Mulheres representam 92% dos cuidadores de autistas no Brasil
O estudo Mapa Autismo Brasil, com mais de 23 mil participantes, escancara a falta de rede de apoio e o impacto da ausência de políticas públicas na vida de milhares de brasileiras
Cuidadores de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil tem rosto e gênero definidos. Segundo os dados da pesquisa Mapa Autismo Brasil, divulgados nesta quinta-feira (9), as mulheres compõem 92,4% do grupo de responsáveis por esses pacientes. O estudo, realizado de forma online e voluntária com mais de 23 mil respondentes, traça um panorama alarmante sobre a invisibilidade e a sobrecarga que recaem quase exclusivamente sobre as figuras maternas, que muitas vezes precisam abandonar suas carreiras e vidas pessoais para suprir lacunas deixadas pelo Estado.
O levantamento revela que, enquanto 95,9% dos responsáveis diretos são pais ou mães, a disparidade entre homens e mulheres no cotidiano do cuidado é gritante. Para muitas dessas mulheres, a jornada não é de vivência, mas de resistência.
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Cuidadores de autistas no Brasil
A falta de uma rede de apoio sólida e de políticas públicas eficazes agrava a saúde mental e financeira dessas cuidadoras. Sem terapias multidisciplinares garantidas pelo governo, as mães tornam-se terapeutas, mediadoras e administradoras de crises, muitas vezes em tempo integral. Essa dedicação forçada gera um ciclo de isolamento social e vulnerabilidade econômica, já que a complexidade do acompanhamento necessário para o autismo dificulta a manutenção de empregos com jornadas convencionais. A pesquisa reforça que o cuidado no Brasil ainda é visto como uma obrigação privada e feminina, em vez de uma responsabilidade compartilhada pela sociedade.
Os especialistas que analisaram os dados do Mapa Autismo Brasil destacam que a superação desse cenário exige mais do que apenas a abertura de vagas em clínicas. É necessário pensar em políticas de "cuidado para quem cuida", garantindo que essas mulheres tenham acesso a suporte psicológico e auxílio financeiro. Enquanto o sistema público não absorver a demanda crescente por diagnóstico e tratamento, a conta continuará sendo paga por mulheres, que seguem lutando por direitos básicos em um cenário de escassez. O relatório é um ultimato para que o tema do autismo seja tratado não apenas sob a ótica clínica, mas como uma questão urgente de justiça social e igualdade de gênero.