De velho conhecido no Brasil ao ‘leão’ que incomoda Trump: como foi o primeiro ano de Leão XIV, o ‘papa improvável’
Religioso foi eleito no conclave como o sucessor do papa Francisco há um ano, em 8 de maio de 2025
Era 8 de maio de 2025. Ao saber que Robert Francis Prevost foi escolhido para ser o novo papa, ela chorou de emoção. Ele, que passou a ser Leão XIV, não aparecia entre os favoritos para suceder o papa Francisco. Foi uma grata surpresa, recorda Claudia Ridolfi, uma das brasileiras que o conheceu anos atrás em São Paulo. Depois de um papa argentino, o conclave elegeu pela primeira vez na história um estadunidense para o posto mais alto da Igreja Católica --mas um estadunidense que teve a vida marcada por caminhos trilhados pela América Latina, com passagens pelo Brasil. Por isso o carinho. Era um rosto familiar.
O encontro que tiveram foi escola onde trabalha, que é de ordem agostiniana, a mesma seguida pelo sumo pontífice. Desde então, Claudia passou a também ser reconhecida como “a mulher com a foto com o papa”. Mas, para além dos longos “cinco minutos de fama”, o que mais a marcou após a fumaça branca aparecer no Vaticano foi o sentimento otimista de que o passado missionário de Prevost refletiria em seu papado. E assim tem sido nesse um ano: o ‘papa improvável’ tem mantido uma postura firme contra as guerras, um olhar atencioso a imigrantes e pessoas em situação de vulnerabilidade, e incomodado poderosos com seus apelos --como Donald Trump, seu compatriota.
O papa Leão XIV, agora com 70 anos, nasceu em Chicago, Illinois, nos Estados Unidos. Ele entrou para a Ordem de Santo Agostinho em 1997, foi ordenado padre em 1982 e seguiu rumo ao Peru, na América do Sul, onde ficou de 1985 a 1999. Ele chegou a retornar para Chicago e se tornou prior geral-- a autoridade suprema e o líder mundial ---da Ordem de Santo Agostinho, de 2001 a 2013, onde assumiu voto de pobreza. Até que em 2014 ele voltou ao Peru e foi nomeado pelo papa Francisco como bispo da Diocese de Chiclayo. Suas mais de duas décadas de vivências no Peru o renderam a cidadania peruana.
Depois, em 2023, foi chamado para Roma para assumir um cargo influente, onde passou a ser o responsável por 'sugerir' ao papa padres que poderiam ser nomeados bispos ao redor do mundo. Nessa época ele também se tornou presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina. Em meio a essa relação próxima com Francisco e trajetória na Igreja Católica, em 2025, foi eleito o novo papa. O 267º papa eleito.
Em meio a tudo isso, ele passou algumas vezes pelo Brasil. Em visita a comunidades agostinianas, no começo dos anos 2000 ele visitou cidades pelo Paraná e também passou por Minas Gerais. Em 2006, Prevost chegou a celebrar uma missa na Catedral da Sé, na capital paulista, e fez novas visitas pelos estados nos anos seguintes. Ele quase retornou ao Brasil em 2025 para a Assembleia Geral da CNBB, mas a viagem foi cancelada justamente por conta do falecimento do Papa Francisco, em abril.
O encontro de Claudia com o agora papa aconteceu em 2013 no Colégio Agostiniano Mendel, onde ela é gerente administrativa. Foi o ano da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que aconteceu no Rio de Janeiro, e o colégio funcionou como um ponto de encontro de delegações, reunindo cerca de 600 jovens de todo o mundo em preparação ao evento católico. Por na época ser prior da Ordem Agostiniana, Prevost acompanhou tudo de perto, inclusive visitar famílias em situação de vulnerabilidade na Grande São Paulo.
Quem visita a escola, hoje, não vê indícios de que um papa passou por lá. Não há fotos nas paredes, nem qualquer outro tipo de registro explícito pelos corredores. Mas para quem viveu a experiência completa, tudo segue fresco. Claudia, por exemplo, lembra com exatidão o ponto de um dos pátios do colégio por onde Leão XVI parou e foi fotografado com alguns desses jovens que o acompanharam na JMJ. Não foi lá onde se conheceram, mas ela guarda com carinho a lembrança.
O encontro entre os dois aconteceu durante uma missa no colégio Agostiniano São José, em Belenzinho, também São Paulo, durante a celebraçaõ de 80 anos da Sociedade Agostiniana de Educação e Assistência (SAEA), a mantenedora das unidades. Foi o agora papa que entregou para Claudia uma certificação de reconhecimento por seu trabalho social com a escola agostiniana, onde atua há mais de 15 anos.
A foto do momento, que até Prevost se tornar o Leão XIV era apenas uma boa lembrança, a fez ser convocada para dar entrevistas ao vivo após o anúncio de que aquele prior agostiniano foi eleito o sucessor de Francisco. Foram duas semanas de correria com a imprensa na cola, sendo requisitada até pelo Fantástico, da Rede Globo. Claudia, que se apresenta como uma mulher mais reservada, chega a rir de nervoso ao lembrar da fama que a perseguia. Ela era reconhecida até no salão de beleza, fazendo a unha. E não foi só ela: seu marido participou da mesma missa e tem uma foto recebendo eucaristia por Leão XIV. “Balançou todo mundo. ‘O casal abençoado pelo papa’. Ainda bem que a gente não se separou, né”, brinca.
Para a gerente, que é católica, Leão XIV é uma pessoa serena, tranquila, com perfil apaziguador e acolhedor. Até um pouco timido. Sobre sua forma de agir, ela destaca a preocupação com a juventude e com questões sociais – principalmente com a de famílias em situação de vulnerabilidade, com fome e moradia. “Um perfil que vai muito ao encontro do nosso carisma com Santo Agostinho, de ter esse cuidado das pessoas com amor”, acredita.
"Não é com a arma, não é com a violência, não é com a guerra. A gente realmente busca muito isso, o entendimento, a compreensão, o diálogo, a promoção da paz mesmo” -- Claudia Ridolfi, Colégio Agostiniano Mendel
Com tudo, o que ficou é a sensação de tranquilidade. “Sabendo o perfil dele, acalenta em termos de fé, de cristandade. Não é um papa ultra mega tradicional, não é um papa que não vai dar continuidade no trabalho que o Francisco fez, na abertura que ele deu pra igreja. Você tem aquela sensação de tranquilidade que vai ser contínuo”.
Por enquanto, não há previsão para esse encontro entre os dois acontecer novamente. Ela conta que houve boatos de que Leão XIV viria para uma reunião ao longo deste último ano, mas que ele não conseguiu participar. “Eu acredito que ele vá fazer algumas viagens e inclusive deve passar sim pela América do Sul”, cita, sem muitos detalhes.
De Leão XIII a Leão XIV: relembre os últimos 12 papas
O papa Leão XIV, que completa um ano de papado neste ano, é o 267º sumo pontífice da Igreja Católica
![[Imagem do Papa Leão XIII]](https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/65/Papa_Leone_XIII_%281898%29.jpg)
Virou meme entre o clero
Talvez o papa não saiba disso. Mas sua passagem pelo Brasil, quando ainda era conhecido como Robert Prevost, acabou se transformando em motivo de muita risada --bem do jeito brasileiro de ser. Estamos falando de um cálice que Leão XIV usou ao celebrar uma missa na Paróquia São Carlos Borromeu, na capital paulista, que acabou indo parar na máquina de lavar. Tem uma explicação por trás da história.
O cônego Tarcísio Mesquita, que passou mais de 14 anos em outra comunidade, tinha assumido o posto de pároco da São Carlos Borromeu há cerca de um mês quando Leão XIV virou papa. Quando o anúncio se concretizou, rapidamente pipocaram imagens do papa dentro da paróquia em 2012, celebrando uma missa com um cálice da comunidade durante uma visita à comunidade agostiniana.
“O pessoal fica muito orgulhoso, né? ‘Ah, eu conheci o papa’. Então, é que nem para alguém que ama os Beatles conhecer o Paul McCartney, né? Deve ser o mesmo fenômeno” -- padre Tarcísio Mesquita
Era um momento de felicidade coletiva entre os fieis, mas o sentimento que tomou o padre na hora foi o de medo. No caso, medo de o objeto sagrado ser roubado. “Eu ainda não tinha muito domínio sobre portas, fechaduras e armários na paróquia, então eu levei [o cálice usado pelo papa] para minha casa”, explica. A segunda parte da missão veio ao chegar em casa: “Onde eu coloco esse cálice?”. No fim, acabou escolhendo pela máquina de lavar.
“Com todo respeito ao cálice, porque é um objeto sagrado. Mas o meu desejo era preservar uma coisa que é um patrimônio da comunidade e que se tornou um patrimônio especialíssimo dado o fato que o hoje papa tomou nas mãos aquele cálice e celebrou a eucaristia usando do cálice e da âmbula aqui da nossa comunidade paroquial”, relembra.
O segredo foi revelado em matéria publicada pelo Terra há um ano, fazendo com que o objeto voltasse a ser guardado na igreja, e em segurança. E não só isso. Com a revelação, o feito do cônego virou meme entre colegas padres. “Às vezes as pessoas acham que a nossa vida é muito sisuda, e não é verdade. Nós temos aqueles momentos mais difíceis, momentos mais isolados. Mas, em geral, entre nós, nós somos muitos dados também a sorrir”, diz Tarcísio, se divertindo por relembrar toda essa história.
O padre não conheceu Leão XIV, mas diversas pessoas da comunidade sim. O que contam é que o papa sempre de mostrou carinhoso, astuto, alguém que sabe se comunicar -- entre muitas línguas, inclusive, pois Prevost fala espanhol, italiano, francês, inglês – e, até mesmo, português. "Ele tem toda uma história de vida que dá a ele um patrimônio do entendimento humano, da vida da igreja, das suas problemáticas, dos seus desafios”, acredita.
O acompanhando de longe ao longo desse primeiro ano de papado, Tarcísio olha com carinho para as viagens de Leão XIV, como à Turquia e ao Líbano, em um movimento de reaproximação e busca pela unidade em meio a tensões globais geopolíticas. “Nós vamos observando que o papado tem sido realmente uma retomada de uma proximidade com as pessoas. E às vezes ele chora, você vê ele comovido”.
Tarcísio vê como um enriquecimento para a Igreja a eleição de um papa que conviveu com situações muito reais da América Latina. O que também, para ele, pode inspirar outras lideranças religiosas a uma uma sensibilidade humanitária, um empenho maior pela justiça.
"Particularmente agora, em que nós vemos as atrocidades das violências contra o povo palestino. As atrocidades que são perpetradas contra os imigrantes nos Estados Unidos. E ele [Leão XIV] é de lá, ele conhece isso de perto, ele sabe o que significa oprimir os imigrantes. Ele é de uma família de imigrantes, ele conhece isso de perto. Ele sabe o que significa um governo chamado Donald Trump. Ele sabe o que significa isso”, declara.
"Eu acredito que ele nasceu Papa para a Igreja no momento que talvez uma pessoa como ele seja uma dasessenciais para a humanidade" -- padre Tarcísio Mesquita
Papa Leão XIV
Destaques do Primeiro Ano
Brasil como conselheiro
Mais um brasileiro deve se encontrar presencialmente com o papa Leão XIV em breve: Carlos Nobre, cientista climático reconhecido como referência internacional na área que foi escolhido a dedo pelo sumo pontífice da Igreja Católica para integrar o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral neste ano. Nobre foi o único representante do Brasil e o único cientista escolhido para o ‘conselho’, formado por 11 representantes de múltiplas áreas.
O anúncio pegou Carlos Nobre de surpresa. Ele não tinha participado de nenhum tipo de seletiva e não sabia que estava sendo cogitado para o posto. O cientista ficou honrado, e também sabe que não foi por acaso. O brasileiro, na verdade, já se encontrou com os dois papas -- João Paulo II e Francisco -- para abordar questões ambientais e climáticas, e não passou despercebido.
Com João Paulo II, o encontro aconteceu em 1989. O cientista tinha terminado um estudo sobre a Amazônia onde foi cunhado o renomado conceito do "ponto de não retorno" – que faz referência ao limite de quando um ecossistema sofre danos irreversíveis e perde sua capacidade de regeneração. Foi outro colega de pesquisa, da Universidade de Maryland, dos Estados Unidos, que tinha cido convidado para encontrar o papa. Como não pôde ir, recomendou o nome de Carlos Nobre, e o Vaticano atendeu. “E eu fui, e cumprimentei o Papa João Paulo II”, relembra.
Já com o papa Francisco, o encontro se deu em 2019, no Vaticano, durante o sínodo da Amazônia. Se tratou da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, um encontro com o objetivo de debater novos caminhos para a evangelização e valorização da cultura ao passo que se discutiam soluções para preservação ambiental.
Ele conta ter tido a oportunidade de conversar diretamente com o papa Francisco por oito minutos. Por ser um papa argentino, Carlos Nobre diz que arriscou falar “portunhol” ao invés do inglês. Ele relembra da situação com um sorriso no rosto.
“A conversa foi muito boa, porque eu levei para o papa o risco que a Amazônia estava correndo, a importância de nós, vamos dizer assim, convencermos toda a população mundial para não apoiar nenhuma iniciativa que continuasse e aumentasse o desmatamento da Amazônia. E o papa achou as ideias muito boas, então foi muito positivo realmente”, revela.
Para Carlos Nobre, Francisco mostrou um enorme valor de proteger a Amazônia e vê com bons olhos as movimentações do novo papa neste sentido. “Acho que esse novo grupo vai apoiar muito o Papa Leão XIV, no momento em que nós vivemos no planeta um monte de desafios. Se a gente comparar o risco que o planeta está correndo hoje com relação a 2019, a ciência sabe que agora o risco é muito maior. Tem que ter uma ação muito rápida para combater a emergência climática”.
Por mais que ainda não tenha previsão de quando irá realmente encontrar Leão XIV, o pesquisador já rascunha o que deve falar à liderança religiosa. Além de evidenciar todo o aspecto da emergência climática, ele adianta que não deixará de falar sobre a importância de que democracias não elejam políticos negacionistas.
“É muito difícil entender o que o país que mais investiu em ciência climática do mundo, o país que mais tem cientistas ambientais climáticos no mundo, os Estados Unidos, elegem um presidente duas vezes, um presidente que é totalmente negacionista, que quer que aumente as emissões, sempre super favorável aos combustíveis fósseis. Esse realmente é um risco cultural que está acontecendo, porque isso não é só nos Estados Unidos, não. Em muitos países, nunca os políticos negacionistas foram tão eleitos como nos últimos 10 anos”, diz, em referência ao republicano Donald Trump.
Leão XIV, o primeiro papa norte-americano, foi escolhido pelo Vaticano no mesmo ano em que o Donald Trump foi reeleito nos Estados Unidos. Apesar de copatriotas, de um lado o republicano encara o papa como “fraco” por sua visão contra conflitos encabeçados pelo país. Do outro, o religioso diz não ter medo e chegou a citar que “o mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos”. Os chefes de Estado, que estão entre os mais poderosos do mundo, têm trocado farpas no último mês e aumentado o tom das críticas. Os dois se mantém firmes em suas convicções.
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