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Condenados à morte na Arábia Saudita ligam para a BBC pedindo ajuda

Dezenas de etíopes que fugiram da guerra e da pobreza aguardam execução em prisões sauditas. Condenados por tráfico de drogas, alguns ligaram para a BBC de suas celas para pedir ajuda.

2 ago 2026 - 13h12
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Alguns presos etíopes conseguiram o número do serviço de tigrínia da BBC e ligaram de um telefone da prisão para contar suas histórias
Alguns presos etíopes conseguiram o número do serviço de tigrínia da BBC e ligaram de um telefone da prisão para contar suas histórias
Foto: BBC News Brasil

Havia desespero na voz do jovem etíope quando ele conseguiu falar com a BBC pelo telefone de sua cela, em uma prisão na Arábia Saudita, onde aguarda a execução.

Habtom, cujo nome — assim como o do outro preso citado nesta reportagem — foi alterado para proteger sua identidade, está detido há mais de 3 anos em uma prisão na cidade de Khamis Mushait, no sul do país.

Apesar do barulho dos colegas de cela que gritavam atrás dele, Habtom implorou por ajuda e demonstrou raiva com o próprio governo, que, segundo ele, faz pouco para mudar seu destino.

"Um preso não consegue confortar o outro. Não temos escolha a não ser chorar. Estamos esperando a nossa vez, mesmo sem saber quando isso vai acontecer", disse Habtom.

Ele e alguns de seus companheiros de cela fugiram da guerra e da pobreza no país de origem, na esperança de encontrar uma vida melhor.

Mas essa busca, que o levou pelo Djibuti e pelo Iêmen, terminou com sua prisão. Ele é mais um no número crescente de etíopes em prisões sauditas que enfrentam a possibilidade de execução por tráfico de drogas.

Ansiosos para contar sua história, alguns dos presos conseguiram o número de celular do serviço em tigrínia da BBC, língua falada na Etiópia e na Eritreia.

No total, conversamos com sete dos etíopes presos que aguardam o cumprimento da sentença de morte. São dezenas de pessoas, talvez até 200.

Outros estrangeiros, incluindo paquistaneses, sudaneses e jordanianos, estão em situação semelhante. Mas, nos primeiros sete meses deste ano, 17 etíopes foram executados, o maior número entre os não sauditas. Cinco dessas execuções aconteceram na segunda-feira (27/7).

Dois anos atrás, segundo levantamento da Anistia Internacional, apenas dois etíopes foram executados; já em 2025, foram 35.

Não está claro exatamente por que houve esse aumento, mas ele pode estar ligado ao maior número de pessoas que deixam a região do Tigré, no norte da Etiópia, onde uma brutal guerra civil de 2 anos terminou no fim de 2022, deixando um rastro de devastação.

"Também pode estar ligado à ampliação do uso da pena de morte por crimes relacionados a drogas na Arábia Saudita nos últimos anos", diz à BBC a pesquisadora da Anistia Internacional Dana Ahmed.

Assim como a maioria dos que falaram com a BBC, Habtom é do Tigré. Ele foi considerado culpado de contrabandear haxixe, um tipo de cannabis. Na Arábia Saudita, a critério do juiz, um veredicto de culpa pode resultar em pena de morte.

Mas grupos de direitos humanos — incluindo Reprieve, Human Rights Watch (HRW) e Anistia Internacional — afirmam que, nesse tipo de caso, o devido processo legal raramente é seguido.

Os réus não têm acesso a um advogado nem aos autos do processo, e a tradução, quando é oferecida, pode ser inadequada, diz Ahmed, da Anistia.

Embora exista, na teoria, o direito de recorrer, sem um advogado eles não conseguem apresentar recurso "e então a sentença é automaticamente mantida", afirma ela.

"Há uma falta quase total de transparência em todo o processo judicial, da sentença à revisão pela Suprema Corte e à ratificação pelo rei. As pessoas no corredor da morte e suas famílias ficam sem saber qual será seu destino."

Habtom alegou que não teve a chance de falar com um advogado nem de se defender. Também disse ter sido forçado a assinar um documento em árabe, no qual concordava com a sentença, sem entender o que estava assinando.

Outros presos que conversaram com a BBC relataram histórias semelhantes sobre o sistema legal.

A HRW também entrou em contato com pessoas próximas aos casos e soube de "sentenças em massa, julgamentos em massa que não seguiam nenhum tipo de devido processo, e pessoas detidas apenas esperando, sem ideia de quando seriam executadas", disse Nadia Hardman, assessora sênior da organização para direitos de refugiados e migrantes.

As autoridades sauditas não responderam a um pedido de comentário da BBC sobre as alegações de que o processo legal não foi justo. Mas cada execução é acompanhada de um comunicado divulgado pela agência de imprensa oficial. O comunicado descreve um processo claro: uma investigação, um processo judicial, um recurso, uma decisão da Suprema Corte e, então, um decreto real.

A sentença reflete o compromisso de proteger os cidadãos "do flagelo das drogas" e dos danos que elas podem causar, acrescenta o comunicado.

Habtom disse que, embora conseguisse manter contato ocasional com a família pelo telefone fixado na parede da cela, recusava-se a contar que estava no corredor da morte: "Prefiro que saibam depois que eu morrer, e não agora."

Ele sonhava em terminar o ensino médio, formar-se na faculdade e conseguir um emprego para sustentar os pais. Mas a guerra do Tigré acabou com esse plano.

"Meu objetivo foi destruído, então decidi emigrar", contou.

Depois de sobreviver à perigosa viagem até a Arábia Saudita em 2021, Habtom encontrou trabalho mal remunerado como pastor de cabras, mas seus empregadores ofereceram a ele e a outros a chance de ganhar mais.

Os sete etíopes que falaram com a BBC disseram que as condições dentro da prisão eram duras
Os sete etíopes que falaram com a BBC disseram que as condições dentro da prisão eram duras
Foto: BBC News Brasil

Eles foram incumbidos de entregar um pacote, mas foram parados pela polícia no caminho e flagrados com a folha entorpecente conhecida como khat — um estimulante natural muito usado no Chifre da África.

Todos os comunicados oficiais sauditas se referem a contrabando de haxixe, mas as pessoas que falaram com a BBC mencionaram o khat.

"Eu não sabia o que estávamos carregando. Mas depois me disseram que era khat. Eu nem sei o que é khat", disse Habtom, admitindo que foi tentado a fazer o trabalho pela quantia de dinheiro oferecida.

Habtom reconheceu que havia "cometido um erro sem saber" e esperava que sua pena pudesse ser convertida em tempo de prisão.

Três de seus companheiros etíopes detidos foram executados em abril — outros nove foram mortos em junho. As execuções de abril provocaram protestos de grupos de direitos humanos e de algumas figuras influentes da Etiópia, incluindo o líder da Igreja Ortodoxa Etíope.

O patriarca Abune Mathias pediu que o governo negociasse com as autoridades sauditas e chamou os presos de "crianças sem voz" vivendo "sob a sombra da morte".

Em seu relatório de abril, a HRW pediu que as autoridades sauditas interrompessem imediatamente as execuções de migrantes etíopes e garantissem que todos os casos fossem tratados de acordo com o direito internacional. Também pediu que o ministério das Relações Exteriores da Etiópia interviesse com urgência e prestasse apoio consular.

A segurança dos etíopes na Arábia Saudita foi discutida em maio, em uma reunião em Adis Abeba entre o chanceler etíope, Gedion Timothewos, e o vice-chanceler saudita, Waleed Al-Khuraiji.

Em junho, o embaixador da Etiópia, Tafa Tulu Dadi, visitou a prisão. Mas os presos disseram à BBC que não tiveram tempo suficiente para explicar sua situação a ele.

A visita também parece ter tido impacto limitado, pois, na semana seguinte, mais etíopes foram executados.

A comissão de direitos humanos da União Africana também pediu à Etiópia que protegesse a vida dos etíopes ameaçados de execução na Arábia Saudita.

A BBC entrou em contato com autoridades etíopes na Arábia Saudita e com o governo em Adis Abeba para comentar a situação, mas não recebeu resposta.

Sem se referir especificamente à pena de morte, o ministério das Relações Exteriores da Etiópia divulgou um comunicado em 13 de julho, afirmando estar em contato regular com as autoridades sauditas, "buscando soluções apropriadas para os cidadãos etíopes em circunstâncias difíceis".

O comunicado acrescentou que, "até o momento", quase 2 mil etíopes tinham "se beneficiado de anistias reais" — sem mencionar os crimes ou as sentenças.

Um preso descreveu como a porta da cela era aberta uma vez por dia, quando um guarda trazia comida
Um preso descreveu como a porta da cela era aberta uma vez por dia, quando um guarda trazia comida
Foto: BBC News Brasil

Enquanto aguardam o resultado das manobras diplomáticas, os presos que falaram com a BBC disseram estar enfrentando condições difíceis em instalações superlotadas.

O preso Desta, que fica em outra parte da prisão, disse que havia 200 homens em sua cela, amontoados em uma área projetada para 90 pessoas, com 45 beliches dispostos ao longo das paredes.

Durante o dia, os presos se sentavam no chão, em condições sufocantes, espremidos uns contra os outros. À noite, quando a temperatura caía, cobriam-se com sacos de lixo no lugar de lençóis, contou.

"O estresse de encarar a execução, somado à superlotação, nos expõe a doenças e ansiedade", disse Desta.

"O guarda só abre a porta para trazer comida, cobrindo a boca e o nariz com uma máscara. É a única vez em que a porta é aberta. Depois de nos dar comida, ele tranca rapidamente e vai embora."

"Não é possível fazer perguntas nem falar com eles. Mesmo que você pergunte, apanha muito."

Desta foi preso ao tentar cruzar a fronteira a partir do Iêmen, há mais de três anos, e acusado de tráfico de drogas.

"Éramos quatro etíopes, e havia um iemenita conosco. Ele nos disse que poderia nos ajudar a cruzar a fronteira com segurança, porque conhecia a rota mais segura. Em troca, pediu que carregássemos pacotes com khat e até prometeu nos pagar algum dinheiro."

"Infelizmente, pouco depois de atravessarmos, fomos capturados por policiais. Eles abriram fogo contra nós, e o iemenita fugiu, mas nós não conseguimos. Ficamos em choque, sem saber para onde ir."

Como todos os entrevistados pela BBC, Desta disse que nunca esperou ser condenado à morte e acreditava que acabaria voltando para casa depois de cumprir pena.

Em vez disso, ele alegou ter sido também forçado a assinar um documento em árabe que listava acusações passíveis de pena capital. Depois, quando compareceu ao tribunal, disse que lhe negaram a chance de contestar as acusações e que não teve representação legal.

"Quando você aparece diante do juiz no primeiro dia, ele pergunta: 'Você aceita as acusações?' Na segunda vez que você comparece, ele te condena à morte", disse Desta.

Desta fabricava tijolos e lutava para sustentar a família. Ele deixou o Tigré durante a guerra, à medida que os combates se aproximavam de sua casa.

Agora, teme de novo pela vida. Ele, Habtom e dezenas de outros no corredor da morte imploram por ajuda externa.

"Estamos vivendo em profundo medo e não conseguimos nem comer a comida que nos dão", disse Habtom.

Reportagem adicional de Damian Zane.

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