunciou o fechamento temporário do oleoduto Leste‑Oeste. Segundo a imprensa houthi, duas ofensivas sauditas atingiram o aeroporto de Mokha na sexta‑feira, e a agência Saba afirmou que cerca de quarenta bombardeios foram realizados pelo reino. A escalada amplia o risco de interrupções logísticas e pressiona ainda mais a população civil.

Para famílias como a de Saddam Ali, a guerra se traduz em deslocamentos sucessivos, perda de meios de subsistência e ausência de perspectivas. "Não há casas, não há abrigo", lamenta. A cidade que deveria oferecer refúgio se tornou espaço improvisado de sobrevivência, onde crianças caminham descalças entre escombros enquanto adultos buscam água sob calor extremo.

Aden à beira do colapso humanitário

A superlotação de Aden expõe limites de uma cidade que já não consegue absorver novas chegadas. Infraestruturas básicas — água, saneamento, eletricidade, saúde — operam no limite. Com a ajuda internacional em queda, organizações locais tentam suprir lacunas, mas enfrentam falta de recursos e insegurança crescente.

A nova onda de deslocados, impulsionada pela tomada de Bab el‑Mandeb, deve agravar o colapso. A cidade se tornou símbolo da crise humanitária iemenita: ponto de fuga, mas também de bloqueio, onde milhares permanecem sem abrigo, sem renda e sem acesso regular a serviços essenciais.

A guerra, que já dura mais de uma década, continua a redesenhar o mapa humano do país. Para muitos, a travessia até Aden é apenas o início de uma espera indefinida por segurança, assistência e estabilidade.

RFI com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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