Script = https://s1.trrsf.com/update-1765905308/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Como Beethoven ficou surdo (e ainda assim criou algumas das melhores obras da história da música)

Em 16 de dezembro se completam 250 anos do nascimento do compositor, cuja história foi marcada pela perda do sentido essencial para o usufruto de sua arte.

14 dez 2020 - 20h12
(atualizado em 14/12/2020 às 13h09)
Compartilhar
Exibir comentários
Dibujo de Beethoven dirigiendo una orquesta
Dibujo de Beethoven dirigiendo una orquesta
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Viena, 7 de maio de 1824. Príncipes e nobres, a nata da aristocracia e a elite cultural vienense se congregaram no Teatro Imperial e da Corte Real da cidade para o que seria um evento extraordinário, a estreia da Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven.

A expectativa não se devia só ao longo tempo desde que o compositor e diretor produzira sua última sinfonia, mas também porque ele não subia naquele palco fazia 12 anos.

Mas lá estava o grande maestro, diante de uma das maiores orquestras jamais reunidas para um concerto como nenhum outro, que incluiria algo inédito neste gênero musical: a voz.

De costas para o público, Beethoven dirigiu os músicos com uma paixão desenfreada, sacudindo o corpo e agitando os braços no ritmo da música.

Estava tão concentrado que, no final da peça, continuou gesticulando, até que uma das solistas se aproximou dele e o virou para que pudesse ver os estrondosos aplausos que não podia escutar.

Beethoven estava profundamente surdo.

Apesar da surdez, Beethoven participou da estreia de sua Nona Sinfonia.
Apesar da surdez, Beethoven participou da estreia de sua Nona Sinfonia.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Há várias versões deste incidente, diz à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) Laura Tunbridge, professora de música da Universidade de Oxford e autora da recente biografia Beethoven: A Life in 9 Pieces ("Beethoven: uma vida em nove peças").

"Ele esteve no palco durante a estreia (da sinfonia), mas havia um diretor musical a seu lado que manteve as coisas em ordem, porque na ocasião já se sabia que fazia tempo que Beethoven havia deixado de ser um regente confiável", explica.

Pode ter sido uma apresentação caótica, não só pela presença incomum de um compositor surdo, mas também pela duração e complexidade da peça e dos poucos ensaios que costumavam fazer na época.

"É incrível que tenha saído tão bem, dada a falta de preparação", diz a professora Tunbridge.

Vida complexa, música revolucionária

Em todo caso, essa apresentação representa de uma só vez a glória e tragédia que marcou a complexa e contraditória personalidade de Beethoven, cujo nascimento em Bonn, Alemanha, há 250 anos se comemora neste 16 de dezembro.

A data é estimada, pois só se sabe com segurança que ele foi batizado em 17 de dezembro de 1770.

Laura Tunbridge escreveu: "Beethoven: uma vida em nove peças" para comemorar o aniversário de número 250 do compositor. (Foto: Richard Strittmatter)
Laura Tunbridge escreveu: "Beethoven: uma vida em nove peças" para comemorar o aniversário de número 250 do compositor. (Foto: Richard Strittmatter)
Foto: BBC News Brasil

Um compositor de inigualável imaginação, paixão e poder, ele se formou numa época de agitação política marcada pelas Guerras Napoleônicas.

E foi reconhecido e adotado como um dos músicos mais famosos de Viena, uma cidade muito orgulhosa de seu legado e estatura nesse campo.

"De muitas maneiras ele revolucionou o alcance da música em termos de som e volume, sua ambição e a ideia de que a música pode expressar ideias e sentimentos; (demonstrou que a música) não é só um espetáculo, puro entretenimento, mas algo muito mais profundo", diz a acadêmica.

"Beethoven foi fundamental no estabelecimento dessa atitude frente à música, de elevá-la a uma forma de arte."

Mas, ao mesmo tempo, também tinha fama de irascível, egoísta, narcisista, insociável, frustrado no amor, tacanho, hipocondríaco e alcoólatra.

Isso forma parte do mito romântico de Beethoven, diz Tunbridge, porque "preferimos a imagem do artista torturado por seus demônios internos e seus males físicos".

Pintá-lo como um mestre que se dedicou a sua arte acima de tudo, com a capacidade de criar peças que vão além da nossa imaginação, o faz parecer alguém de outro mundo.

Catálogo de males

O certo é que o compositor sofria de muitos problemas de saúde, pelos quais foi submetido a alguns horripilantes e até ridículos tratamentos médicos da época e que, em certos casos, agravaram seu mal-estar.

Uma série de especialistas modernos fez investigações forenses históricas para determinar quais doenças o afligiam, qual era a relação delas com sua surdez e como influenciaram sua personalidade e criação musical.

O compositor teve inumeráveis problemas de saúde.
O compositor teve inumeráveis problemas de saúde.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O neurocirurgião britânico Henry Marsh apresentou todo um catálogo dos males que seriam diagnosticados hoje em dia no documentário do Serviço Mundial da BBC "Dissecando Beethoven".

Segundo o médico, o compositor sofria de uma "enfermidade inflamatória intestinal, síndrome do intestino irritável, diarreia violenta, doença de Whipple, depressão crônica, envenenamento por mercúrio e hipocondria".

Um dia após a morte de Beethoven, em 27 de março de 1827, o destacado médico Johannes Wagner fez uma autópsia no cadáver e encontrou o abdômen inflamado e o fígado com um quarto do tamanho normal, indicações de cirrose pelo consumo de álcool.

O alcoolismo era um mal de família: acometera sua avó, e seu pai era um conhecido bêbado.

Beethoven tomava vinho com regularidade e em ocasiões sociais, embora naquela época fosse um comum substituto para água contaminada, segundo a professora Tunbridge.

No entanto, "seus médicos lhe recomendaram que reduzisse a quantidade, algo curioso porque o dano associado ao alto consumo de álcool não era muito conhecido então", diz a pesquisadora.

William Meredith, pesquisador do Centro de Estudos de Beethoven da Universidade de San José, na Califórnia, estabeleceu uma conexão entre o consumo de vinho e um possível envenenamento por chumbo, baseando-se numa amostra do cabelo do compositor analisada quimicamente, que indicou a presença desse metal.

Sabe-se que os comerciantes da época armazenavam suco de uva em barris forrados de chumbo para sua fermentação. A técnica dava à bebida uma textura e um sabor açucarado que as pessoas consumiam com gosto, sem conhecer sua toxicidade pelo contato com o metal pesado.

O envenenamento por chumbo pode produzir dano neurológico, embora não seja possível provar que Beethoven sofresse do mal.

Como perdeu a audição

O que se sabe é que o aparelho auditivo dele foi gravemente afetado, segundo o médico Wagner constatou na autópsia.

O pesquisador Meredith disse à BBC que a surdez pode estar relacionada aos males abdominais, já que ambos surgiram mais ou menos ao mesmo tempo.

"Além disso, Beethoven se queixava frequentemente de febres e enxaquecas, com as quais sofreu até o fim de sua vida".

Outra teoria é a do médico Philip Mackowiak, da Escola de Medicina da Universidade de Maryland, que aponta a sífilis congênita como possível causa.

Uma doença "importada" do continente americano, a sífilis arrasou a Europa, causando graves problemas numa população indefesa.

Corpo de Beethoven passou por autópsia um dia após sua morte.
Corpo de Beethoven passou por autópsia um dia após sua morte.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No caso de Beethoven, segundo Mackowiak, a doença teria se manifestado por meio de problemas gastrointestinais e no tipo de surdez que ele teve.

Mas o neurocirurgião Henry March acha que não há provas contundentes disso, por não haver um diagnóstico moderno de sua saúde. Para ele, tudo o que se pode fazer é especular.

O trauma da surdez

Seja como for, o que se pode estabelecer é que os problemas de audição começaram entre 1797 e 1798.

Isso graças a uma carta encontrada após sua morte, conhecida como o "Testamento de Heiligenstadt".

É um documento endereçado a seus dois irmãos, que Beethoven escreveu em 1802 na localidade de Heiligenstadt, aonde foi para recuperar sua saúde.

No texto, ele expôs toda sua alma e seus pensamentos mais profundos, abordando como a surdez o atormentava e como isso explicava seu comportamento errático.

"... Há quase seis anos fui golpeado por um mal pernicioso que médicos incapazes agravaram", escreveu, detalhando como se viu obrigado a se isolar, a "viver longe do mundo, solitário."

"Devo viver como um exilado. Se me aproximo das pessoas, me aflige em seguida uma angústia terrível: a de me expor a advertências sobre meu estado."

A casa em Heiligenstadt onde Beethoven escreveu a carta a seus irmãos.
A casa em Heiligenstadt onde Beethoven escreveu a carta a seus irmãos.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Ah! Como confessar a debilidade de um sentido que em mim deveria existir num estado de perfeição maior, num nível de perfeição tal qual muito poucos músicos conheceram", declarou, angustiado.

O médico Mackowiak descreveu a condição à BBC como uma "surdez rara, em termos atuais, pois começou lentamente e progrediu ao longo de uns 25 ou 30 anos."

No começo, foi perdendo a capacidade de ouvir certas frequências, e com o tempo outras foram se acrescentando.

"É muito difícil de saber", explica a professora Tunbridge. "Há relatos que o descrevem surdo e falando alto, porém não se sabe exatamente qual era a situação."

Em 1818, já tinha dificuldades para compreender o que as pessoas diziam, então pedia que escrevessem suas perguntas e comentários.

Ainda assim, algumas anedotas registradas no fim de sua vida indicam que ele ainda podia captar certos sons, mesmo que de forma tênue, como quando se surpreendeu ao escutar um grito agudo.

A vibração da música

Apesar do trauma da surdez, combinado com a frustração de não ter podido se casar, ele seguiu compondo e criando as obras que talvez sejam as suas peças mais expressivas, comoventes e experimentais.

"O interessante do Testamento de Heligenstadt é que ele nunca enviou a carta a seus irmãos", disse a professora.

"(Nela) decide que a vida segue tendo valor e que continuará compondo, e que sua música o salvará."

O instrumento de Beethoven por excelência era o piano, então ele seguiu compondo com ele, com a ajuda de vários dispositivos para amplificar o som.

Alguns dos aparatos auditivos projetados para que Beethoven pudesse escutar algo de sua música.
Alguns dos aparatos auditivos projetados para que Beethoven pudesse escutar algo de sua música.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Tom Beghin, pianista e pesquisador do Instituto Orpheus, na Bélgica, foi quem criou esses dispositivos de amplificação que acentuavam as vibrações dos instrumentos para que pudesse senti-los quando tocava.

Mas isso não era o essencial.

"Há que se levar em conta que os músicos dependem muito de sua imaginação, que podem escutar os sons na cabeça, e Beethoven criava música desde a infância", disse Tunbridge.

"Então, talvez ele não pudesse escutar o mundo exterior, mas não há motivos para pensar que a habilidade de escutar a música em sua mente tivesse se deteriorado, nem que houvesse diminuído sua criatividade musical."

Potência e exuberância

Deve ter sido incrivelmente frustrante escrever música para que outros a interpretassem e não poder desfrutá-la em sua totalidade.

Mas, assim como a surdez o teria transformado numa pessoa difícil e mal humorada, também obrigou Beethoven a injetar mais potência em sua música e lhe dar uma expressão física.

O compositor britânico Richard Ayres, que também sofre de surdez e estreou neste ano uma peça inspirada tanto em Beethoven quanto em sua própria perda de audição, disse em um documentário da BBC que como resultado o grande maestro teve de criar uma música "mais exuberante".

"As linhas musicais devem se destacar mais e ser mais claras", comenta. "Se não consegue escutar bem, depende da energia dos músicos também para expressar a música."

É o que Beethoven exigia de seus músicos, disse Ayres, que podia ver seus movimentos corporais e a maneira com que encaravam o instrumento.

Vários intérpretes modernos consideram que a surdez melhorou sua música de muitas maneiras.

Ela lhe deu uma qualidade pulsante, lhe levou por caminhos inesperados, até estrambóticos, a momentos desgarradores e comoventes.

É o caso de uma de suas últimas peças, o quarteto de cordas No.15, Opus 132, que contém o movimento "Heiliger Dankgesang", um agradecimento a Deus por tê-lo ajudado a se recuperar de um mal.

Humanidade e esperança

Na "Ode à alegría" da Noa Sinfonia, Beethoven expressou seus ideais políticos e sociais.
Na "Ode à alegría" da Noa Sinfonia, Beethoven expressou seus ideais políticos e sociais.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Todos os exemplos de sua insociabilidade e suas doenças são verdade", reconhece a professora Tunbridge. "Mas ele não pode ser resumido a isso."

"Há um lado de Beethoven mais ameno e amistoso. Não era assim todo o tempo, mas foi assim o suficiente para demonstrar a imagem monocromática que temos dele. Há outros aspectos que mostram suas qualidades humanas."

Que Beethoven compusesse uma ode à alegria em um de seus momentos pessoais mais difíceis é uma mostra do sentido de esperança que inundava suas últimas obras, afirma a musicóloga da Universidade de Oxford.

Durante muito tempo, desde sua juventude, ele quisera musicalizar o poema homônimo de Schiller e havia buscado muitas maneiras de fazê-lo, até que encontrou um espaço dentro da Nona Sinfonia.

"Penso que os ideais expressos no texto, os de irmandade e felicidade, eram o que Beethoven acreditava em termos políticos e de como devia ser a sociedade."

"Manteve essa perspectiva até o final de sua vida, e isso é algo que não podemos ignorar."

População de Viena no funeral de Beethoven.
População de Viena no funeral de Beethoven.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil
BBC News Brasil BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade