Cuba, o M-26 e Moncada

5 jan 2019
14h10
  • separator
  • 0
  • comentários

No dia 26 de julho de 1953, em protesto contra a ditadura de Fulgêncio Batista em Cuba, um grupo de patriotas comandado por Fidel Castro, líder do Movimento 26 de Julho, atacou o quartel de Moncada na cidade de Santiago de Cuba, na Província do Oriente. Apesar do fracasso, aquele ato insurgente foi o começo da revolução cubana que terminou por derrubar o regime de Batista seis anos depois, em 1959.

Fidel Castro e o M-26 ( pôster cubano)
Fidel Castro e o M-26 ( pôster cubano)
Foto: Reprodução

Na terra do bolero

“Dentro de poucas horas vocês serão vitoriosos ou derrotados, mas, independentemente do resultado, este Movimento triunfará (...) Vocês já conhecem os objetivos de nosso plano; é um plano perigoso, e aqueles que me seguirem esta noite terão que fazê-lo voluntariamente.”

Fidel Castro a seus seguidores, madrugada do dia 26 de julho de 1953 

Santiago de Cuba, na Província do Oriente,  é um lugar e tanto. Fica num canto da ilha oposto à Havana, numa baía bem em frente ao Mar das Caraíbas, distando por mar uns 250 quilômetros  da Jamaica e de São Domingo. Do seu ancoradouro é que, em 1519,  a pequena esquadra de Hernán Cortés fez as velas para ir conquistar o México, justo o mesmo local onde, quase quatro séculos depois, desembarcaram as tropas ianques durante a guerra hispano-americana de 1898, para vir a por fim ao império espanhol na América. 

No clima romântico daquelas paragens, entre as areias caribenhas e a serra da Gran Piedra, é que nasceu o bolero, levado ao mundo pela voz de Bola de Neve, um elegantíssimo cantor negro de Santiago que foi um espécie de Nat King Cole cubano. Gênero musical esse que Ernesto Lecuona imortalizou com  sua mais famosa composição “Siboney” , nome de uma bela praia próxima a Santiago. Pois foi ali,  num sitio não muito distante do mar,  a granjita de Siboney,  que no dia  26 de julho de 1953, Fidel Castro, então um jovem advogado, cabeça do movimento rebelde,  arrebanhou a sua gente para lançar-se numa façanha aparentemente impossível:  derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista. 

No total eram 148 pessoas, entre eles duas mulheres, Melba Hernández e Haydée Santamaria,   e dois comunistas, o restante era do Partido Ortodoxo, de moderada tendência nacionalista. Fidel Castro os convencera em praticar um espetacular ato de repúdio à supressão da Constituição de 1940, que Batista substituíra, depois do golpe de 10 de março de 1952,  por uma fornada de mais de 200 artigos do seu regulamento autocrático. 

A reação contra Batista

O ditador, de fato, lançara as bases de um estado bucaneiro, no modelo daqueles que existiam na região caribenha na época do auge da pirataria, nos séculos XVII e XVIII, voltado para a jogatina, a exploração da prostituição e para o acolhimento do dinheiro sujo arrecadado em outras partes do mundo (especialmente os dólares vindos da máfia americana). Pessoalmente ele embolsava 30% dos cassinos do gângster Mayer Lansky, seu parceiro na rede de hoteleira de Havana, enquanto que dona Marta, a benemérita primeira-dama da ditadura, conformava-se com 10% das casas de jogo de Santo Trafficante Jr. Além de desmoralizar o país, Batista corrompeu os oficiais dos quadros superiores das forças armadas convidando-os a que assumissem o controle das boates e dos inferninhos dos principais pontos turísticos da ilha. Tornara-os rufiões! 

No universo do domínio ianque, a Cuba reservou-se um papel bem específico: a ilha era o paraíso da contravenção. Tudo o que um cidadão americano não podia consumir livremente nos seus estados ele conseguia por lá: jogo, sexo, bebida e drogas. Tudo à vontade e a preços risíveis, tendo ainda como brinde poder baforar um Cohiba, charuto de preço proibitivo em Nova Iorque.

Fazer de Santiago um território livre

A escolha que os insurgentes fizeram de atacar simultaneamente dois quartéis na Província do Oriente (o de “Moncada” em Santiago de Cuba, e o “Céspedes” em Bayamo), devia-se a que, bem sucedida a operação, formariam ali um “território livre”, separado do restante da ilha. Para melhores garantias eles explodiriam a ponte sobre o Rio Cauto, impedindo a chegada de reforços vindos da parte ocidental da ilha pela estrada que passava em Bayamo. Bem posicionados, reforçados pelas armas capturadas, o exemplo deles inspiraria uma revolta geral contra Batista. A data escolhida, o 26 de julho, combinava com o dia derradeiro do carnaval cubano, celebrado no Dia dos Reis. 

Até um poeta levaram junto. Raul Gómez Garcia redigiu um trovejante “ Manifesto de Moncada “, que além de denunciar “ os crimes de sangue, a desonra e luxúria desenfreada” , conclamava os cubanos a  lutar contra aquele regime de corsários. Fidel Castro, à frente de um cortejo de 16 carrões carregados com sua gente mal armada,   imaginou surpreender os soldados pegos  no torpor da ressaca.  Uma parte da caravana com 55 atacantes, rumou para Bayamo,  a outra entrou pelas ruas de Santiago de Cuba para chegar até o quartel de Moncada, sede do 1º Regimento de Infantaria, o  “Maceo”. Aquela altura, por uma série de pequenos acidentes,  eles haviam se reduzido para 113 insurgentes. 

Por volta das 6 horas da manhã iniciou-se um tiroteio generalizado na entrada dos portões da guarnição que, para infelicidade dos seguidores de Fidel, não estava desatenta. Logo a desigualdade do poder de fogo se fez presente. Os rebeldes lutavam com armamento quase que caseiro, velhos rifles, revolveres de calibre diverso, armas de caça e até uma espingarda de cano serrado, enquanto tiveram que enfrentar, além dos fuzis de guerra,  metralhadoras ponto 30 e até uma ponto 50, colocada no alto de uma torre do quartel atacado. Desse modo, de nada serviu Fidel ficar incentivando os seus, com sua arma em riste aos gritos de “Adelante, muchachos! Adelante!” (Tad Szulc – Fidel, um retrato crítico, 1987, pág. 304).

Fachada do quartel Moncada, hoje museu revolucionário
Fachada do quartel Moncada, hoje museu revolucionário
Foto: Reprodução

O fracasso e a repressão

Em Bayamo o ataque saiu-se até pior, visto que não conseguiram nem transpor as casas dos sentinelas, sendo logo detidos e postos em fuga pelo intenso fogo dos soldados. Desbaratada a tentativa de assalto, só lhes restou pegar os automóveis e tentar escapar para o mais longe possível da vingança dos militares. A reação do exército foi terrível. Os aprisionados foram torturados e espancados até a morte. O poeta Raul Garcia, antes de receber um tiro de misericórdia, teve o rosto esmagado pelas coronhadas dos guardas. 

Nos dias seguintes, Batista, suspendendo as garantias de vida dos que fossem presos, ordenou uma operação de captura e extermínio dos rebeldes que haviam escapado, matando 69 deles. Fidel Castro, rendido vivo seis dias depois quando dormia numa choupana, salvou-se por um milagre de ter o mesmo destino. Quem poderia imaginar naquela ocasião, no nascimento do libertário Movimento 26 de Julho,  que ele, mais tarde, também iria tornar-se o tirano da ilha que ele jurara algum dia libertar? 

Fonte: Especial para Terra
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade