Israel se prepara para eventual ataque do Irã, em caso de ação militar dos EUA no país
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não descarta uma ação militar no Irã para pôr fim à repressão do regime aos protestos no país. Caso a ameaça americana se concretize, membros do alto escalão do governo iraniano prometem atacar Israel, que aguarda em estado de prontidão máxima. Em meio às tensões na região, Washington anunciou a transição para a segunda fase do acordo de estabilização na Faixa de Gaza.
Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel
De acordo com a imprensa israelense, a avaliação das autoridades do país não é mais "se" o presidente Trump vai determinar uma ação, mas qual será, quando e com qual intensidade. Israel e EUA compartilham informações e, em Jerusalém, o governo deverá ser avisado horas antes da ação norte-americana, caso ela seja colocada em prática.
Uma fonte do alto escalão israelense, citada de forma anônima pelo Canal 12, disse acreditar que a resposta do Irã dependerá do alcance do ataque norte-americano. Se for uma operação limitada, é possível que o Irã não ataque Israel. Mas uma ofensiva ampla provavelmente levará o regime iraniano a atacar o território israelense.
O Irã buscaria também atingir alvos de Israel no exterior, como embaixadas e representações do país ou instituições das comunidades judaicas. O porta-voz do Exército de Israel, Effie Defrin, disse que as forças do país não têm intenção de atacar o Irã e que as manifestações são assunto interno iraniano.
As mesmas declarações foram feitas pelo chefe do Estado-Maior do Exército, Eyal Zamir, que já participou de uma série de reuniões de atualização sobre os protestos e a repressão no país. Diversas personalidades do alto escalão iraniano têm repetido quase diariamente que atacarão Israel em caso de uma ação norte-americana.
O Ministério da Saúde de Israel enviou aos hospitais uma circular de atualização sobre os procedimentos a serem adotados em caso de necessidade de transição da rotina para situação de emergência. O documento detalha as ações a serem tomadas, incluindo a transferência de pacientes para áreas protegidas.
Uma fonte do hospital Sheba, em Tel Hashomer, o maior do país, confirmou o recebimento do documento e também disse que a rotina é normal até este momento. Segundo esta fonte, "o hospital está sempre preparado" para qualquer situação.
Apoio a protestos
Apesar do bloqueio da internet no Irã, o ministro das Relações Exteriores do país, Abbas Araghchi, recorreu à sua conta na plataforma X para culpar Israel pelas manifestações e pelas mortes. "Com sangue em nossas ruas, Israel se vangloria de ter armado manifestantes. Essa é a razão para as centenas de mortes", acusou o ministro, sem apresentar provas.
O ministro tampouco explicou os motivos que levaram o governo iraniano a cortar o acesso à internet. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu orientou os membros do governo a evitarem manifestações públicas de apoio aos protestos e não oferecerem argumentos que possam alimentar a narrativa do regime iraniano de interferência externa e, dessa forma, esvaziar a legitimidade do movimento.
"Sofremos com a falta de água e apagões diários. O regime culpa o aquecimento global e nossos 'inimigos'. A realidade é que estamos sofrendo por causa da corrupção e da péssima gestão de um regime que não tem a menor ideia de como administrar um país, e ainda assim é especialista em exportar terrorismo e fornecer mísseis e armas a grupos aliados", disse uma jovem iraniana, que pediu para não ser identificada.
Em Israel, na noite de quarta-feira, cerca de 500 pessoas se reuniram em Holon, na região central do país, para demonstrar solidariedade aos manifestantes iranianos. "Em 2022, vimos a forma como o regime trata as mulheres. Agora, vemos como o regime trata com violência todos os que se manifestam. Chegou a hora de dar um fim a isso", diz a atriz Sogand Fakheri, que deixou o Irã em 2007 e desde então vive em Israel.
Segundo o canal de oposição Iran International, baseado em Londres, no Reino Unido, o número de mortos pelas forças de segurança iranianas já chegou a 12 mil. As autoridades israelenses consideram que esse número pode variar entre 4 mil e 5 mil. A Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (HRANA, sigla em inglês), sediada nos Estados Unidos, relata 2 mil mortos, mesmo número citado por um oficial iraniano, de acordo com a agência Reuters.
Segunda fase do cessar-fogo em Gaza
O enviado americano para o conflito em Gaza, Steve Witkoff, anunciou a transição para pôr fim ao conflito que, de forma ampla e segundo o plano de 20 pontos anunciado por Donald Trump, deverá incluir a desmilitarização do território e o desarmamento do Hamas, a formação de um governo tecnocrático, a chegada de uma Força Internacional de Estabilização e a reconstrução da Faixa de Gaza.
Houve também a divulgação dos 15 palestinos que vão compor o comitê que deverá governar o território palestino em substituição ao Hamas. Além do presidente do comitê, Ali Shaath, que anteriormente ocupou cargos de alto escalão na Autoridade Palestina (AP) e atuou como vice-ministro do Planejamento, os demais membros, de acordo com fontes israelenses, palestinas e norte-americanas, são: Ayed Abu Ramadan, chefe de Comércio e Economia (presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Gaza); Omar Shamali, chefe da pasta de Telecomunicações (diretor da Palestinian Telecommunications em Gaza); Abdul Karim Ashour, chefe da pasta de Agricultura (diretor da Agricultural Relief e ativista comunitário); Aed Yaghi, chefe da pasta de Saúde (diretor da Palestinian Medical Relief Society); Jaber al-Daour, chefe da pasta de Educação (presidente da Universidade Palestina); e Bashir Al-Rayyes, chefe da pasta de Finanças (consultor de engenharia e finanças).
"O comitê vai coordenar com o governo da AP os serviços públicos e sociais em Gaza, além de trabalhar com agências internacionais de ajuda e as Nações Unidas." Além disso, a expectativa é que os países doadores criem um fundo para financiar as atividades desse comitê.
De acordo com o ativista palestino Samer Sinijlawi, os membros do comitê devem se reunir em breve no Cairo, capital do Egito. Apesar do anúncio sobre a segunda fase do acordo, há indignação por parte dos familiares de Ran Gvili, o último refém israelense cujos restos mortais ainda estão na Faixa de Gaza.
Após se reunir com os pais de Gvili, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, divulgou um comunicado pedindo ao Hamas que respeite o acordo. "O governo de Israel insiste que as informações fornecidas aos mediadores pelo coordenador para Assuntos de Reféns e Desaparecidos (de Israel) e sua equipe devem se traduzir imediatamente em ações efetivas no terreno. O Hamas é obrigado a cumprir os termos do acordo e a envidar todos os esforços para o retorno dos reféns mortos, até o último deles, Ran Gvili, um herói de Israel."