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As debandadas na terceira via

Candidatos da chamada terceira via começam a perder aliados na reta final da campanha. É do jogo

13 set 2022 - 19h40
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Candidatos da chamada terceira via começam a perder aliados na reta final da campanha
Candidatos da chamada terceira via começam a perder aliados na reta final da campanha
Foto: Keyne Andrade/Assessoria de Campanha

Um vídeo feito pelo ex-jogador Raí, que circula nos grupos de Zap, convida eleitores de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) a votar em Lula (PT) para encerrar a fatura no primeiro turno.

Ciro, cada vez mais agressivo em relação ao PT, já sente a debandada em sua legenda: líderes nacionais dizendo publicamente que respeitam Lula e candidatos divulgando santinhos com a imagem do petista. Tebet, por sua vez, enfrenta essa defecção desde que sagrou-se candidata na convenção do MDB, com adversários de peso como Renan Calheiros. Em São Paulo, quem leva a pior é Rodrigo Garcia (PSDB). Em terceiro lugar nas pesquisas, tem perdido apoiadores para Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O fracasso da terceira via já estava desenhado muito antes da eleição. Não é culpa da polarização. Polarização também é do jogo. A culpa é de quem não conseguiu ser um dos polos dessa disputa. Os candidatos da terceira via, como foram João Doria, Eduardo Leite e, agora, Simone Tebet, participaram da constituição do bolsonarismo como uma força política. Doria e Leite votaram e se abraçaram a Bolsonaro em 2018. Se elegeram com essa parceria. O mesmo para a candidata Soraya Thronicke (União Brasil).

Simone Tebet, que já era senadora em 2018, faz questão de dizer que não votou no presidente. De fato, não subiu em seu palanque. Mas foi voz ativa na derrubada de Dilma Rousseff (PT), a quem sempre esquece de citar como uma mulher que foi presidente da República. E não se pode desvincular o bolsonarismo do processo de desmoralização do governo petista e do lavajatismo.

Em 2022, depois do governo de um presidente que não é coveiro, esses candidatos se apresentaram como os anti-Bolsonaro. Não ia colar. Todas essas pessoas conviveram em maior ou menor grau com 30 anos de vida pública de Bolsonaro, aquele cara que sempre foi do sistema mas que insistia em dizer que era outsider.

Também não colou o discurso anti-Lula de Ciro Gomes. Discurso magoado não rende voto. Pelo menos, é o que mostram as pesquisas.

Resta saber de que tamanho esses candidatos sairão das eleições. Doria nem entrou, mas saiu destruído politicamente. Ciro tem conseguido a proeza de deixar descontentes eleitores históricos, sem ganhar nada no terreno bolsonarismo, a não ser elogios do general Heleno. Se confirmadas as pesquisas, Simone sairá maior do que entrou.

Costuma-se dizer que o eleitor brasileiro não aceita traições. Traição também é do jogo. O que o eleitor não tolera, de fato, é ser subestimado. Ele pode errar e, em perspectiva, amaldiçoar o voto perdido na eleição anterior. Mas os políticos não têm esse direito. São espertos demais para dizerem que foram enganados. E, se não forem assim espertos, por que seriam eleitos?

O eleitor até se deixa enganar. Principalmente quando as verdades falsificadas coincidem com suas crenças, como um viés de confirmação. Mas ele quer estar no comando. Quer decidir o que engole como verdade.

Logo, o eleitor sabe que há algo errado quando um político sai de um barco, seja nadando ou pulando em outra embarcação para se apresentar contra o antídoto de uma poção que ele mesmo ajudou a criar.

Fonte: Tatiana Farah Tatiana Farah é jornalista de política há mais de 20 anos. É repórter da Agência Brasília Alta Frequência. Foi gerente de comunicação da Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Repórter do BuzzFeed News no Brasil de 2016 a 2020.  Responsável por levar os segredos do Wikileaks para O Globo, onde trabalhou por 11 anos. Passou pela Veja, Folha de S. Paulo e outras redações, além de assessorias de imprensa. As opiniões da colunista não representam a visão do Terra. 
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