MG vive disputa acirrada pelo 2º lugar por vaga no 2º turno contra o líder Cleitinho a duas semanas da votação
Especialistas da UFMG apontam fragmentação do eleitorado e espaço para mudanças na reta final
A eleição para o governo de Minas Gerais chega a duas semanas do primeiro turno com um cenário incerto, como se mostrou desde o início. E o principal fator para isso é o líder nas pesquisas, Cleitinho Azevedo (Republicanos), que, até o último instante de registro de candidatura viveu idas e vindas para confirmar participação na disputa. A entrada tardia, mexeu com as outras peças do tabuleiro eleitoral, o que tem motivado a indefinição de quem deve ir ao segundo turno com Cleitinho.
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Na última pesquisa Datafolha, de 11 de setembro, Cleitinho aparece com 37% das intenções de voto, e em segundo lugar, aparecem tecnicamente empatados Patrus Ananias (PT), com 13% e Alexandre Kalil (PDT), com 11%. Patrus, inclusive, também foi um candidato que apareceu de última hora, por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para ter um palanque mineiro e ajudá-lo na disputa pela reeleição.
Na sequência aparecem, o atual governador, Mateus Simões (PSD), com 4%, Flávio Roscoe (PL), com 4%, Gabriel (MDB), com 4%, Professor Túlio Lopes (PCB), com 3%, e com 1%, cada um, Rafael Duda (PSTU), Ben Mendes (Missão) e Henrique Áreas (PCO). Indira Xavier (UP) foi citada, mas não alcançou 1%. Brancos ou nulos são 11% e indecisos, 10%.
Para os cientistas políticos Lucas Gelape e Helcimara Telles, professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a liderança de Cleitinho é consistente, mas não significa que a eleição esteja decidida. Ao mesmo tempo em que o senador conseguiu preservar seu desempenho com o início da campanha oficial, nenhum dos adversários conseguiu ainda se consolidar como principal nome para enfrentá-lo.
“O indicativo é que o Cleitinho não vai derreter”, avalia Gelape. Segundo ele, o senador já tinha uma vantagem construída antes do início da campanha e possui um alto grau de reconhecimento entre os eleitores.
A expectativa sobre Cleitinho antes do início da campanha era justamente saber se ele conseguiria transformar a força acumulada como senador e nas redes sociais em uma candidatura competitiva ao governo. Até o momento, isso aconteceu. “Ele é um candidato forte, pois é um senador muito conhecido, ele tem um reconhecimento de nome, um recall muito forte”, afirma Gelape.
O professor chama atenção, porém, para uma mudança de comportamento do candidato durante a campanha. Segundo ele, Cleitinho tem adotado nos debates e em aparições na televisão uma postura diferente daquela mais estridente das redes sociais.
“Ele está participando dos debates numa postura um pouco diferente do que ele tem em rede social, uma postura mais sóbria, mais dialógica, enquanto na rede social ele é um pouco mais estridente, que é o estilo dele”, diz.
Essa capacidade de dialogar com diferentes segmentos é apontada pelo especialista como uma das principais vantagens do senador em um eventual segundo turno. “Ele está conseguindo transitar bem no eleitorado, por isso ele é o favorito”, afirma Gelape.
As pesquisas reforçam esse cenário. Cleitinho aparece à frente de Patrus Ananias (PT), Alexandre Kalil (PDT) e Mateus Simões (PSD) em todos os cenários de segundo turno testados nas pesquisas Real Time Big Data, Quaest e Datafolha divulgadas nas últimas semanas.
Disputa pelo segundo turno
Se a liderança de Cleitinho apresenta maior estabilidade, a disputa pela segunda vaga é bem diferente. Patrus e Kalil aparecem próximos nos dois levantamentos, enquanto Mateus Simões também permanece no grupo que pode avançar. Gabriel Azevedo (MDB) e Flávio Roscoe (PL) aparecem mais atrás, mas ainda fazem parte de uma disputa que, segundo Gelape, tende a produzir maior definição nas próximas semanas.
“Eu acho que a gente tem dois pelotões de candidatos que estão bem próximos”, afirma. Para ele, a tendência é que os eleitores comecem a se concentrar à medida que a campanha avance. Nesse cenário, Patrus aparece, na avaliação do professor, com uma vantagem estrutural por ser o único candidato claramente identificado com a esquerda. Kalil ocupa uma posição mais ao centro, enquanto Simões e Roscoe disputam o campo da direita.
“Se a gente dividir esquerda, centro e direita, a gente tem um único candidato de esquerda, que é o Patrus, dois candidatos de centro, que são o Kalil e o Gabriel, e dois candidatos de direita, Mateus Simões e Flávio Rosco”, explica.
Para Gelape, isso pode favorecer o petista na disputa pela segunda vaga. “O Patrus, ele vai aglutinar mais os votos do campo dele, dividir menos”, afirma. Além disso, o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ajudar a candidatura, embora o especialista ressalte que essa mesma associação pode representar um obstáculo em um eventual segundo turno.
Eleitor mineiro é difícil de enquadrar
A fragmentação atual também pode ser entendida a partir de uma característica histórica da política mineira com a dificuldade de formação de um polo político duradouro.
Gelape lembra que Minas passou por um longo período de disputa entre PSDB e PT, até a eleição de Romeu Zema (Novo), em 2018. O governador rompeu aquela configuração, mas, segundo o professor, não conseguiu construir uma nova estrutura partidária capaz de substituir a anterior.
O resultado seria um eleitorado mais disperso e uma elite política também sem um caminho claramente definido. Helcimara Telles afirma que é difícil falar em um único “eleitor mineiro”, justamente pela enorme diversidade regional do Estado.
Minas reúne regiões com características econômicas, sociais, culturais e políticas muito distintas. Norte de Minas, Vale do Jequitinhonha, Região Metropolitana de Belo Horizonte, Triângulo Mineiro e Zona da Mata, por exemplo, possuem comportamentos eleitorais diferentes. Por isso, segundo Helcimara, o comportamento agregado do eleitor mineiro parece menos marcado pela ideologia e mais pelo pragmatismo.
“Eu diria que o eleitor mineiro é ideológico, não necessariamente, eu diria que ele é pragmático”, afirma. “Me parece que o eleitor de Minas, eu não posso falar de um eleitor mineiro, porque existe essa diversidade regional muito grande, mas quando eu vou no agregado dos votos, a gente vê um certo pragmatismo".
Na avaliação da professora, uma das hipóteses é que o eleitor considere a relação entre os governos estadual e federal na hora de votar. “Ele costuma ser meio governista”, afirma. “É bom estar alinhado com o governo federal, porque ao estar alinhado com o governo federal, você recebe verbas.”
Ela também associa esse comportamento a uma característica política marcante do estado, que é a busca por conciliação. “Os mineiros em geral tendem mais a buscar conciliação do que buscar confronto".
Minas é “pêndulo”? Especialistas fazem ressalvas
A tradição de alternância política faz com que Minas seja frequentemente chamada de “estado pêndulo”. Helcimara considera que o conceito ajuda a explicar parte do comportamento histórico do Estado. Gelape, porém, faz uma ressalva importante ao termo. “Eu pessoalmente não gosto de chamar Minas de estado pêndulo”, afirma.
Segundo ele, a expressão vem do sistema eleitoral dos Estados Unidos, no qual os votos do Colégio Eleitoral de cada estado são atribuídos ao vencedor. Para o professor, a importância de Minas no Brasil é diferente. “Minas Gerais é importante porque ela é um indicativo da força eleitoral de candidatos nas eleições presidenciais”, explica.
O peso também é demográfico, já que Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país. Assim, mesmo que o Estado não antecipasse o vencedor da eleição presidencial, ainda seria estratégico para as campanhas. “Cada um ponto percentual que se melhora na sua votação em Minas Gerais significa que você vai ganhar muitos milhares de eleitores".
Helcimara, por sua vez, vê Minas como uma espécie de retrato da diversidade brasileira. “Minas não decide, ela espelha o que o Brasil é por essa diversidade”, afirma.

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