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'Falhamos', diz ministro da Justiça após fim de semana de violência e caos na França

O ministro da Justiça francês, Gérald Darmanin, reconheceu nesta segunda-feira (19) que as autoridades "sem dúvida falharam" diante da onda de violência que marcou o fim de semana na França. Segundo ele, houve falha dos serviços de inteligência, pouco preparados para monitorar grupos da ultraesquerda. Os responsáveis por saques e ataques às forças de segurança não ficarão impunes e a resposta da Justiça será "severa", disse o ministro. O movimento dos coletes amarelos convocou novos protestos para sábado (24).

19 out 2026 - 06h33
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Resumo
Após protestos contra o custo de vida reunirem mais de 550 mil pessoas na França, o governo admitiu falhas de segurança diante de saques e violência que deixaram 2.331 detidos e mais de 2 mil comércios vandalizados. Emmanuel Macron rejeitou a demissão do ministro do Interior e convocou um comitê de crise para conter os prejuízos e dialogar com sindicatos, enquanto a oposição intensifica as críticas à gestão do presidente a seis meses das eleições presidenciais.

De acordo com o ministro, 2.331 pessoas foram detidas durante o fim de semana. Cerca de 70% são maiores de idade, e mais de 80% dos casos já resultaram em processos judiciais. Dezenas de suspeitos foram colocados em prisão preventiva, incluindo 13 em Marselha.

Incêndio é registrado durante protesto contra o alto custo de vida em Paris, com a Torre Eiffel ao fundo; mobilização reuniu estudantes, ex-Coletes Amarelos, agricultores e ativistas de diferentes movimentos.
Incêndio é registrado durante protesto contra o alto custo de vida em Paris, com a Torre Eiffel ao fundo; mobilização reuniu estudantes, ex-Coletes Amarelos, agricultores e ativistas de diferentes movimentos.
Foto: AFP - GUILLAUME SALIGOT / RFI

Segundo a Secretaria de Segurança Pública da região, reuniões ou manifestaçõesestão proibidas nesta segunda-feira, das 12h às 20h, em todo o município, anunciou a prefeitura de polícia local. A medida foi adotada após os episódios de violência e saques registrados na cidade à margem da jornada de protestos de sábado.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, também admitiu erros na atuação do governo. Ele reconheceu que houve falta de planejamento e perda de controle da situação em grandes cidades durante os protestos contra o alto custo de vida, iniciados pelas manifestações dos secundaristas em setembro por melhores condições de ensino.

Novos confrontos voltaram a ocorrer no fim do dia em Paris, na Praça da República, principal ponto de concentração dos manifestantes na capital. Houve 350 detenções no domingo e durante a madrugada de segunda-feira em Paris, cerca de 30 lojas foram saqueadas, anunciaram nesta segunda-feira o ministro do Interior, Laurent Nuñez, e o prefeito da capital, Emmanuel Grégoire.

Diante do impacto provocado pela violência, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou nesta manhã uma célula interministerial de crise que abordará três temas principais: economia e comércio, seguros e acompanhamento judicial, segundo o gabinete do governo.

Lecornu também recebeu de Emmanuel Macron a missão de reunir partidos políticos, sindicatos, autoridades locais e parlamentares para discutir a situação. As autoridades estimam que até 30 mil saqueadores tenham atuado na cidade durante os distúrbios de sábado.

Segundo o ministro do Interior, 60 mil policiais e gendarmes foram mobilizados no sábado, número inferior ao mobilizado em grandes manifestações anteriores. Apesar disso, Emmanuel Macron rejeitou o pedido de demissão apresentado pelo ministro, alegando a necessidade de manter a continuidade do comando das forças de segurança.

Em pronunciamento na véspera, o presidente francês denunciou uma "violência desenfreada", atribuída a grupos radicalizados de ultraesquerda e a delinquentes. Segundo ele, os ataques a lojas, prefeituras e edifícios públicos representam uma "agressão direta à República".

Crítica da oposição

O movimento de protesto, inicialmente organizado nas redes sociais, recebeu apoio de sindicatos estudantis e de centrais sindicais mobilizadas por melhores condições de ensino e contra o alto custo de vida. A atuação das autoridades durante as manifestações vem sendo criticada por grande parte da classe política francesa e por diversos prefeitos.

A seis meses da eleição presidencial, a oposição atribui parte da responsabilidade pela crise ao presidente Emmanuel Macron. Os partidos de esquerda acusam o presidente de ignorar as reivindicações dos manifestantes, enquanto a direita cobra uma postura mais firme diante da violência.

O prefeito socialista de Paris, Emmanuel Grégoire, associou os confrontos a uma "forma de deterioração desse movimento social provocada pelo governo". Já Jordan Bardella, presidente do partido Reunião Nacional (RN), afirmou nesta segunda à Europe 1/CNews que "o poder abandonou completamente suas responsabilidades".

Por sua vez, Raphaël Glucksmann, candidato da esquerda à presidência, lamentou o que classificou como "impotência" do presidente e do Estado, avaliando que o "caos" pode favorecer a candidata do RN, Marine Le Pen.

A porta-voz do governo, Maud Bregeon, rebateu as críticas em entrevista à LCI. Segundo ela, "os primeiros responsáveis são os vândalos", embora tenha acusado a França Insubmissa (LFI) de ter uma "responsabilidade moral e política" pelos episódios de violência.

Impacto econômico

Os distúrbios também tiveram forte impacto econômico. O presidente da federação das Câmaras de Comércio e Indústria da França (CCI France), Alain Di Crescenzo, estima que mais de 2 mil estabelecimentos comerciais tenham sido atingidos por atos de vandalismo e saques, com prejuízos de centenas de milhões de euros.

Entre os casos mais emblemáticos está o da loja de departamentos BHV Marais, em Paris, que teve a entrada arrombada, o térreo vandalizado e mercadorias furtadas. Diante da situação, o ministro do Comércio, Serge Papin, reúne representantes de comerciantes, artesãos, bancos e seguradoras para discutir medidas emergenciais de apoio.

Entre as propostas estão a aceleração das indenizações pelas seguradoras, linhas de crédito com juros reduzidos, ampliação do regime de trabalho com jornada reduzida e uma possível moratória sobre impostos e contribuições sociais para os estabelecimentos afetados.

O banco Crédit Agricole já anunciou medidas emergenciais, incluindo a suspensão temporária de parcelas de empréstimos, crédito de até 20 mil euros com juros de 2,5% e substituição gratuita de máquininhas de pagamento roubadas ou danificadas.

Segundo o Ministério do Interior, cerca de 550 mil pessoas participaram das manifestações de sábado em toda a França, incluindo 110 mil em Paris. A central sindical CGT, por sua vez, estimou a mobilização em 800 mil pessoas. A maior parte dos atos transcorreu de forma pacífica, mas foi marcada por episódios de violência e saques em diversas cidades do país.

Com agências

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