Ver vídeo acelerado de aula vira tendência entre alunos

Ansiedade, acúmulo de conteúdo e tédio fazem estudantes reproduzirem conteúdos em até metade do tempo previsto

11 out 2020
05h10
atualizado às 08h33
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A vida "desacelerada" da quarentena encontrou um caminho contrário quando se trata do ensino à distância (EAD). Nas aulas online, os vídeos gravados pelos professores têm sido consumidos em velocidade mais rápida pelos alunos. Segundo estudantes, a tendência de assistir às aulas em modo acelerado chegou para facilitar a vida, poupar tempo e deixar tudo menos monótono em meio a uma época em que o tempo parece não passar.

Kaio Ayres Neri, de 27 anos, por exemplo, usa a técnica para se manter em dia com todas as aulas - ele cursa Biomedicina e Desenvolvimento de Sistemas ao mesmo tempo e já não acompanha nenhuma tarefa das duas faculdades sem aumentar a velocidade. "É mais uma questão de foco meu mesmo, eu sinto que consigo focar mais. Às vezes a forma de falar do professor é meio lenta e fica fácil perder a atenção", afirma.

Nas aulas online, os vídeos gravados pelos professores têm sido consumidos em velocidade mais rápida pelos alunos
Nas aulas online, os vídeos gravados pelos professores têm sido consumidos em velocidade mais rápida pelos alunos
Foto: iStock

A tendência pode mesmo trazer facilidades para alguns, afirma a professora Marlene Isepi, diretora da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP. Isso porque cada aluno tem um ritmo próprio de aprendizado. "A aula é uma das etapas que contribuem para o processo de aprendizagem dos alunos. Pode ser que alguns alunos tenham mais facilidade de aprender, enquanto outros tenham de assistir essa aula mais de uma vez, mesmo na velocidade normal."

Ansiedade

Para Patrícia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta, a aceleração dos vídeos pode ser um sintoma da falta de adaptação do mundo físico para o online, com a ausência de dinamismo. A simples transposição de uma aula expositiva para as telas pode gerar cansaço e afetar o humor dos alunos, diz ela. "De uma hora pra outra tudo passou a ser mediado por uma tela e os alunos estão exauridos disso", explica Patrícia. "É algo que gera ansiedade com a quantidade de informação e pela necessidade de ficar o tempo todo ligado."

É o que ocorre com a estudante de Psicologia Carolina Canellas. Trancada em casa, ela tenta lidar com a ansiedade em meio à rotina da quarentena e dos compromissos acadêmicos. "Fico muito ansiosa pra acabar as coisas logo, então adianto as minhas aulas para acabar rápido. Comecei acelerando o vídeo em 1,25x, agora tem aula que assisto até em 2x". Acelerar "em 2x" significa reduzir o tempo pela metade, com uma aula de uma hora durando apenas 30 minutos. Já "em 1,25x", ela dura 48 minutos.

Para especialistas, ainda não dá para bater o martelo se esse consumo é certo ou errado. "Estamos vivendo uma situação inédita e não podemos usar uma régua antiga para resolver um problema novo. Existem diversas formas de ensinar e aprender e as inteligências são múltiplas", explica Francisco Tupy, professor e pesquisador em comunicação educacional.

Especialistas em neurociência também reforçam o ponto de que o método pode funcionar, mas cada caso é um caso. "Biologicamente, nosso cérebro é mais afeito à distração do que à concentração", afirma Rodrigo Martins, médico psiquiatra do Hospital das Clínicas da USP (HC-USP). "Acelerar a aula pode ser interessante para um aluno mais perspicaz, mas certamente não se aplica a todos - e pode até ser prejudicial", diz.

Paulo Vitor Farias, de 20 anos, concorda. O estudante de Engenharia Química já tentou seguir os colegas e acelerar as aulas que tinha por vídeo na faculdade, mas entendeu que não era a melhor opção. "Já tentei com várias matérias e tenho dificuldade", diz ele, que decidiu assistir tudo no tempo certo - em "1x", como dizem. "Não acho normal as pessoas terem de acelerar. À medida que a gente se acostuma a assistir mais aulas em velocidade aumentada, mais aumenta a sensação de que é possível acelerar mais e lidar com mais conteúdo. Pode ser ruim a longo prazo", afirma.

*É estagiária, sob supervisão do editor Bruno Capelas

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Estadão
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