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América Latina

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Papa Leão XIV inicia missão estratégica em uma América do Sul cada vez menos católica

O papa Leão XIV partiu nesta sexta-feira (6) para uma das viagens apostólicas mais importantes do seu pontificado. Ele visitará o Uruguai, a Argentina e o Peru, sua pátria adotiva. Este giro de 11 dias pela América do Sul ocorre três semanas após o líder da Igreja Católica, de 71 anos, ter sido submetido a uma cirurgia para retirar um câncer de pulmão. Segundo os médicos, o papa não precisará de novos tratamentos.

6 nov 2026 - 08h54
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Resumo
Recém-operado de um câncer no pulmão, o papa Leão XIV iniciou uma viagem estratégica à América do Sul para conter o secularismo e o avanço pentecostal. A intensa agenda inclui o Uruguai, onde busca reaproximar fiéis no país mais laico da região; a Argentina, suprindo a ausência histórica de Francisco e encontrando Javier Milei; e o Peru, sua pátria adotiva. Apesar do ritmo exigente e das altitudes andinas, o Vaticano garante que a saúde do pontífice de 71 anos está estável.

Gina Marques, correspondente RFI Brasil em Roma

Além da dimensão diplomática e social, uma viagem apostólica tem como objetivo fortalecer a fé dos fiéis por meio da presença do papa. A América do Sul ocupa um lugar estratégico para a Igreja Católica: dos 1,42 bilhão de católicos no mundo, entre 385 e 400 milhões vivem no continente, o equivalente a 27,4% do total global, segundo o Anuário Pontifício 2026, publicação estatística da Igreja.

Ao mesmo tempo, o continente americano registra o avanço das igrejas pentecostais, que atraem um número crescente de cristãos, inclusive entre os católicos. Outro desafio para a Igreja é o secularismo: muitos fiéis já não frequentam regularmente os templos nem seguem sua doutrina. Nesse contexto, o deslocamento de um pontífice também busca reforçar nos fiéis os valores morais da Igreja Católica.

A viagem aos três países sul-americanos foi meticulosamente preparada ao longo de meses. O que ninguém previa era que ela ganhasse uma dimensão ainda maior devido à recente cirurgia do papa, que resultou na retirada de um câncer no pulmão.

Embora o Vaticano tenha informado que o pontífice segue em recuperação, Leão XIV cumprirá uma agenda intensa, com mais de 50 compromissos, entre missas ao ar livre, encontros com povos indígenas da Amazônia e reuniões com vítimas de abusos cometidos por membros do clero.

Uruguai: o país menos "religioso" da América Latina

A viagem apostólica começa pelo Uruguai, país de cerca de 3,5 milhões de habitantes e considerado o mais secularizado da América Latina. Um estudo do instituto norte-americano Pew Research Center sobre o comportamento religioso na região mostrou que, em 2020, apenas 44% dos uruguaios se declaravam cristãos, uma queda de 16,5 pontos percentuais em uma década. Em contrapartida, 52% da população afirmavam não ter filiação religiosa ou se definiam como agnósticos ou ateus. Um dos objetivos de Leão XIV é justamente tentar frear essa tendência e reaproximar os fiéis da Igreja.

Atualmente governado pelo presidente de esquerda Yamandú Orsi, o Uruguai mantém posições que divergem da doutrina católica em temas como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o aborto e a eutanásia, legalizada no ano passado. A expectativa é que o papa faça apelos em defesa da vida durante sua passagem pelo país. A visita também tem um valor simbólico: há 38 anos o Uruguai não recebia um pontífice. O último foi João Paulo II, em 1988.

Argentina, terra natal de Francisco

A Argentina é o país natal de seu antecessor, o papa Francisco, que, ao longo dos 12 anos de pontificado, não retornou à terra natal. Essa ausência decepcionou muitos argentinos.

Francisco não voltou à Argentina durante seu pontificado, entre 2013 e 2025, por uma combinação de fatores políticos, pessoais e de agenda. Essa é uma missão que ficou inacabada e que Leão XIV pretende agora cumprir.

De acordo com as autoridades argentinas, cerca de sete milhões de peregrinos são esperados para acompanhar as atividades de Leão XIV. Durante a visita a Buenos Aires, o pontífice também deverá se reunir com o presidente Javier Milei, político de extrema direita que manteve uma relação conturbada com Francisco. Milei, por sua vez, é um aliado próximo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja relação com Leão XIV também é marcada por tensões.

Na Argentina, lideranças locais da Igreja têm manifestado fortes críticas ao custo social das medidas adotadas pelo presidente argentino para reerguer a economia do país. Segundo esses representantes, as políticas econômicas deixaram milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade, lutando para garantir a própria subsistência.

Vale destacar que o último dia na Argentina, 11 de novembro, inclui uma visita à prisão federal na capital, um local ainda ligado às memórias do cardeal Bergoglio, antes de ser eleito papa Francisco.

Peru, a pátria adotiva

O Peru ocupa um lugar especial na trajetória de Leão XIV, que viveu quase duas décadas no país como missionário e foi bispo de Chiclayo, entre 2015 e 2023. Durante a visita, o primeiro papa nascido nos Estados Unidos, e naturalizado peruano, celebrará uma missa na costa do Pacífico e passará por Cusco, a antiga capital inca, e Pucallpa, uma cidade na floresta amazônica.

A breve passagem de três horas por Cusco, a 3.400 metros de altitude, também desperta atenção sobre sua condição de saúde e resistência física.

Saúde do papa

Leão XIV tem 71 anos e, há apenas três semanas, foi submetido a uma cirurgia que retirou o lobo inferior do pulmão direito. Segundo os médicos, não há necessidade de tratamento oncológico complementar nem de medicação especial no período pós-operatório.

Ainda assim, a viagem impõe um ritmo intenso. O itinerário inclui 12 voos, dois deslocamentos de helicóptero e até uma oração em grande altitude nos Andes.

Apesar dos questionamentos sobre sua condição física, não estão previstos equipamentos especiais nem medidas médicas extraordinárias durante a visita. O diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, afirmou que o pontífice está em ótima saúde e receberá apenas os cuidados médicos habituais dispensados em viagens papais.

Para muitos observadores, a questão é saber se Leão XIV está minimizando os riscos associados ao câncer que enfrentou recentemente ou se, de fato, está superando a doença com aparente facilidade.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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