Explosão do turismo no México impulsiona tráfico de pessoas
Mais de 20 milhões de visitaram o país de janeiro a maio deste ano — um recorde. Mas a alta tem seu lado ruim, e quem paga o preço são principalmente mulheres e meninas.Mixi Cruz tinha 13 anos quando perdeu a mãe. Primeiro, viveu nas ruas. Depois, procurou a meia-irmã mais velha em busca de ajuda. Acabou obrigada a cuidar das tarefas domésticas e vítima de exploração sexual.
"A parte mais difícil foi aceitar que nada disso aconteceu porque eu era ingênua ou burra", conta ela, hoje com 33 anos, à DW. "Isso aconteceu comigo porque existem pessoas más que vendem outras pessoas. E existem pessoas más que compram outras pessoas."
No México, o tráfico de pessoas tornou-se uma das atividades mais lucrativas do crime organizado. Segundo o Global Organized Crime Index 2025, da organização suíça Global Initiative, dedicada ao combate ao crime organizado transnacional, grupos criminosos estão cada vez mais envolvidos nessa prática. Entre eles estão o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) e o Cartel de Sinaloa.
Em apenas um ano, o número de casos relatados às autoridades aumentou 45%. Mas especialistas apontam que apenas uma fração dos casos é denunciada, e menos ainda são solucionados.
A organização da sociedade civil Consejo Ciudadano para la Seguridad y Justicia (Conselho Cidadão para a Segurança e Justiça) estima que sete em cada dez sobreviventes do tráfico de pessoas no México são mulheres. Mais da metade delas é menor de idade.
No Dia Mundial de Combate ao Tráfico de Pessoas, em 30 de julho, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) pediu uma cooperação mais estreita entre os sistemas judiciais e as forças policiais de diferentes países.
Traficantes exploram vulnerabilidades
Mixi Cruz foi explorada pela própria família, obrigada a cuidar de cinco crianças e a passar roupas até altas horas da noite. A exaustão era tamanha que ela adormecia e se queimava. As cicatrizes daquela época ainda estão em suas mãos.
Pouco tempo depois, quando ainda tinha 14 anos, a jovem foi pressionada a se prostituir em troca de dinheiro.
Muitas sobreviventes não percebem, naquele momento, que estão sendo vítimas de violência sexual, afirma. "Muitas se apaixonam, ou são vendidas pela própria família", explica Cruz. "Desde pequenas, são levadas a acreditar que a violência é normal e faz parte do amor."
Número real de vítimas é muito maior, dizem especialistas
"O tráfico de pessoas é um jogo de muita manipulação emocional para isolar as vítimas e impedir que construam redes de apoio", explica Gabriela Gonzalez Garcia, diretora da ONG Conselho Cidadão.
A entidade administra a única linha direta especializada disponível 24 horas por dia no México, além de um serviço de chat ao vivo para pessoas afetadas pelo tráfico humano. Desde sua fundação, em 2007, registrou cerca de 26 mil casos. Mas, segundo Gonzalez, o número real é muito maior. Ela acredita que 98% dos casos não são reportados.
Ana Torres (nome fictício) e três voluntários estão em uma zona de prostituição na periferia da Cidade do México. Ela coordena há cinco anos um projeto de rua da organização El Pozo de Vida ("O Poço da Vida"), que combate o tráfico de pessoas e a exploração sexual. Toda semana, Torres e seus colegas visitam uma área diferente da capital mexicana, conversam com as mulheres que trabalham ali e oferecem ajuda.
Antes da Copa do Mundo deste ano, realizada no México, Canadá e Estados Unidos, muitas trabalhadoras do sexo esperavam ganhar mais dinheiro. Mas, segundo Torres, a procura permaneceu praticamente inalterada. O que aumentou significativamente foi o número de turistas estrangeiros e, com isso, surgiu outro fator de risco para as mulheres nas ruas: a barreira linguística.
"Talvez elas façam um acordo com os clientes na rua", explica Torres. "Mas o que realmente acontece quando entram em um quarto?"
Conscientização sobre o tráfico de pessoas
O UNODC e seus parceiros mexicanos, como o Conselho Cidadão, fizeram campanha para conscientizar o setor turístico sobre o aumento do risco de tráfico de pessoas durante o torneio. A iniciativa teve adesão de uma popular plataforma de transporte por aplicativo, enquanto uma empresa de hospedagem por temporada trabalhou em conjunto com o UNODC para capacitar anfitriões.
Mas Cruz afirma estar cética de que isso tenha sido suficiente para reduzir o tráfico e a exploração.
"Os homens não pagam por sexo porque viajaram para cá apenas para isso", diz. "Eles fazem isso porque surge uma oportunidade. Em qualquer área turística, as pessoas sabem informar onde encontrar prostituição, onde encontrar mulheres ou crianças."
"Elas ficam trancadas e vigiadas"
Começa a chover na zona de prostituição. Muitas profissionais se abrigam nas casas próximas. Em uma esquina está uma jovem de cabelo escuro na altura dos ombros. Ela usa salto alto preto, vestido verde curto e jaqueta jeans cinza, e se protege com um guarda-chuva. Ana Torres se aproxima dela.
A jovem diz estar preocupada com uma colega colombiana que atualmente está escondida em algum lugar da cidade. Ela relata a existência de uma família de cafetões que tem como alvo mulheres colombianas, atraindo-as para o México com falsas promessas.
Segundo ela, a esposa do cafetão controla rigidamente a operação. "Ela as obriga a trabalhar de 12 a 15 horas por dia. Nem sequer podem comer sozinhas. Ficam em casa, trancadas e vigiadas."
Ana Torres pede que a jovem repasse o telefone da organização à colombiana que conseguiu fugir. Lágrimas escorrem pelo rosto da mulher enquanto Ana elogia sua coragem por falar em defesa de outras pessoas.
No caminho de volta, Ana diz ter a impressão de que os cafetões e seus supervisores estavam observando as mulheres com mais atenção naquela noite do que normalmente. Ela não tem certeza do motivo, mas isso a preocupa.
Mixi Cruz tinha 16 anos quando finalmente conseguiu escapar. Hoje, ela faz parte de uma rede de sobreviventes que visita escolas e universidades para conscientizar sobre o tráfico de pessoas.
Sua meia-irmã acabou condenada a quatro anos de prisão, enquanto o marido dela recebeu uma pena de cinco anos — não por tráfico de pessoas, mas por outros crimes graves. Mas mesmo esses casos costumam ser uma exceção.
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