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O fim do Muro de Berlim

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Voltaire Schilling

De 13 de agosto de 1961 até 9 de novembro de 1989, um pouco mais do que 28 anos, a população de Berlim, viu-se constrangida a conviver com um horrendo muro cinzento que cortava a cidade em duas partes hostis. Precisou-se esperar a política da glasnost de Mikhail Gorbachov, chefe da URSS, para que finalmente a muralha fosse posta a baixo. Tal como a Queda da Bastilha ocorrida duzentos anos antes, o assalto ao muro feito pelos berlinenses encheu o mundo de esperanças.

Os primeiros passos rumo à queda

'Rompeu-se o gelo. Sobre o dia de hoje o que eu posso afirmar é que no livro da história germano-soviética não somente demos um volta na sua página, senão que começamos a escrever conjuntamente um novo capítulo que confiamos terá muitas páginas.'
Helmuth Kohl, chanceler da Republica Federal da Alemanha, após um encontro com M.Gorbachov (Moscou, 27 de outubro de 1988)

A agitação tomara conta da cidade inteira. De um lado e do outro do muro aguardava-se algo de espetacular para qualquer momento. Os três milhões de habitantes de Berlim estavam tensos, nervosíssimos, tanto quando quarenta anos antes Stalin mandara isolar a ex-capital alemã, em 1949.

Os jornalistas correram para a anunciada audiência que o porta-voz do governo da RDA, a Alemanha comunista, dispunha-se a dar para esclarecer a posição do regime sobre os últimos acontecimentos. No verão daquele ano de 1989, entre junho e agosto, interpretando ao seu modo a Glasnost, a política de abertura desencadeada pelo chefe de estado da URSS, Mikhail Gorbachev - que acenava com a autodeterminação dos países do bloco soviético - o comitê central do Partido Comunista da Hungria decidira abrir a fronteira com a Áustria, fechada desde 1956.

Ao saberem da noticia, milhares de alemães orientais viram naquela oportunidade um meio de fugir em massa. Ao mesmo tempo, outros que estavam em férias em Praga e em Varsóvia simplesmente invadiram as embaixadas da Alemanha Ocidental para conseguir algum tipo de licença que os permitisse emigrar para o lado oeste. A rapidez com que tudo se processou foi estonteante. Quem poderia supor que as festividades realizadas a bem pouco em Berlim, em 7 de outubro, pelo regime comunista ¿ forças armadas e militantes desfilando junto pela Unter den Linden, celebrando os 40 anos da fundação da RDA - se transformaria numa cerimônia fúnebre e no réquiem do marxismo-leninismo?

Negociações

O chanceler Helmuth Kohl, da República Federal, tratou de negociar em dois planos: em primeiro, acordara com M.Gorbachev que o destino futuro da Alemanha seria acertado dali em diante pelos próprios alemães, com a segurança de que os tanques soviéticos não interviriam (como ocorrera em Berlim, em 1953), e, em segundo, obteve o consentimento do governo comunista para que os alemães orientais que estivessem refugiados nas embaixadas de Praga e Varsóvia pudessem viajar num 'comboio da liberdade' de volta ao território da RDA sem serem molestados pelos vopos (a guarda miliciana). (*)

(*) O diálogo entre as duas partes da Alemanha havia sido impulsionado vinte anos antes pela chamada Deutschespolitik (Política alemã),ou ' aproximação para a mudança', ensejada pelo chanceler Willi Brandt, líder da Social-Democracia, vencedor das eleições de 1969, que decidiu estabelecer um contato efetivo com os do leste, pondo fim ao estranhamento e desconfiança que até então caracterizara as relações dos ocidentais com seus vizinhos. Em 1970 ele promoveu os primeiros encontros com Willi Stoph chanceler da RDA, nas cidades de Erfurt e Kassel.

'Nós somos o povo'
Deu-se então um épico na história nacional germânica do após-guerra. Enquanto os trens cortavam o país, milhares de concidadãos afluíram para as estações para saudar, eufóricos, os que tiveram a coragem de se expor. Um mês antes de o muro cair, no dia 9 de outubro, os oposicionistas da cidade de Leipzig concentraram-se na Nikolaikirche, a velha igreja da cidade que servira de abrigo para as crescentes reuniões políticas. Eles, que não ultrapassavam oito mil ativistas na saída do templo, foram engrossados por mais de 80 mil pessoas.

Ruidosos, portanto velas acesas naquele cair da noite, gritavam Wir sind das Volk!, 'Nós somos o povo!', o que parece que intimidou o enorme aparato repressivo que havia sido convocado para contê-los e que nada fez. Evento de massas que não tardou em se repetir em Dresden, Halle, Karl-Marx-Stadt, Magdeburg, Plauen, Rostock e Schwerin.

Então começou o fim
Então se chegou por fim ao dia 9 de novembro. De todos os lados ouviam-se clamores. Para que se abrissem as cancelas que desde 1961 separavam as duas partes da cidade. Remexendo os papeis que estavam sobre a mesa, o representante do SED (o PC da Alemanha Oriental) Günter Schabowski leu apressadamente a nota que confirmava a abertura imediata do muro. Foi um Abra-te Sézamo. A partir daquele instante, poucos berlinenses ficaram em casa.

Previdente, para evitar o pior, Heinz Schäfer que comandava o posto da Waltersdorfer Chaussee, ordenou aos seus guardas que se desarmassem para evitar incidentes, visto que uma multidão sem fim afluía para a passagem. Seu temor é que algum soldado, estranhando aquele movimento, disparasse. Do outro lado vieram os ocidentais.

Começaram a escalar o muro em meio à confraternização geral. Alguns, embriagados de alegria e de schnaps, davam-lhe golpes com picaretas, martelos ou barras de ferro. No dia seguinte, o ex-chanceler Willi Brandt (entre 1969-1974) e que fora prefeito da cidade (1958-1962) dirigiu-se a multidão que se formava a sua volta, disse-lhes:

"A divisão da Europa, a Alemanha e Berlim, foi o resultado da guerra e a divisão entre os aliados. O que pertence juntos está crescendo juntos. Como estamos experimentando agora (...), as partes da Europa estão crescendo juntas novamente ".

- declaração síntese do que estava para dar início.

De certo modo, o episódio representou a Queda da Bastilha do 'socialismo real' e do colapso das 'democracias populares', implantadas pela URSS após o final da Segunda Guerra Mundial. Enquanto o povo de Paris se alçara para por fim ao despotismo absolutista, em 1789, duzentos anos depois o povo de Berlim mobilizara-se para enterrar o despotismo coletivista.

Para eles, o pesadelo de tantos anos de viver numa cidade anormalmente separada acabara. Em pouco mais de um ano, 146 quilômetros de cimento, pedra e arame farpado vinha abaixo, tarefa concluída em 30 de novembro de 1990, pondo fim definitivo à Guerra Fria (1947-1989), permitindo que a Alemanha se encaminhasse para a reunificação nacional.

Bibliografia

Meyer, Michael - 1989 - O Ano que Mudou o Mundo - A Verdadeira História da Queda do Muro de Berlim. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Taylor, Fréderic - O Muro de Berlim, Um Mundo Dividido 1961-1989 . São Paulo-Rio de Janeiro: Editora: Record

Fonte: Especial para Terra
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