Script = https://s1.trrsf.com/update-1781903735/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Impacto das mudanças climáticas pode equivaler a 3,3 milhões de anos de transformações nas vegetações tropicais

Transformações que levaram milhões de anos podem se repetir em décadas, e essa mudança comprimida no tempo pode se tornar destrutiva, com consequências perigosas para o planeta

17 jul 2026 - 07h50
Compartilhar
Exibir comentários

Os trópicos cobrem menos de um terço da superfície terrestre, mas abrigam mais da metade das espécies conhecidas. Florestas, savanas, campos, desertos: uma variedade enorme de ambientes se distribui ao longo da faixa equatorial. Essa diversidade, no entanto, não é estática. Ela é resultado de milhões de anos de mudanças climáticas que redesenharam a paisagem tropical repetidas vezes.

Nossa equipe do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) reconstruiu a distribuição da vegetação tropical dos últimos 3,3 milhões de anos e projetou como ela pode mudar até 2050 pelas mudanças climáticas. O estudo foi publicado no Journal of Biogeography.

A pesquisa combinou dados de satélite, registros paleoclimáticos e algoritmos de aprendizado de máquina para mapear como florestas, savanas e desertos se redistribuíram nos trópicos ao longo de onze períodos temporais, do fim do Plioceno ao presente. E mostrou que as mudanças climáticas atuais podem causar, em poucas décadas, impactos semelhantes a 3 milhões de anos de história na vegetação tropical.

Uma paisagem que se alterou lentamente

Os resultados mostram transformações profundas. Há 3,2 milhões de anos, quando o planeta estava quase quatro graus mais quente que hoje, as florestas tropicais atingiram sua menor extensão em todo o período analisado. A Amazônia ocupava menos da metade da área que conhecemos. A Mata Atlântica estava reduzida a menos de cinco por cento da sua extensão potencial. Savanas dominavam paisagens que hoje são cobertas por florestas densas.

Na África — o continente tropical que mais mudou ao longo do período estudado —, as florestas foram sempre escassas e as savanas dominaram quase por completo. O Saara, que hoje é o maior deserto quente do mundo, nem sempre foi assim. No Plioceno, abrigava mosaicos de arbustos e vegetação esparsa.

Com os ciclos de glaciação dos últimos dois milhões de anos, as florestas oscilaram. Avançaram nos períodos mais quentes, recuaram nos mais frios. Há 21 mil anos, no auge da última era de gelo, a Amazônia perdeu quase um terço da sua área, mas manteve um núcleo contínuo. Nunca se fragmentou completamente. A Mata Atlântica, por outro lado, se partiu em dois blocos separados por centenas de quilômetros de vegetação aberta.

No sudeste asiático, aconteceu algo diferente. Quase um terço do Arquipélago Malaio manteve suas florestas intactas por mais de três milhões de anos, tornando a região a área tropical mais estável do planeta.

Cerca de 22% dos trópicos permaneceram climática e vegetacionalmente estáveis ao longo de todo o período analisado. Essas áreas funcionaram como refúgios, acumulando biodiversidade ao longo de milhões de anos. Muitas espécies que vivem nesses refúgios não existem em nenhum outro lugar.

Essas transformações foram lentas, medidas em centenas de milhares de anos. Tempo suficiente para as espécies migrarem, se adaptarem ou, em alguns casos, evoluírem. Mesmo assim, essas mudanças tiveram consequências. A megafauna sul-americana — como preguiças gigantes, tatus do tamanho de carros e mastodontes — não sobreviveu a essas mudanças, juntamente com outros fatores, como a chegada do homem. Mudanças climáticas naturais, por mais lentas que sejam, têm custo.

Mudanças abruptas

As projeções para 2050, no cenário de emissões mais elevadas, indicam que a temperatura nos trópicos pode subir entre dois e quatro graus. Na Amazônia, o aumento pode chegar a quatro graus. A combinação de calor e seca pode transformar florestas densas em vegetação aberta. A Amazônia pode perder mais de um terço das suas florestas.

O Arquipélago Malaio (Indonésia, Malásia, Filipinas, Brunei, Timor-Leste e Papua-Nova Guiné), estável por 3,3 milhões de anos, pode ver suas florestas reduzidas em mais de 40%. A magnitude dessas mudanças é comparável ao que aconteceu ao longo de milhões de anos. A diferença é o tempo.

Quando o ar se desloca suavemente ao longo de minutos, sentimos uma brisa. Quando a mesma massa de ar percorre a mesma distância em uma fração de segundo, temos uma explosão. A mudança comprimida no tempo se torna destrutiva. O que está acontecendo com o clima dos trópicos se parece com isso.

Transformações que levaram milhões de anos podem se repetir em décadas. Mudanças lentas causaram extinções. Se comprimirmos mudanças de magnitude semelhante em poucas décadas, as consequências podem ser incomparavelmente maiores.

As espécies que evoluíram em áreas estáveis, moldadas por milhões de anos de constância, podem ser as primeiras a sofrer. Nunca precisaram lidar com mudanças rápidas. A estabilidade que as protegeu pode se tornar a sua vulnerabilidade.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Ubirajara Oliveira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra