Disparada de preços de combustíveis reacende protestos e pressiona governos pelo mundo
A revolta social se espalha pelo mundo diante da disparada dos preços do diesel e do óleo combustível, mas é na França que o aumento dos combustíveis começa a ganhar uma dimensão política particularmente sensível, a poucos meses da eleição presidencial. O receio do retorno dos "coletes amarelos", movimento que sacudiu o país a partir do final de 2018, após uma alta dos impostos sobre os combustíveis, voltou ao centro do debate diante da nova escalada dos preços e do aumento da mobilização social.
A alta recorde dos combustíveis reacende tensões globais e pressiona governos. Na França, pescadores bloqueiam depósitos e teme-se a volta dos coletes amarelos, levando o governo a prorrogar subsídios em meio a convocações de greves. O impacto do encarecimento do diesel e da gasolina também deflagra protestos na Bolívia e na Síria, além de onerar famílias e produtores nos EUA, encarecendo a produção de alimentos e o transporte e reduzindo o poder de compra em todo o mundo.
Uma pesquisa do instituto Odoxa‑Backbone para o jornal Le Figaro, divulgada nesta quinta‑feira (17), mostra que 88% da população prevê o ressurgimento do movimento que sacudiu o país entre 2018 e 2019.
O governo francês divulgou novos dados sobre a variação dos preços dos combustíveis, que atingiram níveis recordes. O litro do diesel é vendido, em média, a € 2,29 (R$ 13,54), após alta de 3,4 centavos em poucos dias. Já a gasolina custa, em média, € 2,15 (R$ 12,71), valor também próximo de um recorde histórico. O cenário alimenta o temor de uma nova onda de insatisfação social, tendo a guerra no Oriente Médio como pano de fundo.
Nas redes sociais, antigas figuras dos coletes amarelos começam a se manifestar e a mobilizar a população. Além delas, lideranças políticas de esquerda, como o comunista Fabien Roussel e a ecologista Marine Tondelier, convocam os franceses a sair às ruas. Duas manifestações sindicais contra o aumento do custo de vida já têm data marcada: 29 de setembro e 17 de outubro. Os atos contam também com o apoio do Partido Socialista e da França Insubmissa, legenda da esquerda radical.
Pescadores no centro da revolta
Algumas categorias, como os pescadores, se anteciparam e deram início às mobilizações por conta própria, bloqueando, desde o início da semana, o acesso a um depósito de petróleo em Frontignan, no sul da França. Para o jornal Les Echos, os protestos já afetam as discussões do governo sobre o orçamento público de 2027. Segundo o diário, o presidente Emmanuel Macron pediu mobilização total em relação ao abastecimento e aos preços dos combustíveis.
Pressionado, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, anunciou na quarta-feira (16) a prorrogação, até 31 de dezembro, das ajudas sociais direcionadas aos combustíveis. Para os pescadores, o auxílio será elevado de 25 para 35 centavos por litro. O valor retorna, assim, ao "nível máximo autorizado pela Comissão Europeia para permitir que os navios continuem a sair ao mar", explicou o gabinete do premiê.
O anúncio não parece ter sido suficiente para abafar os protestos. Cerca de uma centena de manifestantes permanecia, na manhã desta quinta-feira, em frente ao depósito de petróleo de Frontignan. Outros grupos de pescadores também começam a bloquear o acesso a portos franceses.
Tensão mundial
A pressão não é exclusiva da França. Na Bolívia, centenas de agricultores protestaram contra a duplicação do preço do diesel determinada pelo governo, uma decisão que também começa a pressionar os preços dos alimentos.
Na Síria, o governo interino aumentou em até 40% o preço da gasolina, provocando manifestações em várias cidades. O reajuste representa uma ruptura com a política de fortes subsídios aos combustíveis praticada durante o regime de Bashar al-Assad e tornou-se um dos primeiros grandes testes sociais para o novo governo.
Nos Estados Unidos, a alta dos combustíveis também pesa sobre famílias e empresas. O diesel ultrapassou US$ 6 por galão (3,785 litros), com aumento superior a 60% em um ano, afetando especialmente agricultores, transportadores e frotas comerciais. A gasolina chegou a uma média nacional de aproximadamente US$ 4,30 por galão. Segundo a Moody's, a alta da gasolina representa para uma família americana uma despesa adicional equivalente a cerca de US$ 1.300 por ano.
O ponto comum entre esses países é o papel do diesel como combustível essencial para o transporte, a agricultura, a pesca e a logística. Quando o petróleo sobe, aumentam os custos de produção e de distribuição, pressionando os preços dos alimentos e dos serviços e reduzindo o poder de compra.
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