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Entre história e geopolítica: a linha do tempo do Iraque, Irã e seus desafios

Em uma mesma faixa de terra onde surgiram algumas das primeiras cidades do mundo, hoje se concentram disputas que chamam a atenção de diplomatas, pesquisadores e organismos internacionais.

9 abr 2026 - 08h32
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Em uma mesma faixa de terra onde surgiram algumas das primeiras cidades do mundo, hoje se concentram disputas que chamam a atenção de diplomatas, pesquisadores e organismos internacionais. A antiga Mesopotâmia, localizada principalmente no atual Iraque e em partes do Irã, passou do berço da escrita e da organização estatal primitiva a um palco de conflitos prolongados e complexos. Assim, entender essa transformação ajuda o público leigo a perceber como escolhas políticas, divisões territoriais e diferenças religiosas se acumulam ao longo dos séculos.

Entre os rios Tigre e Eufrates nasceram estruturas básicas de governo, códigos de leis e formas iniciais de diplomacia. Ao longo do tempo, diversos impérios conquistaram o território, do persa ao otomano. Cada domínio impôs fronteiras, sistemas administrativos e relações de poder distintas. Como resultado, essa sucessão de conquistas moldou uma região com fronteiras artificiais e populações misturadas. Além disso, consolidou uma história carregada de lembranças de hegemonia e resistência, elementos que ainda aparecem em discursos políticos contemporâneos.

Da Mesopotâmia aos impérios: como o "berço da escrita" moldou identidades?

A Mesopotâmia guarda marcos como a invenção da escrita cuneiforme, o Código de Hamurábi e a formação de cidades-Estado como Uruk e Babilônia. Essas sociedades criaram técnicas agrícolas, modelos administrativos e narrativas de poder, legitimidade e fronteira. Posteriormente, essas narrativas influenciaram civilizações no atual Irã e no atual Iraque. A ideia de um centro político forte, cercado por povos considerados externos, surgiu ali e, depois, outras elites reelaboraram essa visão durante milênios.

Com o avanço do Império Persa aquemênida, a região integrou um território ainda maior, que conectava o planalto iraniano ao Oriente Médio. Essa expansão consolidou uma identidade persa antiga e alimentou a sensação de continuidade histórica. Parte da elite iraniana moderna se inspira nessa memória imperial. Ao mesmo tempo, sucessivas invasões, como as árabes islâmicas no século VII, alteraram profundamente o mapa religioso. Esses processos introduziram o islã e, em seguida, consolidaram divisões entre ramos suni­ta e xiita, centrais para entender as tensões atuais. Além disso, escolas jurídicas e tradições teológicas diferentes surgiram e reforçaram identidades contrastantes.

Irã – depositphotos.com / rarrarorro
Irã – depositphotos.com / rarrarorro
Foto: Giro 10

Como o Irã moderno e o Iraque surgiram no tabuleiro geopolítico?

Após a queda do Império Otomano, depois da Primeira Guerra Mundial, potências europeias redesenharam o mapa do Oriente Médio em acordos como Sykes-Picot. Autoridades britânicas e francesas traçaram fronteiras do Iraque e de países vizinhos com pouca atenção às divisões étnicas e religiosas locais. Assim, o novo Estado iraquiano reuniu, sob um mesmo governo, grupos árabes sunitas, árabes xiitas e curdos. Já o Irã manteve um território mais estável, porém passou a lidar com influências externas fortes, principalmente britânicas e depois norte-americanas, por causa do petróleo.

No século XX, a descoberta e exploração de grandes reservas de recursos naturais, especialmente de petróleo e gás, transformaram a região em área estratégica global. Intervenções e alianças passaram a refletir interesses energéticos e, além disso, preocupações ideológicas durante a Guerra Fria. No Iraque, a ascensão do partido Baath e de Saddam Hussein reorganizou o poder interno e aprofundou tensões com o Irã e com minorias internas. No Irã, o golpe de 1953 contra o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh contou com apoio de potências ocidentais e reforçou a percepção de ingerência externa. Esse episódio plantou desconfianças que governos posteriores, inclusive o revolucionário, exploraram de forma intensa.

Revolução Islâmica de 1979 e Guerra Irã-Iraque: por que são marcos cruciais?

Revolução Islâmica de 1979, no Irã, derrubou a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi e instalou um regime político baseado em princípios religiosos xiitas, liderado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. Esse novo governo combinou elementos de república com forte autoridade clerical e apresentou um projeto que se declarava independente das potências ocidentais. Além disso, o regime criticou abertamente monarquias da região e propôs um modelo alternativo de governo islâmico. Assim, países vizinhos com maioria sunita passaram a enxergar, com grande preocupação, a possibilidade de expansão da influência revolucionária iraniana.

Logo em seguida, em 1980, o Iraque de Saddam Hussein iniciou a Guerra Irã-Iraque, conflito que se estendeu até 1988. Analistas apontam vários fatores para esse ataque, entre eles disputas territoriais na região de Shatt al-Arab e receios iraquianos sobre o efeito da Revolução Islâmica na população xiita do Iraque. Além disso, Saddam calculou que poderia enfraquecer o regime recém-instalado, contando com apoio ou simpatia de potências que buscavam conter o novo governo iraniano. A guerra utilizou armamentos pesados, inclusive armas químicas, e causou centenas de milhares de mortos. Também devastou as economias dos dois países, porém não produziu alterações territoriais significativas. No entanto, o conflito deixou um legado de desconfiança profunda e memórias traumáticas.

Durante esse período, alguns governos externos alternaram apoio e críticas, sempre observando o conflito também pelo prisma da estabilidade do fluxo de petróleo. A rivalidade entre Irã e Iraque, somada à disputa pela liderança regional entre diferentes modelos de governo - monarquias, repúblicas laicas e regimes de inspiração religiosa - consolidou um cenário de alianças voláteis. Essa instabilidade transformou a antiga Mesopotâmia em um dos pontos de maior sensibilidade estratégica do mundo. Além disso, o conflito fortaleceu redes de segurança e inteligência que, mais tarde, influenciaram guerras no Golfo e crises atuais.

Como os conflitos recentes reforçaram tensões entre Irã e seus vizinhos?

Após a Guerra Irã-Iraque, o cenário regional permaneceu instável. Em 1990, o Iraque invadiu o Kuwait e provocou a Guerra do Golfo e sanções internacionais severas. Em 2003, a invasão liderada pelos Estados Unidos derrubou Saddam Hussein, desestruturou instituições iraquianas e abriu espaço para conflitos internos intensos. A reorganização do poder no Iraque, com maior participação de grupos xiitas, alterou o equilíbrio com países árabes sunitas e ampliou a percepção de aumento da influência iraniana em Bagdá. Paralelamente, grupos armados e milícias ampliaram seu espaço político e militar.

Irã passou a figurar, em análises de diversos observadores, como apoiador de milícias e grupos armados em países como Iraque, Síria, Líbano e Iêmen. Muitos desses grupos mantêm vínculos com o ramo xiita do islã ou com agendas políticas próximas a Teerã. Em resposta, rivais regionais, como Arábia Saudita e outros Estados do Golfo, estreitaram laços com potências ocidentais e investiram em alianças militares e econômicas para conter esse avanço. Além disso, o programa nuclear iraniano se tornou outro foco de disputa e gerou rodadas de sanções, negociações e acordos. Governos sucessivos assinaram e depois suspenderam entendimentos ao longo da década de 2010 e início de 2020, o que aumentou a incerteza estratégica.

  • Motivações religiosas: disputas entre correntes sunitas e xiitas influenciam diretamente a política interna e externa dos países e alimentam discursos de identidade.
  • Interesses políticos: governos buscam liderança regional, segurança de regime e influência sobre governos vizinhos, recorrendo tanto à diplomacia quanto a apoio a aliados armados.
  • Recursos naturais: atores regionais e globais disputam o controle de rotas de exportação de petróleo e gás, além de áreas ricas em reservas energéticas.

Quais são os desafios atuais para a paz entre Irã e vizinhos?

Nos últimos anos, esforços diplomáticos procuraram reduzir tensões, incluindo iniciativas de diálogo entre Irã e alguns países árabes, bem como tentativas de retomada de acordos sobre o programa nuclear iraniano. Apesar disso, a região ainda enfrenta incidentes militares pontuais, ataques a instalações energéticas e disputas em rotas marítimas estratégicas. Além disso, governos rivais competem por influência em países fragilizados por guerras civis, como Síria e Iêmen, o que prolonga conflitos locais.

Especialistas em relações internacionais destacam que o legado histórico da antiga Mesopotâmia se cruza continuamente com questões contemporâneas. A memória de impérios, as divisões coloniais, a Revolução Islâmica de 1979 e a Guerra Irã-Iraque influenciam discursos políticos, decisões de segurança e percepções de ameaça. Para ampliar as chances de estabilidade, análises destacam alguns pontos recorrentes:

  1. Fortalecimento de mecanismos regionais de diálogo entre Irã, Iraque e países vizinhos, com fóruns permanentes e canais diretos de comunicação.
  2. Redução da interferência armada em conflitos internos de outros Estados e incentivo a soluções políticas negociadas.
  3. Negociações transparentes sobre programas nucleares e capacidade militar, com monitoramento internacional e garantias verificáveis.
  4. Gestão cooperativa de recursos naturais estratégicos, como petróleo e rotas marítimas, para diminuir disputas e aumentar interdependências positivas.
  5. Respeito a minorias étnicas e religiosas dentro das fronteiras atuais, com inclusão política e proteção de direitos básicos.

Dessa forma, a trajetória que vai da primeira escrita cunhada em tábuas de argila às mesas de negociação contemporâneas ajuda a explicar por que o atual Irã, o Iraque e seus vizinhos continuam no centro do noticiário internacional. A mesma região que inaugurou formas organizadas de poder e lei agora enfrenta o desafio de transformar rivalidades acumuladas em acordos duradouros. Nesse cenário, passado e presente seguem intimamente conectados e orientam, a cada crise, novas decisões de guerra e de paz.

Iraque_depositphotos.com / uldiszile
Iraque_depositphotos.com / uldiszile
Foto: Giro 10
Giro 10
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