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As livrarias independentes que estão sendo fechadas pelo governo da China

Para alguns moradores da China continental, as livrarias independentes de Hong Kong sempre foram uma janela para um mundo diferente e mais livre.

22 ago 2026 - 11h48
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Resumo
Livrarias independentes em Hong Kong enfrentam forte repressão sob as rígidas leis de segurança de Pequim, com prisões de livreiros por sedição, apreensões de títulos sensíveis e fechamento de lojas históricas. Esses locais eram refúgios de livre pensamento para moradores locais e chineses do continente, que viajavam em busca de obras censuradas. Diante da vigilância crescente e da censura, a compra e a leitura de livros tornaram-se atos silenciosos de resistência contra o cerceamento da liberdade.
A dona da livraria Hunter, retratada aqui, foi presa no final de junho
A dona da livraria Hunter, retratada aqui, foi presa no final de junho
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Quando Chen Zhu viaja da China continental para Hong Kong todos os meses, há um lugar que ela sempre frequenta: a Livraria Hunter.

Fundada há quatro anos por um ex-vereador, a livraria independente ganhou reputação por ter em seu catálogo o que as autoridades considerariam livros sensíveis - desde relatos de ativistas pró-democracia de Hong Kong até famosas alegorias sobre o autoritarismo, como A Revolução dos Bichos, de George Orwell, ou a série de mangá Ataque dos Titãs, de Hajime Isayama.

É uma curta viagem da casa de Zhu em Guangzhou, na costa sul da China, até a rua movimentada do distrito de Sham Shui Po, em Hong Kong, onde a Hunter está situada entre vendedores de tecidos, oficinas mecânicas e cafés da moda.

Mas, para a jovem de 23 anos, é também uma passagem para um mundo diferente, mais livre, onde ela pode encontrar respostas para perguntas proibidas.

Ao saber que a livraria havia sido alvo de uma batida policial no final de junho, Zhu caiu em prantos: "Fiquei arrasada."

Hong Kong viu um boom de livrarias independentes após os enormes protestos pró-democracia que abalaram a cidade em 2019. Mas tem sido cada vez mais difícil para elas sobreviverem à medida que o controle da China sobre a cidade aumenta.

Embora Pequim defenda sua abrangente Lei de Segurança Nacional (LSN) como essencial para a estabilidade, muitos moradores de Hong Kong e grupos de direitos humanos argumentam que ela reprimiu a liberdade de expressão. Milhares de pessoas, incluindo ativistas e ex-parlamentares, deixaram a cidade nos últimos anos, à medida que as novas e rigorosas leis de segurança levaram a uma série de prisões e condenações.

Livros sobre o movimento democrático da Praça Tiananmen e o empresário bilionário Jimmy Lai são vendidos em livrarias independentes de Hong Kong
Livros sobre o movimento democrático da Praça Tiananmen e o empresário bilionário Jimmy Lai são vendidos em livrarias independentes de Hong Kong
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Quando a polícia fez buscas na Livraria Hunter em 24 de junho, acusou a proprietária Letitia Wong, de 33 anos, e um homem de 32 anos de violarem essas leis e os prendeu por sedição e lavagem de dinheiro. Eles negam as acusações e já foram liberados sob fiança.

Em março, as autoridades prenderam o dono da livraria Book Punch, juntamente com três funcionários, pelas mesmas acusações, e teriam apreendido cópias de uma biografia de Jimmy Lai, o ativista pró-democracia preso.

No dia 15 de julho, dia da abertura da Feira Anual do Livro de Hong Kong, a polícia de segurança nacional realizou buscas em mais duas livrarias independentes, a Greenfield Bookstore e a Have a Nice Stay, prendendo cinco pessoas por sedição. Elas também foram libertadas sob fiança.

No final do mês, a Greenfield publicou nas redes sociais: "Nossa loja fechará após o término do contrato de aluguel. Obrigado por caminharem conosco, na chuva e no vento, por 50 anos desde a nossa inauguração."

Foi a terceira livraria independente a fechar em um mês.

Essas livrarias têm há muito tempo uma clientela fiel não apenas em Hong Kong, mas também entre muitos leitores da China continental. Alguns, como Zhu, viajam até a cidade em busca de um único livro.

Para Li, de 19 anos, de Xangai, que não revelou seu primeiro nome, as livrarias independentes são lugares onde ela "consegue enxergar tantas possibilidades e onde as ideias existentes podem ser desafiadas". Outros as valorizam como espaços que oferecem uma sensação de liberdade e comunidade que, na opinião deles, falta no continente.

Agora eles temem que a China esteja corroendo esse espírito também em Hong Kong.

A polícia escolta uma funcionária para fora da livraria Have a Nice Stay, cuja camiseta dizia "Sou funcionário de uma livraria"
A polícia escolta uma funcionária para fora da livraria Have a Nice Stay, cuja camiseta dizia "Sou funcionário de uma livraria"
Foto: Getty / BBC News Brasil

Quando Zhu começou a universidade em 2021, ela ficou cada vez mais curiosa sobre capítulos menos discutidos da história chinesa — como o massacre da Praça da Paz Celestial de 1989, um tema tabu que foi apagado da internet rigidamente controlada do país.

Os protestos massivos liderados por estudantes terminaram numa violenta repressão militar, cujo número de mortos ainda é contestado. Pequim afirmou na época que 200 civis morreram, mas, de acordo com documentos diplomáticos britânicos que tiveram o sigilo levantado, pelo menos 10 mil pessoas foram mortas.

Zhu procurou filmes que abordassem o evento, mas nem o épico romance Palácio de Verão nem o drama gay Lan Yu, filmado secretamente, conseguiram satisfazer sua curiosidade.

Ela estava determinada a encontrar o livro O Livro Não Queimado, do poeta taiwanês Yang Du, uma reflexão sobre os manifestantes que mais tarde se exilaram.

Em 2023, assim que a fronteira entre a China e Hong Kong reabriu após a pandemia, ela foi para Hong Kong para encontrá-lo.

Foi nessa época que as livrarias independentes da cidade estavam decolando. As pessoas compartilhavam rotas a pé online, com guias de bairro e recomendações selecionadas.

No movimentado bairro de Mong Kok, ficavam a Luck Win, conhecida por seus generosos descontos, e a Greenfield, com suas prateleiras abarrotadas do chão ao teto. A uma curta caminhada dali, estavam a aconchegante Have a Nice Stay, fundada por ex-jornalistas, que promovia populares sessões de leitura noturnas, e a Elmbook, cujas prateleiras apertadas, porém adoradas, faziam os frequentadores assíduos se sentirem em uma caça ao tesouro.

Depois, havia a Book Punch na moderna Tai Nan Street, com uma coleção tão ousada quanto seu lema, "um soco para despertar o leitor", e a favorita dos amantes da gastronomia, a Word by Word, no histórico bairro de Wan Chai, e, claro, a Hunter, com um sofá do lado de fora onde os transeuntes podem fazer uma pausa.

Foi lá que Zhu encontrou O Livro Não Queimado. Ela já havia tentado — e falhado — em outras lojas, então ficou surpresa quando finalmente o avistou.

Hong Kong, que no passado serviu de refúgio para aqueles que deixavam a China após 1989, comemorava anualmente as vítimas com uma vigília. Essas homenagens foram gradualmente desaparecendo à medida que as novas leis passaram a visar as reuniões políticas.

Ainda assim, quando Chris, de 20 anos (cujo nome alteramos), viajou para Hong Kong no início de junho, descobriu que uma livraria exibia livros relevantes, velas brancas e rolos de fita adesiva impressos com os numerais romanos "VI-IV" — 6-4, uma forma codificada de representar o aniversário de 4 de junho.

Esses jovens podem não ser de Hong Kong, mas descrevem sentir um profundo senso de pertencimento a essas livrarias: espaços politicamente vibrantes que dialogam com a história que seus governos prefeririam que eles esquecessem.

Mas não se trata apenas de livros.

A entrada fechada da Livraria Greenfield após a operação policial
A entrada fechada da Livraria Greenfield após a operação policial
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Li visitou Hong Kong durante o Ano Novo Lunar no início deste ano, meses depois de um incêndio de grandes proporções em um prédio de apartamentos no distrito de Tai Po, no nordeste da cidade, ter causado 168 mortes.

Na livraria Hunter, ela descobriu uma parede coberta de post-its pretos, onde os visitantes haviam deixado mensagens de apoio para os afetados pela tragédia.

Li afirma que esse senso de comunidade é difícil de encontrar na China continental. Ela diz que, embora também existam fóruns de mensagens por lá, eles não se concentram na solidariedade com as vítimas de um incidente específico, talvez porque as autoridades sejam cautelosas com qualquer manifestação de sentimento público.

"As pessoas só podem se expressar indiretamente", diz Li.

Ela ficou igualmente impressionada com outro pequeno detalhe: bilhetes manuscritos deixados pelos funcionários ao lado dos livros. Usando notas adesivas, os livreiros compartilharam reflexões sobre os livros que leram ou destacaram trechos que consideraram particularmente significativos. É algo que ela jamais havia visto em seu país.

Zhu vivencia algo semelhante.

"Todos nós amamos livros. Todos nós valorizamos livrarias independentes. É por isso que escolhemos comprar livros aqui."

Ela raramente conversa com estranhos enquanto olha as prateleiras, mas nunca se sente uma estranha. Os livros e os eventos promovidos pelas lojas lhe dão a sensação de ter escapado para um lugar com "pelo menos um pouco de liberdade de expressão".

"Você deixou a China continental para trás. Claro, você sabe que essa liberdade tem seus limites. Mas ainda é melhor do que não poder dizer absolutamente nada."

Hong Kong perdeu muitas livrarias independentes ao longo dos anos — os frequentadores habituais se reuniram na Mount Zero em seu último dia, em março de 2024
Hong Kong perdeu muitas livrarias independentes ao longo dos anos — os frequentadores habituais se reuniram na Mount Zero em seu último dia, em março de 2024
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas agora Zhu sente que essa liberdade está sendo cerceada.

Ela diz que se depara com autoridades com mais frequência em Hong Kong do que na China continental. Em um evento numa livraria, ela se lembra de funcionários do governo entrando no local.

"Eles simplesmente ficaram sentados lá, ouvindo junto conosco."

Segundo um livreiro que pediu para não ser identificado devido a possíveis represálias, o aumento das batidas policiais não tem como alvo apenas lojas explicitamente políticas.

"A livraria Lucky Win e a Elmbook sempre mantiveram um perfil muito discreto", diz o livreiro.

"Eles raramente fazem declarações públicas ou organizam eventos. Sinceramente, não consigo imaginar nada que eles pudessem ter feito para ofender o governo."

Nas semanas que antecederam a feira do livro deste ano, ambas as lojas foram criticadas no Wen Wei Po, um jornal controlado pelas autoridades de Pequim em Hong Kong.

O jornal os acusou de vender livros que promoviam a "resistência branda". Isso incluía Os Diários de Hong Kong, do último governador de Hong Kong, Chris Patten, antes da cidade retornar ao domínio chinês, e 300 Ensaios Curtos, do falecido colunista do jornal Apple Daily, Lee Yee.

O Apple Daily foi fechado e vários funcionários de alto escalão, incluindo seu proprietário, Jimmy Lai, foram presos por violarem as novas leis de segurança.

"As autoridades não querem que as pessoas saibam exatamente onde estão os limites", diz Tong Kin-long, do University College London. "Elas querem que as pessoas descubram as linhas vermelhas por si mesmas, ou que se autocensurem antes de cruzá-las."

Acompanhar essas mudanças em Hong Kong tem sido estranhamente familiar para um homem que chamaremos de K, na casa dos 30 anos e originário de Sichuan.

K se lembra de uma época em que as livrarias da China continental também eram espaços vibrantes para discussões públicas. Livros e revistas de cunho liberal eram exibidos com destaque. As livrarias sediavam regularmente palestras e debates. Mas, por volta de 2015, ele começou a notar um endurecimento gradual das regras.

No início, eram livros sobre os líderes do país. Mas depois, livros menos obviamente sensíveis começaram a desaparecer. Os eventos públicos tornaram-se menos frequentes e o ambiente mudou.

Zhu tem um amigo que atualmente administra uma livraria em Guangzhou. Ela conta que a polícia visita a loja de tempos em tempos para importunar o livreiro. Durante as sessões de cinema organizadas pela livraria, a energia elétrica chegou a ser cortada.

"Hong Kong", diz ela, "deveria ser um lugar mais livre".

Livros do líder chinês Xi Jinping expostos durante a Feira do Livro de Hong Kong em julho
Livros do líder chinês Xi Jinping expostos durante a Feira do Livro de Hong Kong em julho
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ainda assim, os leitores da China continental estão ansiosos para levar livros de Hong Kong para casa, mesmo que as autoridades alfandegárias possam confiscar aqueles que considerem prejudiciais à soberania, segurança ou unidade nacional.

K sente ansiedade sempre que volta de Hong Kong. Ele escolhe passagens de fronteira mais movimentadas, evita livros que apresentem figuras politicamente sensíveis e esconde livros dentro das roupas ou no fundo da bagagem.

Mas essa já não é a sua única preocupação.

"Antigamente, as pessoas simplesmente pensavam: 'Se eu não conseguir comprar um livro na China continental, vou a Hong Kong'. Agora o sentimento é diferente. Você nem sabe quais livrarias ainda estarão aqui na próxima vez que vier."

Uma semana após saber que havia sido excluída da Feira do Livro de Hong Kong, a Elmbook anunciou que fecharia sua loja física em abril do ano seguinte. Logo depois, a Have A Nice Stay anunciou que fecharia no final de agosto, alegando dificuldades econômicas e "linhas vermelhas" imprevisíveis sobre o que era considerado problemático.

Muitos no setor livreiro de Hong Kong estão pessimistas. Alguns acreditam que as coisas só vão piorar.

Mas os leitores não estão impotentes, afirma um especialista do setor.

"Ainda podemos comprar livros. Ainda podemos ler. E ainda podemos ler muitos livros."

Chris ficou assustado ao saber das prisões na Livraria Hunter, mas disse que vai continuar.

"Comprar um livro tornou-se uma forma silenciosa de demonstrar apoio e uma forma silenciosa de resistência."

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