Europa enfrenta desafios simultâneos na defesa, na guerra da Ucrânia e na unidade política do bloco
A União Europeia vive um momento decisivo para sua segurança e estabilidade política. Enquanto se prepara para assumir uma parcela maior da própria defesa diante da perspectiva de uma redução da presença militar dos Estados Unidos no continente, o bloco acompanha com preocupação o agravamento das tensões entre Ucrânia e Polônia, dois de seus principais aliados no enfrentamento à Rússia. Ao mesmo tempo, Moscou acusa Washington de abandonar a neutralidade nas negociações para encerrar o conflito iniciado com a invasão da Ucrânia.
Em Bruxelas, o comissário europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, alertou que a Europa precisa estar pronta para compensar rapidamente a retirada de capacidades militares norte-americanas que poderão ser deslocadas para outras regiões do mundo.
Segundo ele, essa mudança pode ocorrer em breve e afetaria recursos estratégicos dos quais os europeus ainda dependem fortemente, como sistemas de inteligência espacial e aeronaves de reabastecimento em voo. Kubilius estimou em cerca de € 500 bilhões (aproximadamente R$ 3,2 trilhões) o investimento necessário para substituir essas capacidades e fortalecer a autonomia defensiva do continente.
O alerta ocorre após os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, reafirmarem a expectativa de que os aliados europeus assumam maior responsabilidade por sua própria segurança.
Na semana passada, durante uma reunião de ministros da Defesa da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Washington anunciou uma revisão de sua presença militar na Europa ao longo dos próximos seis meses. Segundo cálculos apresentados pelo comissário europeu, os países do continente deverão investir aproximadamente € 7 trilhões (cerca de R$ 44,8 trilhões) em defesa até 2035 para cumprir os compromissos assumidos no âmbito da aliança atlântica.
Crise diplomática
Enquanto Bruxelas discute a ampliação de suas capacidades militares, uma crise diplomática entre Ucrânia e Polônia ameaça gerar atritos entre dois parceiros estratégicos. O governo ucraniano confirmou nesta terça-feira (23) que o presidente Volodymyr Zelensky não participará da Conferência para a Reconstrução da Ucrânia, que será realizada nesta semana em Gdansk, na Polônia. A ausência ocorre em meio a uma disputa relacionada à memória da Segunda Guerra Mundial.
A tensão foi desencadeada após Zelensky atribuir a uma unidade militar ucraniana o nome do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), organização nacionalista criada em 1942. Na Ucrânia, o grupo é lembrado principalmente por sua luta contra o domínio soviético e pela defesa da independência nacional. Na Polônia, porém, a UPA é responsabilizada pela morte de mais de 100 mil poloneses durante massacres ocorridos na região da Volínia, sendo considerada símbolo de limpeza étnica e colaboracionismo com o nazismo.
Retirada de condecorações
A decisão provocou forte reação do presidente polonês Karol Nawrocki, que anunciou a retirada da Ordem da Águia Branca, a mais alta condecoração do país, concedida anteriormente a Zelensky. Em resposta, o líder ucraniano devolveu a honraria e recebeu o apoio de ex-presidentes da Ucrânia, que adotaram a mesma atitude em um raro gesto de unidade política. Embora tenha agradecido o apoio prestado pela sociedade polonesa desde o início da guerra, Zelensky acusou parte da classe política do país vizinho de explorar a questão histórica para obter ganhos eleitorais e alimentar sentimentos antiucranianos.
A Comissão Europeia manifestou preocupação com o episódio e advertiu que o único beneficiado por uma deterioração das relações entre Varsóvia e Kiev seria a Rússia. Bruxelas afirmou confiar no diálogo entre os dois governos e espera uma solução para o impasse. A preocupação é justificada pelo papel central desempenhado pela Polônia desde o início da guerra, tanto como principal corredor logístico para a ajuda militar ocidental quanto como destino de mais de 1,5 milhão de ucranianos entre refugiados e trabalhadores migrantes.
Rússia acusa EUA de imparcialidade
Em Moscou, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, acrescentou outro elemento de tensão ao afirmar que os Estados Unidos deixaram de atuar como mediadores imparciais nas negociações para encerrar a guerra. Segundo ele, Washington estaria retomando uma postura de pressão contra Moscou por meio da ameaça de novas sanções. A declaração ocorre após sinais recentes de endurecimento do governo Trump em relação ao Kremlin, incluindo conversas com Zelensky durante a reunião do G7 e a possibilidade de reativação de medidas punitivas anteriormente suspensas.
Lavrov também acusou a Europa de voltar a representar uma ameaça à paz e à segurança internacionais ao ampliar o fornecimento de armamentos para a Ucrânia. As negociações de paz permanecem paralisadas, sem avanços concretos, enquanto o conflito continua a produzir impactos profundos sobre a segurança europeia e as relações entre os países do continente.
Os acontecimentos desta semana evidenciam os desafios simultâneos enfrentados pela Europa: fortalecer sua capacidade de defesa em um cenário de possível retração militar dos EUA, preservar a unidade política entre os aliados que apoiam a Ucrânia e lidar com uma guerra que continua a redefinir o equilíbrio geopolítico do continente.
Com AFP
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