Até onde pode chegar a radicalização dos colonos israelenses na Cisjordânia ocupada?
A União Europeia condenou neste domingo (18) o ataque de colonos israelenses contra uma comitiva de diplomatas europeus na Cisjordânia ocupada e cobrou a responsabilização dos responsáveis pela agressão. O episódio, ocorrido no sábado (17), colocou novamente no centro do debate uma questão que preocupa governos, organismos internacionais e parte da própria sociedade israelense: até onde pode chegar a radicalização dos grupos mais extremistas ligados ao movimento dos assentamentos.
A violência de colonos israelenses na Cisjordânia atingiu níveis recordes e ampliou seus alvos para jornalistas e diplomatas europeus, recentemente agredidos durante a colheita de azeitonas palestina. O episódio gerou forte condenação da União Europeia e expôs a crescente força política da extrema-direita pró-assentamentos, cuja influência eleitoral pressiona o governo Netanyahu e torna cada vez mais remota uma solução negociada para o conflito, desafiando a imposição de limites à radicalização.
Márcia Bechara, da RFI em Paris
A temporada de colheita de azeitonas é, há anos, um dos momentos mais explosivos do calendário da Cisjordânia. O período concentra disputas por terra, acesso às propriedades rurais e presença de observadores internacionais, transformando uma atividade agrícola essencial para milhares de famílias palestinas em um dos principais focos de tensão entre colonos e moradores locais.
A oliveira é muito mais do que uma cultura agrícola para os palestinos. A produção de azeitonas e azeite sustenta milhares de famílias da Cisjordânia e está profundamente ligada à ocupação histórica da terra. Muitas propriedades são familiares e passam de geração em geração. Quando um agricultor consegue colher suas azeitonas, ele não apenas garante renda, mas também reafirma sua presença física naquele terreno.
Em diversas regiões da Cisjordânia, organizações israelenses de direitos humanos, diplomatas europeus e voluntários internacionais acompanham os agricultores justamente porque a colheita é considerada uma fase de alto risco. A presença desses observadores busca documentar o que acontece em campo e reduzir a probabilidade de ataques. É nesse contexto delicado que a comitiva europeia foi atacada ontem por colonos sionistas ligados à extrema direita israelense.
"Energicamente"
Em nota, o serviço diplomático do bloco europeu afirmou condenar "energicamente" os recentes ataques de colonos violentos na Cisjordânia, incluindo aqueles dirigidos contra representantes europeus. A UE também pediu medidas para impedir novos episódios de violência contra palestinos, jornalistas e participantes da atual temporada de colheita de azeitonas, além de reiterar seu apelo pelo fim da expansão dos assentamentos israelenses.
A manifestação europeia ocorreu um dia depois de colonos atacarem a citada comitiva diplomática, composta por representantes da França, Bélgica e Polônia que visitava Taybeh, localidade palestina de maioria cristã na Cisjordânia. Durante os incidentes, um prefeito francês foi agredido. Segundo testemunhas, a delegação acompanhava atividades ligadas à colheita de azeitonas quando colonos invadiram a área para impedir agricultores palestinos de trabalhar.
O governo israelense reagiu de forma ambígua ao episódio. O ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, condenou o que classificou como graves atos de violência e atribuiu a responsabilidade a "agitadores israelenses". Ao mesmo tempo, criticou os consulados europeus por não terem coordenado a visita com o Exército israelense.
Horas depois, porém, o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu denunciou uma campanha de "difamação" contra Israel e contra os colonos da Cisjordânia, evidenciando a sensibilidade política do tema a poucos dias das eleições gerais marcadas para 27 de outubro.
De projeto nacional a força política decisiva
O episódio em Taybeh não é visto por analistas como um caso isolado. Ele ocorre num contexto em que a influência dos colonos israelenses atingiu um nível sem precedentes na política nacional. Os assentamentos surgiram após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel passou a ocupar a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza. Desde então, governos de diferentes orientações incentivaram a presença de cidadãos israelenses nos territórios conquistados por razões que combinavam argumentos de segurança, religião, identidade nacional e estratégia territorial.
Ao longo das décadas, os assentamentos deixaram de representar apenas um projeto ideológico para se tornar uma realidade demográfica e política de grande peso. Hoje, centenas de milhares de israelenses vivem na Cisjordânia ocupada, distribuídos por dezenas de assentamentos reconhecidos pelo governo israelense e por áreas cuja situação jurídica permanece controversa.
Durante muitos anos, a maior parte dos colonos era formada por famílias atraídas por motivações religiosas ou por melhores condições de moradia. Nos últimos anos, e principalmente após os ataques do 7 de outubro de 2023, cresceram os grupos que defendem a anexação definitiva da Cisjordânia ou de partes dela e rejeitam qualquer perspectiva de criação de um Estado palestino.
Paralelamente, partidos ligados ao nacionalismo religioso ampliaram sua influência no Parlamento e nas coalizões governamentais. O resultado foi uma mudança profunda no equilíbrio interno da direita israelense. Hoje, o apoio dos eleitores dos assentamentos se tornou um ativo eleitoral disputado por candidatos e partidos que buscam participar ou liderar futuros governos.
O salto da violência
Mais preocupante para organismos internacionais é a transformação observada na natureza da violência associada a grupos de colonos. Durante décadas, os principais confrontos envolviam disputas fundiárias, destruição de propriedades e choques localizados entre israelenses e palestinos. Nos últimos anos, porém, organizações de direitos humanos, missões diplomáticas e agências da ONU passaram a registrar uma intensificação constante desses episódios.
Dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) mostram crescimento contínuo dos incidentes envolvendo colonos na Cisjordânia. Segundo a ONU, 2024 registrou cerca de 1.400 ocorrências desse tipo, o maior número em quase duas décadas de monitoramento.
A tendência continuou no período seguinte. Relatório divulgado pelas Nações Unidas em março de 2026 contabilizou 1.732 episódios de violência de colonos com vítimas ou danos materiais no período analisado até outubro de 2025. Em julho deste ano, a ONU afirmou que a violência de colonos havia alcançado níveis recordes e alertou que o ritmo dos ataques apontava para mais de 2.000 incidentes anuais caso a tendência fosse mantida.
Esses números por si só chamam atenção. Mas a mudança mais significativa talvez esteja nos alvos escolhidos, que passaram a incluir jornalistas, ativistas israelenses contrários à ocupação, organizações humanitárias, observadores estrangeiros e agora representantes diplomáticos de países aliados de Israel.
Um dilema político para Netanyahu?
As eleições de 27 de outubro prometem ser disputadas, e Netanyahu busca consolidar o apoio do eleitorado de direita, segmento que inclui muitos defensores dos assentamentos.Não há evidências de apoio governamental aos ataques de colonos. Ainda assim, a crescente influência eleitoral dos partidos ligados ao movimento dos assentamentos tornou mais complexa qualquer tentativa de enfrentar politicamente os grupos mais radicais.
A radicalização de parte dos colonos não diz respeito apenas à violência em vilarejos palestinos ou a confrontos pontuais durante a colheita de azeitonas. Ela está diretamente ligada à disputa sobre fronteiras, soberania, assentamentos e à possibilidade, cada vez mais remota, de uma solução negociada para o conflito israelo-palestino.
É por isso que a agressão contra diplomatas europeus provocou repercussão muito além de Taybeh. O episódio tornou visível uma preocupação crescente entre aliados de Israel, organismos internacionais e setores da própria sociedade israelense: a de que grupos antes considerados periféricos passaram a ocupar uma posição suficientemente influente para desafiar não apenas palestinos, mas também jornalistas, observadores estrangeiros e representantes de governos parceiros.
Em última instância, a pergunta deixada pelos acontecimentos deste fim de semana é a mesma que inquieta cada vez mais analistas da região: quem será capaz de impor limites a essa radicalização, e qual será o custo político de fazê-lo?
(Com agências)
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