Script = https://s1.trrsf.com/update-1789154714/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

As Principais Notícias da Europa

Publicidade

'Ninguém nos ditará com quem o Canadá pode se relacionar', diz Carney após ameaça de Trump à UE

A proposta da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, de conceder ao Canadá um status inédito de "membro associado" da União Europeia abriu uma nova frente de tensão entre Bruxelas e Washington. Enquanto o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, acolheu a iniciativa como uma oportunidade para aprofundar a cooperação entre democracias e reforçar a autonomia estratégica de ambos os lados do Atlântico, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou a ideia como "ridícula" e ameaçou retaliar comercialmente o bloco europeu.

17 set 2026 - 10h30
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
Após a União Europeia propor uma inédita associação estratégica com o Canadá, Donald Trump ameaçou retaliar o bloco europeu com tarifas caso veja a aliança como um ato hostil aos Estados Unidos. Em resposta, o premiê canadense Mark Carney defendeu a aproximação para garantir autonomia econômica mútua, afirmando que ninguém ditará as relações de Ottawa e criticando o uso do comércio como coerção. O movimento reflete a busca conjunta de Canadá e UE por novos parceiros frente às pressões de Washington.

O anúncio foi feito na quarta-feira (16) por Ursula Von der Leyen durante seu discurso anual sobre o Estado da União, na presença de Carney. Além do novo status de associação, ainda sem contornos definidos, a presidente da Comissão Europeia propôs a participação canadense em um futuro Conselho de Segurança Europeu.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney (à esquerda), e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apertam as mãos durante uma reunião bilateral no gabinete dela no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, França, na quarta-feira, 16 de setembro de 2026.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney (à esquerda), e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apertam as mãos durante uma reunião bilateral no gabinete dela no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, França, na quarta-feira, 16 de setembro de 2026.
Foto: Justin Tang/The Canadian Press v - Justin Tang / RFI

A iniciativa pegou de surpresa vários Estados-membros da UE, segundo diplomatas em Bruxelas, mas foi recebida com entusiasmo pelo governo canadense. Em discurso no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, nesta quinta-feira (17), Carney apresentou a aproximação entre Ottawa e Bruxelas como uma resposta às transformações geopolíticas e econômicas em curso.

"Uma aliança entre o Canadá e a UE seria um farol para outras democracias; uma aliança definida não pelo que nos opomos, mas pelo que defendemos", afirmou Carney.

O premiê destacou valores compartilhados como liberdade, solidariedade e respeito à soberania, acrescentando que os canadenses apoiam amplamente uma cooperação mais estreita com a Europa.

"Ninguém nos ditará com quem o Canadá pode se relacionar", declarou posteriormente a jornalistas, em uma referência indireta às críticas vindas de Washington.

Mark Carney procurou, no entanto, afastar a ideia de que a proposta europeia representaria a formação de um bloco voltado contra os Estados Unidos.

"Não buscamos poder para dominar os outros. Pelo contrário, buscamos resiliência para que ninguém possa controlar nossos mercados abertos, infringir nossa soberania ou comprometer nossas liberdades", afirmou o primeiro-ministro canadense.

Embora sem mencionar diretamente Donald Trump, o líder canadense fez uma crítica implícita ao uso crescente de instrumentos econômicos como ferramenta de pressão política. "A integração econômica está sendo usada como arma, e as tarifas, como meio de coerção. Os mecanismos financeiros estão sendo usados para coerção. As cadeias de suprimentos são pontos fracos a serem explorados", disse aos eurodeputados.

Ameaça dos EUA de impor tarifas

Desde o retorno de Trump à Casa Branca, as relações entre Ottawa e Washington se deterioraram. O Canadá foi alvo de tarifas sobre dezenas de bilhões de dólares em comércio bilateral, levando o governo canadense a buscar novos parceiros econômicos e estratégicos.

A reação americana à proposta europeia foi imediata. Durante uma viagem à Carolina do Norte, Trump afirmou que poderá impor medidas severas caso considere que a associação do Canadá à UE represente um gesto hostil aos interesses dos Estados Unidos.

"Se ela fizer isso, se eu julgar que seja um ato hostil, imporei tarifas muito altas ou suspenderei o comércio com a Europa sobre muitos produtos", declarou o presidente americano a jornalistas. "Se a intenção for boa, ótimo. Se a intenção for ruim, imporemos tarifas muito altas à Europa", acrescentou, visivelmente preocupado com iniciativas que possam fortalecer alianças econômicas e políticas fora da órbita americana.

Trump já havia classificado a proposta de Von der Leyen como "ridícula", aumentando a pressão sobre os europeus.

Bruxelas tentou minimizar o atrito. Questionado sobre as ameaças do presidente americano, o porta-voz da Comissão Europeia para o comércio, Olof Gill, afirmou que o aprofundamento dos laços com o Canadá "não é dirigido contra ninguém".

"Estamos comprometidos em estreitar ainda mais os laços com o Canadá", afirmou.

França adota neutralidade

A França adotou um tom mais cauteloso. O ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, declarou apoiar o fortalecimento das relações entre a UE e o Canadá, mas ressaltou que a proposta precisará ser "debatida, analisada e examinada minuciosamente" antes de uma posição definitiva de Paris.

Para Carney, porém, o debate sobre o formato institucional da associação é secundário. "O que importa é a substância, o que construiremos juntos", afirmou. O primeiro-ministro canadense defendeu uma cooperação aprofundada em setores considerados estratégicos, como minerais críticos, inteligência artificial, base industrial de defesa e segurança energética.

"O Canadá e a Europa devem garantir nossa autonomia estratégica por meio de uma profunda cooperação que abarque todas as capacidades estratégicas", declarou.

A proposta de Ursula von der Leyen surge em um contexto de crescente incerteza sobre o futuro da relação transatlântica. Enquanto a União Europeia procura reduzir dependências externas e reforçar sua posição entre Estados Unidos e China, o Canadá busca diversificar suas parcerias diante das tensões comerciais com seu principal aliado histórico.

Ao defender uma "aliança única" entre Ottawa e Bruxelas, Mark Carney deixou claro que pretende aproximar o Canadá da Europa sem romper com Washington. As ameaças de Trump, porém, mostram que esse reposicionamento geopolítico poderá ter custos diplomáticos e comerciais cada vez mais elevados para os dois lados do Atlântico.

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra