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Inteligência artificial versus inteligência ancestral: o que acontece quando conhecimento vira dado?

Para os indígenas, o conhecimento não está separado da ciência, espiritualidade, natureza ou experiência individual. Ele é transmitido pela oralidade, pelos rituais e pelas relações com o território

22 out 2026 - 07h17
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Resumo
O artigo debate o contraste entre inteligência artificial e inteligência ancestral, alertando para os riscos de reduzir saberes indígenas a meros dados e mercadorias. Enquanto sistemas tecnológicos processam grandes volumes de informação, o conhecimento tradicional é indissociável de suas relações sociais, espirituais e territoriais. Defende-se, assim, a soberania digital desses povos, ressaltando que o saber não reside no dado isolado, mas nos vínculos coletivos que sustentam a vida.

Em 2023, estive com o fotógrafo Nicoló Lanfranchi na comunidade Apiwtxa, do povo Ashaninka, às margens do rio Amônia, no Acre, para realizar o projeto The Forest Knows, publicado pelo jornal The Guardian. Fomos documentar uma experiência de regeneração da floresta em um território que havia sido transformado em pastagem e depois reflorestado pelos próprios Ashaninka.

Ali comecei a perceber que aquilo que costumamos chamar de "conhecimento" talvez seja apenas uma pequena parte de algo muito maior. O que durante muito tempo foi classificado pela linguagem ocidental como conhecimento "primitivo" ou "tradicional" passou, em outro momento, a ser reconhecido como fonte de soluções para a crise climática, a biodiversidade e a economia da floresta.

Mas existe uma pergunta anterior: quem define o que é conhecimento? E outra, talvez ainda mais difícil: o que acontece quando um conhecimento precisa ser transformado em informação para ser reconhecido?

Essa questão voltou a mim em setembro de 2026, depois do Fórum Mundial da Ayahuasca, em Girona, na Espanha. Em uma conversa com Francisco Piyãko, liderança Ashaninka, falamos sobre as diferentes plantas e medicinas utilizadas por povos de diferentes regiões e sobre os significados que elas carregam.

Francisco chamou atenção para uma questão que vai muito além da ayahuasca. Cada povo possui suas próprias relações, conhecimentos e formas de compreender as plantas, os territórios e aquilo que considera sagrado. O problema começa quando essas relações são retiradas de seus contextos e transformadas simplesmente em produtos.

Ao falar especificamente da ayahuasca, Francisco foi direto: "Ela não pode entrar nesse mercado de que ela tem um preço." Para ele, a planta é viva, possui significado, espiritualidade e conhecimento. E está ameaçada não apenas pela transformação em mercadoria, mas também pelas mudanças climáticas e pela destruição dos territórios onde essas espécies vivem.

Essa fala recoloca uma questão que atravessa toda a história da Amazônia. Durante séculos, diferentes ondas econômicas chegaram à floresta procurando aquilo que tinha valor para o mercado: borracha, madeira, ouro, minérios, terras. Hoje aparecem novas formas de valorização: carbono, biodiversidade, informações genéticas e conhecimentos associados à floresta.

A linguagem mudou. A pergunta é se a relação de poder também mudou. Uma planta pode ser alimento, remédio, conhecimento, memória, espiritualidade e parte de um território. Uma floresta pode produzir madeira, carbono ou créditos de biodiversidade, mas também pode ser território, casa, história e futuro.

Um conhecimento pode ser registrado como dado. Mas isso não significa que o dado contenha todo o conhecimento.

Informação ou conhecimento?

É nesse ponto que a discussão sobre inteligência artificial começa a encontrar outra questão, menos tecnológica e mais profunda. Estamos construindo sistemas capazes de processar quantidades extraordinárias de informação. Mas será que estamos confundindo informação com conhecimento? E será que estamos chamando de inteligência apenas aquilo que conseguimos transformar em informação?

Talvez seja útil pensar, provisoriamente, em uma expressão como "inteligência ancestral". Não como uma categoria científica estabelecida, nem como uma tentativa de colocar todos os povos indígenas dentro de uma mesma definição. A expressão serve aqui apenas como provocação: existem formas de inteligência construídas ao longo de gerações, incorporadas a relações entre pessoas, plantas, animais, territórios, sonhos, memória e práticas coletivas, que não cabem facilmente nos formatos pelos quais a tecnologia contemporânea organiza dados.

O sonho é um desses lugares. O neurocientista Sidarta Ribeiro tem estudado o sono, a memória e os sonhos e chama atenção para uma dimensão que a sociedade contemporânea parece ter deixado de lado. Ele observa que muitos povos indígenas trabalham com os sonhos como fonte de conhecimento e que, em diversas sociedades tradicionais, o sonho não é simplesmente uma experiência privada que termina quando a pessoa acorda.

A ciência contemporânea investiga o sonho por meio da fisiologia, da memória e da atividade cerebral. Sidarta descreve o sonho também como uma espécie de simulação de futuros possíveis, construída a partir das experiências acumuladas.

Isso não significa que a neurociência esteja "descobrindo" aquilo que os povos indígenas já sabiam. Essa seria justamente a armadilha de colocar conhecimentos diferentes dentro de uma única régua. A questão é outra.

Em muitas tradições indígenas, o conhecimento não está necessariamente separado entre aquilo que chamamos de ciência, espiritualidade, natureza, sociedade e experiência individual. Ele é transmitido pela oralidade, pela observação, pela prática, pelos rituais, pelas relações com o território e, em alguns contextos, também pelos sonhos.

Ao longo de gerações, a experiência não foi apenas acumulada. Foi vivida, compartilhada, lembrada e transformada em prática. Talvez seja por isso que a oralidade seja tão importante para compreender o que chamamos aqui, provisoriamente, de inteligência ancestral.

Ela não funciona como um banco de dados no qual alguém simplesmente armazena informações. O conhecimento continua existindo porque existe uma relação social capaz de transmiti-lo. Isso cria um problema interessante para a inteligência artificial.

Uma IA pode registrar uma palavra, uma história, uma imagem, uma língua, uma receita, um canto ou uma descrição de uma planta. Pode relacionar milhões de informações e encontrar padrões que nenhum indivíduo conseguiria perceber sozinho.

Mas o que acontece quando o significado daquela informação depende da relação que a produziu? O que acontece quando uma palavra não pode ser separada de quem tem autoridade para dizê-la? Quando uma imagem possui uma dimensão coletiva?

Quando o conhecimento sobre uma planta não está apenas na descrição de suas propriedades, mas na relação entre a planta, o território, as pessoas e as responsabilidades envolvidas em seu uso?

Essa discussão já aparece entre pensadores indígenas contemporâneos que trabalham com comunicação e tecnologia. Anápuàka Tupinambá, por exemplo, tem defendido a soberania digital indígena, protocolos comunitários e o direito dos povos de decidir como suas imagens, línguas, conhecimentos, memórias e dados podem ser utilizados por sistemas tecnológicos.

A questão deixa de ser apenas "como levar tecnologia aos povos indígenas". Passa a ser: quem controla a tecnologia que vai representar, interpretar e utilizar os conhecimentos indígenas? Talvez essa seja uma das grandes perguntas do nosso tempo.

Não se trata de escolher entre inteligência artificial e inteligência ancestral. Nem de transformar conhecimentos indígenas em uma espécie de tecnologia alternativa. Trata-se de reconhecer que existem diferentes maneiras de produzir, transmitir e validar conhecimento.

E talvez a inteligência artificial tenha diante de si um desafio que não é apenas tecnológico: aprender a lidar com conhecimentos que não foram produzidos para serem separados das relações que lhes dão sentido.

Talvez o futuro da inteligência não esteja apenas em máquinas capazes de processar cada vez mais informações, mas na capacidade de reconhecer aquilo que nenhuma informação, sozinha, consegue conter, o conhecimento que existe nas relações que sustentam a vida.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Davilson Brasileiro não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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