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Alexei Navalny: as duas horas dramáticas em que russo envenenado foi salvo em pleno voo

BBC News Russian ouviu relatos de testemunhas e médicos sobre voo em que político passou mal e teve de ser levado às pressas ao hospital.

4 set 2020
09h31
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Alexei Navalny
Alexei Navalny
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O líder da oposição na Rússia, Alexei Navalny, está em coma em um hospital em Berlim e a Alemanha revelou que ele foi envenenado por um agente químico chamado Novichok.

Ele passou mal durante um voo da Sibéria para Moscou e o avião precisou fazer um pouso de emergência na cidade de Omsk. Dois dias depois autoridades russas foram convencidas a permitir que ele fosse levado para a Alemanha.

A BBC News Russian (serviço em russo da BBC) reuniu informações para entender como comissários de bordo e médicos lutaram para salvar a vida de Navalny nos céus da Sibéria. Essa é a reconstituição das duas horas desta perigosa viagem.

O que aconteceu naquela manhã

No dia 20 de agosto, Alexei Navalny estava pegando o voo da companhia aérea S7 de Tomsk para Moscou. Ele não havia comido e bebido nada naquela manhã, tirando uma xícara de chá que tomara no aeroporto de Tomsk Bogashevo, de acordo com sua assessora de imprensa, Kira Yarmysh.

Outro passageiro no avião, Ilya Ageev, também viu Navalny bebendo chá uma hora antes da decolagem. O crítico do governo russo estava sorrindo e fazendo piadas com passageiros que o reconheciam.

8:01 no horário de Tomsk

Durante a primeira meia hora do voo, Navalny começou a passar mal. Comissários de bordo estavam distribuindo água para os passageiros, mas ele recusou. Ele então se levantou para ir ao banheiro.

8:30 no horário de Tomsk

Outro passageiro tentou usar o banheiro na mesma hora, mas Alexei Navalny ocupou o toalete por cerca de 20 minutos. Uma fila começou a se formar.

8:50 no horário de Tomsk

A esta altura, quatro comissários de bordo sabiam que um de seus passageiros estava passando mal.

9:00 no horário de Tomsk

Minutos depois, um comissário de bordo fez um anúncio perguntando se havia algum médico a bordo. Foi quando os demais passageiros perceberam que algo grave estava acontecendo.

O resto da tripulação informou ao piloto sobre o ocorrido e tentou administrar os primeiros socorros em Navalny.

Seu assistente, Ilya Pakhomov, caminhou entre as fileiras de assentos perguntando se havia alguém que pudesse prestar atendimento médico. Uma mulher, que não foi identificada, se apresentou como enfermeira.

Durante a próxima hora, ela e os comissários de bordo se concentraram em manter Navalny consciente, até que o piloto pudesse fazer uma aterrissagem de emergência, segundo a companhia aérea S7.

Sergey Nezhenets, um advogado, estava sentado perto de onde Navalny recebia tratamento. Ele faria conexão em Moscou para seguir para Krasnodar, no sul da Rússia.

"Comecei prestando atenção no que acontecia quando um comissário de bordo pediu que profissionais de medicina se apresentassem", disse Nezhenets para a BBC.

"Poucos minutos depois, o piloto anunciou que aterrissaria em Omsk, porque um passageiro estava passando mal. Eu só percebi que o passageiro em questão era Navalny quando aterrissamos, quando chequei meu Twitter e vi os posts de sua porta-voz."

"Poucos minutos depois do anúncio perguntando por algum médico, Alexei começou a gemer e berrar. Ele estava claramente sofrendo. Ele estava deitado no chão na parte do avião reservada para a tripulação. Ele não falava palavra alguma — só berrava."

Foi quando a enfermeira se apresentou para ajudar, conta o passageiro.

"Eu não sei o que eles estavam fazendo, eu não vi", ele diz. "Mas eu ouvi eles dizendo 'Alexei, beba, beba, Alexei, respire!'"

"Quando ele gemia, todos nós nos sentíamos melhor, porque podíamos ver que pelo menos ele estava vivo. Eu quero ressaltar que, naquele momento, eu não sabia que se tratava de Navalny."

Dois dos assistentes de Navalny estavam de pé próximos a ele; uma era a assessora de imprensa, Kira Yarmysh.

"Ela estava muito nervosa", diz Nezhenets. "O médico indagou o que havia acontecido com ele e Kira disse: 'eu não sei, ele provavelmente foi envenenado'."

8:20 no horário de Omsk (uma hora de diferença em relação a Tomsk)

A tripulação foi rápida em pedir permissão para o pouso de emergência em Omsk, segundo a companhia aérea. O pedido foi atendido imediatamente.

Foram necessários pouco mais de 30 minutos para que o avião aterrissasse após os passageiros serem avisados que haveria um pouso de emergência.

Mas a tripulação "seguiu checando as janelas e reclamando que, por conta do tempo nublado, estava demorando mais tempo para que se aterrissasse, enquanto Alexei passava muito mal".

O advogado conta que ouvia sons de vômito quando tentavam dar alguma bebida a Alexei.

Não ficou claro se a tripulação chegou a realizar uma limpeza estomacal. Se a tripulação suspeitou de intoxicação alimentar, ela pode ter realizado o procedimento, segundo o especialista em atendimentos de emergência Mikhail Fremderman. Mas, diz ele, isso não ajudaria no caso de envenenamento por um composto como o que foi informado pelas autoridades alemãs.

E se a comida de Navalny tivesse sido envenenada, o vômito dele colocaria em risco as pessoas que estavam prestando atendimento médico, além dos faxineiros que limparam a aeronave em seguida.

9:01 no horário de Omsk

O avião aterrissou.

9:03 no horário de Omsk

A equipe médica no aeroporto entrou na aeronave apenas dois minutos após a aterrissagem.

Eles examinaram Navalny e disseram que "não era um caso para nós — ele precisa de cuidado intensivo", lembra Nezhenets.

Ele ouviu um dos médicos chamar por uma ambulância pelo telefone. Ele pediu que o carro parasse na área de aterrissagem, dizendo que o paciente estava em estado grave.

Ele então ouviu o médico dando instruções sobre a cor da aeronave e sobre onde parar a ambulância.

"Nós esperamos por outros 10 minutos para que a ambulância chegasse", ele diz. "Durante esse tempo, os doutores mediram a pressão de Navalny e deram a ele um soro intravenoso — e acho que estava claro para eles que isso seria inútil."

Vasily Sidorus, médico-chefe do aeroporto de Omsk, disse que não tratou pessoalmente de Alexei Navalny, mas que seus colegas fizeram de tudo para salvar sua vida.

"Era difícil entender o que estava acontecendo, já que ele não conseguia falar", diz ele. "Eles fizeram tudo que precisavam fazer, salvaram a vida dele e se certificaram de que ele seria levado a um hospital adequado."

Os passageiros com quem falamos acreditam que os médicos examinaram Navalny por cerca de 15 a 20 minutos ainda dentro do avião.

9:37 no horário de Omsk

Navalny foi retirado do avião e colocado, com uma maca, dentro da ambulância, que o levou ao hospital de Omsk.

O avião foi abastecido e, depois de meia hora, seguiu seu curso para Moscou, segundo Nezhenets.

"Quando aterrissamos no aeroporto Moscou Domodedovo, vários policiais e outras pessoas entraram no avião."

"Eles pediram que os passageiros que estavam nas fileiras próximas a Alexei ficassem onde estavam, enquanto o resto podia sair. Alexei estava sentado em algum lugar no meio do avião, entre as filas 10 e 11."

Para o advogado, foi estranho ver policiais a bordo. "Em algum momento, não parecia se tratar de um problema criminal. No entanto, ali estavam os serviços de segurança."

Durante dois dias, o hospital de Omsk manteve Navalny na unidade para envenenamento agudo. Inicialmente, os médicos não permitiram que ele viajasse à Alemanha, alegando que seria perigoso por causa de sua condição instável de saúde.

No entanto, no dia 22 de agosto, ele foi levado para a clínica Charité, em Berlim. Dois dias depois, médicos alemães anunciavam que exames confirmaram que ele havia sido envenenado.

Médicos em Omsk, incluindo o diretor do hospital e o diretor toxicólogo, insistem que não havia substâncias venenosas no corpo de Navalny quando ele esteve sob os cuidados do hospital russo. Eles disseram que um diagnóstico alternativo seria algum transtorno de metabolismo.

A BBC News Russian pediu que as autoridades de Omsk dessem um relato detalhado da internação de Navalny, mas não recebeu resposta.

Reportagem de Anna Pushkarskaya, Elena Berdnikova, Timur Sazonov, Andrei Soshnikov e Ksenia Churmanova.

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