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'Holocausto Brasileiro': o horror vivido no Hospital Colônia de Barbacena

Documentário da Netflix coleta depoimentos dos sobreviventes, discute o papel da mídia e aborda a luta antimanicomial

1 mar 2024 - 15h54
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"Trem de louco" não é apenas uma expressão mineira, mas foi também um vagão que transportava pessoas para o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. O manicômio fundado em 1903 operou por quase um século, mas foi a partir de 1930 que converteu-se em um depósito de rejeitados pela sociedade - como vítimas de violência sexual, pessoas com deficiência e LGBTQIA+. A história do Colônia, contada no livro-reportagem 'Holocausto Brasileiro', de Daniela Arbex, acaba de virar documentário da Netflix.

Foto: Arquivo Público Mineiro/Reprodução / Guia do Estudante

Estima-se que 60 mil pessoas morreram no hospital psiquiátrico nos anos em que ele esteve em atividade. A jornalista foi em busca dos sobreviventes para conhecer a história do local e, principalmente, dos que passaram por suas instalações.

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As histórias roubadas

O documentário mostra que não havia critério para as internações no Colônia. Mulheres que foram estupradas pelos patrões, pessoas com deficiência, LGBTQIA+ e negros eram deixados lá como indigentes e não tinham dignidade nem após a morte. O lugar já nasceu com um cemitério acoplado, mostrando que seu objetivo nunca foi cuidar ou curar, mas sim abandonar e matar.

Os pacientes recebiam tratamento de choque e duas pílulas: uma azul e uma rosa. Uma ex-enfermeira do Hospital Colônia conta em entrevista que sua função era para dar a pílula rosa, que fazia dormir, para os internos tidos como histéricos, e a azul para os que eram considerados quietos demais.

Além disso, o filme também mostra que as vítimas eram usadas como mão de obra escrava por funcionários do manicômio, designadas para construir casas, fazer faxina dos pavilhões e costurar. Os mortos tiveram seus corpos vendidos para dezessete universidades pelo Brasil de maneira ilegal.

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Uma história recontada por quem conseguiu sair

O documentário de Daniela Arbex, filmado em 2016, conversa com sobreviventes do Holocausto Brasileiro. Algumas dessas pessoas reencontraram suas famílias, como uma mãe violada que teve seu filho tirado de si. Pessoas ligadas às vítimas também são ouvidas e relatam que suas histórias foram "roubadas" pelo Colônia. É o caso da filha de Sueli, uma das internadas, que tenta compreender o que aconteceu com a mãe.

Era comum que mulheres chegassem grávidas ou engravidassem no manicômio e, assim que os bebês nasciam, eram retirados delas. A filha de Sueli descobriu que havia sido adotada no hospital por uma das enfermeiras da época. Outra funcionária assume que também adotou uma criança de uma das vítimas do lugar.

O papel da mídia na denúncia contra o horror

Durante o filme de Daniela Arbex, outros jornalistas aparecem falando sobre o documentário "Em Nome da Razão". O curta-metragem realizado em 1979 por Helvético Ratton escancarou os horrores em Barbacena enquanto eles ainda aconteciam. Foi o primeiro momento que a imprensa conseguiu ter acesso ao hospital e mostrar o que acontecia lá dentro. No mesmo ano, o jornal O Estado de Minas publicou a série de reportagens "Nos Porões da Loucura", de Hiram Firmino, que mais tarde viraria livro. A feitura destes primeiros registros foi responsável por impulsionar a reforma psiquiátrica.

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Daniela Arbex, autora do livro que inspirou o novo documentário da Netflix, conta que resolveu chamar o livro de "Holocausto Brasileiro - Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil" depois de ver as imagens do local, que lembram campos de concentração.

O genocídio é um crime que tem como objetivo destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, por meio de qualquer ação destrutiva intencional à integridade física ou mental dessas pessoas. O manicômio de Barbacena abrigava diferentes grupos minoritários que tinham algo comum entre si: a rejeição e o abandono por parte da sociedade.

Onde encontrar o documentário e o livro

O longa-metragem está disponível na Netflix, com classificação indicativa de 16 anos.

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Guia do Estudante
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