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Especialistas veem ideia de Trump para rebatizar a IA como golpe de marketing

1 out 2026 - 10h51
(atualizado às 10h56)
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Resumo
Donald Trump determinou o uso do termo "superinteligência" para substituir "inteligência artificial" em documentos federais dos EUA, gerando fortes críticas de especialistas. A comunidade acadêmica considera a mudança enganosa e teme que a nova nomenclatura amplie o medo do público sobre a obsolescência humana, já que a tecnologia atual não superou a mente humana de forma ampla. Por outro lado, analistas veem a medida como um golpe de marketing benéfico para valorizar empresas do setor.

Presidente dos EUA decidiu chamar tecnologia de "superinteligência". Especialistas criticam a medida. Mas expressão pode agradar firmas americanas de IA interessadas em ressaltar o poder de seus modelos.Donald Trump e sua mania de mudar nomes já renderam alguns episódios. Primeiro, o Golfo do México virou Golfo da América - ao menos nos documentos federais dos Estados Unidos. Depois, ele determinou que o Lago Ontário se chamasse Lago América. Agora, ele quer rebatizar a tecnologia que define a nossa era: a inteligência artificial (IA).

No início deste mês, o mandatário afirmou em sua plataforma Truth Social que o termo inteligência artificial é "impreciso" e "pouco elegante". Segundo ele, "inteligência superior", "inteligência extrema" ou "inteligência suprema" seriam alternativas melhores.

Em uma enquete realizada nas redes sociais durante três dias, apoiadores de Trump escolheram "super intelligence" (superinteligência), por cerca de 65% a 35% contra "Superior Intelligence" (inteligência superior). Isso permitiu que ele anunciasse, na Assembleia Geral das Nações Unidas da semana passada, que documentos federais americanos passarão a usar a nova expressão.

"IA não é superinteligência"

A indústria de tecnologia, porém, ainda não adotou o termo. Acadêmicos alertam que "superinteligência" é um conceito associado a um cenário futuro, em que a tecnologia superaria os seres humanos em praticamente todas as áreas. Segundo eles, os modelos atuais de IA ainda estão a anos de distância desse marco.

"A maior parte da IA não é superinteligência. É apenas um tipo diferente de inteligência", disse à DW Pedro Domingos, professor de ciência da computação da Universidade de Washington. "A IA realiza tarefas diferentes das feitas por humanos, então chamá-la de superinteligência é enganoso."

Cientistas da computação e matemáticos cunharam o termo "inteligência artificial" em 1956, durante um workshop de verão no Dartmouth College, em New Hampshire. "Artificial" significava simplesmente criada por seres humanos, em oposição à inteligência humana natural.

Nem todos os especialistas concordavam com a denominação. No livro Machines Who Think (Máquinas que pensam, em tradução livre), a historiadora Pamela McCorduck cita o pioneiro da IA Arthur Samuel, que dizia que a expressão "faz você pensar que há algo meio falso nisso".

Mudança de nome não reduz temores

Apesar das críticas, o nome inteligência artificial permaneceu por sete décadas. Críticos afirmam que mudá-lo agora não diminuirá os receios relacionados à tecnologia, como perda de empregos, obsolescência humana ou máquinas escapando ao controle das pessoas. Muito pelo contrário.

"A mudança de nome está justamente alimentando esses medos: 'Ah, isso é superinteligência e vai tornar os humanos obsoletos, se voltar contra nós e tomar nossos empregos'", afirmou Domingos. "Se você quer maximizar a reação negativa contra a IA, rebatize-a de Inteligência Superior."

Esses receios vêm crescendo rapidamente. Em uma pesquisa da consultoria Public First para o site Politico realizada neste mês, cerca de metade dos entrevistados em seis países (Estados Unidos, Canadá, França, Espanha, Alemanha e Reino Unido) apoiou uma pausa no desenvolvimento da IA para reduzir o risco de que a nova tecnologia possa destruir a humanidade.

Uma pesquisa da emissora CNN realizada pela empresa SSRS constatou que quase nove em cada dez americanos estão mais preocupados do que entusiasmados com a possibilidade de a IA superar a inteligência humana.

As preocupações já chegaram ao Congresso dos EUA. Na semana passada, o senador independente Bernie Sanders, do estado de Vermont, apresentou um projeto de lei para "proibir permanentemente o desenvolvimento de superinteligência artificial" que não possa ser controlada por humanos.

A proposta também prevê uma suspensão do desenvolvimento de sistemas avançados de IA até que mecanismos federais de testes e supervisão sejam implementados.

Jogada de marketing para impulsionar o setor?

A nova expressão proposta por Trump pode, no entanto, agradar as principais empresas americanas de IA, interessadas em destacar as capacidades de seus modelos mais avançados. Esses sistemas já superam humanos em diversas tarefas especializadas e, até recentemente, estavam muito à frente dos concorrentes chineses.

Ainda assim, tanto a Anthropic, responsável pelo modelo Claude, quanto a OpenAI, criadora do ChatGPT, adiaram planos de abrir capital na bolsa de valores. Parte dos analistas atribuiu os atrasos a episódios recentes em que modelos de IA invadiram sistemas de computadores ou executaram tarefas para as quais não haviam sido projetados.

Com os modelos chineses reduzindo rapidamente a diferença de qualidade usando muito menos poder computacional, laboratórios americanos podem se beneficiar de uma estratégia de comunicação que reforce a percepção de liderança na corrida da IA. Segundo pesquisa do Goldman Sachs, os gastos globais com inteligência artificial devem superar 1 trilhão de dólares (R$ 5,17 trilhões).

"Os laboratórios [americanos] têm todo o interesse em chamá-la de super, hiper, superior ou algo parecido, porque isso exalta suas capacidades. É basicamente marketing", afirmou Domingos, autor do livro The Master Algorithm (O Algoritmo Mestre, em tradução livre), publicado em 2015.

Novo termo vai pegar?

Embora os modelos atuais de IA continuem evoluindo e já consigam realizar muitas tarefas de forma autônoma, o próximo estágio discutido por vários laboratórios envolve sistemas capazes de se aperfeiçoar sozinhos. Esse conceito é conhecido como autoaperfeiçoamento recursivo, ou RSI, na sigla em inglês.

Nessa trajetória, Elon Musk prevê que o aprendizado da IA poderá ser automatizado, com intervenção humana limitada, até o fim deste ano ou em 2027. A OpenAI acredita que isso pode levar cerca de um ano. Mesmo assim, os sistemas ainda não seriam totalmente recursivos.

O cientista da computação alemão Jürgen Schmidhuber, radicado na Suíça, argumentou em uma publicação de blog neste mês que "o RSI completo exigirá não apenas softwares de IA capazes de se aperfeiçoar sozinhos, mas também hardware autocorretivo e autoaperfeiçoável no mundo físico".

Em outras palavras, para atingir a superinteligência ou o RSI pleno, as empresas de tecnologia precisariam produzir chips, robôs humanoides e até substituir fábricas inteiras sem intervenção humana.

Embora a IA já esteja acelerando o desenvolvimento de chips, ela ainda não é capaz de operar sozinha uma fábrica de semicondutores. Máquinas capazes de se aperfeiçoarem sem qualquer participação humana provavelmente ainda estão a décadas de distância.

Além da ciência do aprendizado de máquina, a política deve ter papel importante para determinar se o termo "super intelligence" realmente pegará. Embora Trump tenha afirmado que o presidente chinês, Xi Jinping, gostou da nova denominação, a China não deu sinais de que pretende abandonar a expressão IA.

Em uma cúpula de tecnologia realizada na terça-feira passada com líderes do setor, Trump assinou uma ordem executiva instruindo órgãos e agências do governo americano a adotarem a sigla SI. Embora alguns executivos das gigantes de tecnologia já tenham aderido à mudança, especialistas acreditam que a nova nomenclatura dificilmente se tornará dominante.

"Conhecendo a orientação política da maioria das pessoas que trabalham na área de IA, a reação mais provável é exatamente a oposta: 'Que se dane. Agora sim, é que vamos chamar isso de inteligência artificial'", disse Domingos.

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