Kia terá fábrica no Brasil? O que se sabe sobre a dívida de R$ 6 bilhões que trava o projeto
Montadora sul-coreana negocia com o governo federal uma pendência tributária herdada da Asia Motors; possível acordo pode abrir caminho para produção nacional e mudanças na operação brasileira
A Kia negocia com o governo brasileiro um acordo para solucionar uma dívida tributária superior a R$ 6 bilhões, herdada da antiga Asia Motors após descumprir a promessa de erguer uma fábrica nos anos 1990. As partes têm 30 dias para tentar uma conciliação que destrave a pendência e viabilize a instalação de uma unidade fabril no País, possivelmente em Piracicaba. Apesar do avanço nos diálogos, a montadora ainda não confirmou investimentos, modelos a serem produzidos ou cronograma oficial.
Uma dívida de mais de R$ 6 bilhões, uma fábrica prometida há três décadas e uma negociação que pode mudar o futuro da Kia no Brasil. A montadora sul-coreana tenta chegar a um acordo com o governo federal para resolver uma pendência tributária ligada à antiga Asia Motors, que recebeu incentivos fiscais com o compromisso de produzir veículos no País, mas nunca concretizou o projeto.
Em 14 de outubro, o julgamento do caso foi retirado de pauta, e as partes ganharam 30 dias para tentar uma solução negociada. Se não houver entendimento, o processo deve voltar à pauta em 3 de dezembro de 2026. A data marca a retomada da discussão judicial, não necessariamente uma decisão definitiva.
Com as negociações, a possibilidade de uma fábrica da Kia no Brasil voltou a ganhar força. Ainda não há, porém, confirmação oficial sobre o investimento, os veículos que seriam produzidos ou quando a unidade começaria a funcionar.
O Jornal do Carro procurou a Kia Corporation para esclarecer os termos das negociações e os planos industriais da empresa. A empresa, por sua vez, se posicionou sobre o caso afirmando que "mantém seu compromisso com o diálogo construtivo com as partes relevantes no Brasil em relação à longa disputa judicial".
A Kia afirma que "continua explorando oportunidades de negócios em mercados de todo o mundo, incluindo o Brasil, como parte de suas operações globais. No entanto, nenhuma decisão foi tomada em relação a qualquer investimento específico no Brasil".
Por que a Kia é cobrada em mais de R$ 6 bilhões?
A origem da disputa está na década de 1990, quando a Asia Motors do Brasil, que tinha o grupo Kia como acionista controlador, recebeu incentivos fiscais para importar veículos. Em contrapartida, comprometeu-se a instalar uma fábrica na Bahia, onde seriam produzidos modelos como a van Topic e o utilitário Towner.
A fábrica nunca foi construída. Com isso, o governo passou a cobrar os tributos relacionados aos benefícios concedidos, com multas e juros.
A crise financeira asiática de 1997 também atingiu a fabricante, e a Kia passou depois ao controle do Grupo Hyundai. Com a dissolução da Asia Motors do Brasil, a Fazenda pediu que a cobrança fosse redirecionada à Kia, como sucessora.
A responsabilidade da montadora, no entanto, ainda é discutida na Justiça. A execução fiscal foi ajuizada em 2007, e a Kia foi incluída no processo em 2010. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região chegou a excluir a empresa da cobrança, mas, em 2023, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reformou essa decisão por uma questão processual e devolveu o caso à primeira instância, sem decidir se a Kia deve ou não pagar.
O valor de mais de R$ 6 bilhões corresponde à estimativa atualizada da dívida citada pelo STJ no julgamento de 2023.
O governo vai perdoar a dívida da Kia?
Não há anúncio oficial de perdão da dívida. As negociações envolvem a possibilidade de resolver o passivo para viabilizar uma fábrica da Kia no Brasil. O prazo de 30 dias não significa que o governo tenha concordado com a proposta nem que a montadora esteja autorizada a iniciar obras. Os termos de um eventual acordo, como valores, condições de pagamento e compromissos industriais, também não foram divulgados.
Em setembro, o vice-presidente global da Kia, Eui Chul Jeong, participou de uma reunião com representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O encontro foi confirmado pelo ministério, mas os assuntos discutidos não foram detalhados publicamente.
Onde a Kia poderá construir sua fábrica?
Piracicaba, no interior de São Paulo, aparece como uma das possibilidades. A cidade já abriga uma fábrica da Hyundai, do mesmo grupo que controla a Kia, o que poderia facilitar o aproveitamento de estruturas industriais e logísticas.
Reportagens sobre as negociações apontam a possibilidade de instalação da fábrica até 2028. Também circularam estimativas de 5 mil empregos diretos e 15 mil indiretos. Nada disso, porém, foi confirmado oficialmente pela Kia, nem a escolha de Piracicaba, nem o cronograma, nem os números de empregos.
Quais carros a Kia pretende fabricar no Brasil?
Não há lista oficial de modelos destinados à possível fábrica, nem informação sobre se a prioridade seriam híbridos, elétricos ou modelos a combustão. A definição deve depender de investimento, capacidade produtiva, demanda do mercado e estratégia da matriz.
A Kia vai assumir sua operação no Brasil?
Além da questão industrial, as negociações podem mudar a representação comercial da marca. Há mais de três décadas, a operação brasileira é conduzida pelo Grupo Gandini, responsável pela importação e distribuição dos veículos Kia no País.
Em entrevista ao Jornal do Carro, em julho, o empresário José Luiz Gandini confirmou que representantes da matriz sul-coreana tinham vindo ao Brasil tratar da pendência. Na ocasião, afirmou que continuava à frente da distribuição da Kia e que ainda não havia decisão definitiva sobre a fábrica.
Uma eventual operação própria poderia encerrar a atual estrutura de representação, mas a montadora não confirmou essa mudança. Também não se sabe quais seriam os efeitos sobre a rede de concessionárias e os contratos comerciais existentes.
O que acontece se não houver acordo?
Se Kia e governo não chegarem a um entendimento, a disputa volta à pauta em 3 de dezembro. Isso não descarta automaticamente a fábrica, mas a pendência tributária é apontada como um dos principais obstáculos para que a montadora avance com investimentos industriais no País. Também não há confirmação de que a Kia manteria os planos caso o governo rejeite a proposta.
O que ainda falta saber?
Seguem sem resposta questões fundamentais: o valor efetivamente negociado, as garantias industriais que a Kia pode oferecer, quanto pretende investir, quais veículos produziria e como ficaria a atual rede de distribuição. Por enquanto, a única certeza é que a Kia tem uma nova chance de resolver uma dívida ligada a uma fábrica que prometeu construir nos anos 1990. Se o projeto vai sair do papel, ainda depende de respostas da montadora e do governo.
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