Mercados globais recuam diante de dúvidas sobre o futuro dos investimentos em inteligência artificial
As ações ligadas à inteligência artificial (IA) provocaram uma onda de turbulência nos mercados financeiros globais nesta sexta-feira (6), da Ásia à Europa, um dia após uma queda histórica na Bolsa de Nova York. Apesar do tombo da véspera, Wall Street abriu em recuperação, mas o receio de uma desaceleração nos investimentos em inteligência artificial continuou pressionando os mercados.
As bolsas globais recuaram fortemente após temores de novas regulações e alta de custos para data centers de inteligência artificial nos EUA, deflagrando uma onda de vendas que atingiu sobretudo fabricantes de chips e gigantes da tecnologia. O movimento reflete o excesso de otimismo com a IA e o receio de impactos no consumo norte-americano. O cenário de cautela foi reforçado por dados de emprego acima do esperado nos EUA, elevando apostas em juros altos mantidos pelo Federal Reserve por mais tempo.
Por volta das 9h40 pelo horário de Brasília, as principais bolsas europeias operavam em forte baixa: Paris recuava 1,67%, Londres 2,05%, Zurique 2,08% e Frankfurt 2,42%. A queda foi ainda mais contrastante na Alemanha porque, na véspera, o índice da Bolsa de Frankfurt havia atingido um recorde histórico.
Na quinta-feira (5), o índice Nasdaq, que reúne grande parte das empresas de tecnologia dos Estados Unidos, despencou 5,52%, registrando sua pior sessão desde abril de 2025. Os fabricantes de semicondutores, peças fundamentais para o desenvolvimento da IA, foram os mais penalizados. As ações da Micron e da AMD perderam mais de 17%, enquanto a Nvidia caiu mais de 9%.
As bolsas asiáticas acompanharam o movimento na abertura desta sexta-feira. Tóquio e Seul caíram cerca de 6%, e Taipé perdeu 4,5%.
Apesar da forte queda registrada na véspera, Wall Street abriu em recuperação nesta sexta-feira. Nos primeiros minutos de negociação, o índice Nasdaq avançava cerca de 1,3%, impulsionado pela alta de fabricantes de semicondutores como Nvidia, AMD e Micron, que haviam liderado as perdas do dia anterior.
O estopim da turbulência veio dos Estados Unidos. Após a ampla vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas de meio de mandato, os mercados passaram a temer regras mais rígidas para os centros de dados (data centers), estruturas essenciais para a inteligência artificial e que consomem grandes quantidades de energia.
Com medo de que essas novas regras aumentem os custos do setor e limitem sua expansão, investidores passaram a vender ações dessas empresas, provocando perdas expressivas nos mercados.
Em entrevista à RFI, Christian Parisot, conselheiro econômico da corretora francesa Aurel BGC, explica que a turbulência reflete, também, as expectativas muito elevadas criadas em torno da IA. "É um elemento adicional de risco e uma tendência global, porque o mundo todo se entusiasmou com esses investimentos. Não quero dizer que tenham sido erros de investimento, mas às vezes avançamos rápido demais e com excesso de entusiasmo", afirma.
Segundo ele, essa reavaliação pode pressionar os preços dos componentes eletrônicos e levar empresas a rever seus planos de investimento. "Mas tudo depende da evolução das necessidades da sociedade e dos modelos que forem desenvolvidos, que talvez consumam menos energia do que imaginamos", pondera.
Segundo Bruno Cavalier, economista-chefe do banco francês Oddo BHF, o setor de IA entrou em uma "zona de turbulência". Ele destaca que a preocupação vai além da Bolsa: atualmente, cerca de 43% da riqueza financeira das famílias americanas está investida em ações, um percentual superior ao registrado durante a bolha da internet no início dos anos 2000.
Caso as bolsas continuem caindo e reduzam o patrimônio das famílias, isso pode levar a uma diminuição do consumo e, consequentemente, afetar o crescimento econômico dos Estados Unidos.
Ações europeias ligadas à IA resistem
Curiosamente, algumas empresas europeias diretamente ligadas à cadeia da inteligência artificial mostraram resistência. Entre elas estavam fabricantes de equipamentos para semicondutores, como ASML, ASM International, STMicroelectronics, BE Semiconductor Industries e Infineon, cujas ações avançavam no pregão.
Já outros setores sofreram fortes perdas. Empresas consideradas sólidas, como a farmacêutica AstraZeneca, a fabricante de alimentos Nestlé e a seguradora Allianz, também foram atingidas pela onda de vendas.
O setor de luxo, muito dependente do consumo americano, estava entre os mais prejudicados. Em Paris, as ações da LVMH, da Kering e da Hermès registravam quedas expressivas.
Outro indicador acompanhado de perto pelos investidores foi o relatório mensal de emprego dos Estados Unidos, considerado um dos mais importantes para avaliar a saúde da maior economia do mundo. O dado publicado nesta sexta-feira veio acima das expectativas: foram criadas 165 mil vagas em outubro, mais que o dobro das cerca de 70 mil previstas pelos analistas. A taxa de desemprego caiu para 4,1%, abaixo da expectativa de 4,2%.
O resultado reforça a percepção de que a economia americana continua aquecida. Por outro lado, um mercado de trabalho mais forte pode levar o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, a manter os juros elevados por mais tempo para conter a inflação.
No mercado de títulos públicos, o rendimento dos papéis americanos de dez anos estava em 4,87%. Na Europa, os juros das dívidas alemã e francesa também avançavam levemente. Já o petróleo permanecia estável, com o barril de Brent negociado em torno de US$ 98.
Com RFI e AFP
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