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Como atrair novamente os alunos é um dos maiores desafios dos educadores

Para conter a evasão escolar, é preciso criar uma rede envolvendo iniciativas públicas, como renda mínima, e o apoio da sociedade

24 set 2021 05h11
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O Brasil corre o risco de regredir 20 anos em relação ao acesso à educação. Esse é o prognóstico caso o País não consiga trazer de volta 5,1 milhões de meninos e meninas entre 6 e 17 anos que, durante o ano de 2020, ou não estavam frequentando a escola ou não tinham recebido quaisquer atividades remotas.

"É um cenário similar ao de 20 anos atrás, quando ainda não existiam muitas das políticas que ampliaram o acesso e o financiamento à educação", observa Júlia Ribeiro, oficial do programa de educação do Unicef no Brasil.

Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid 2020 constam do relatório feito pelo Unicef e pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) sobre o cenário da exclusão escolar. Mas não é difícil ver os números ganharem rosto Brasil afora.

Em Manicoré, município com 50 mil habitantes localizado a 370 km de Manaus, a escola perdeu alunos para o garimpo. Lá, os professores comentam que pais estão mandando as crianças para garimpar e gerar renda à família, em vez de enviá-las para a escola. "Os docentes dizem não ver horizonte, porque, para a criança, obter um certificado do ensino médio parece não servir para nada", diz Kátia Schweickardt, professora na Universidade Federal do Amazonas e ex-secretária municipal de Educação de Manaus.

Enfrentar essa situação só será possível se o problema for visto para além da escola, de forma colaborativa, afirma Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do Cenpec. "É preciso mobilizar uma rede de proteção, com assistência social e saúde. No caso do ensino médio, é preciso replicar a garantia de renda mínima, já em vigor em alguns Estados. Não se pode esquecer que 62% desses meninos e meninas fora da escola vivem em família com renda de até meio salário mínimo."

E não se trata de uma concessão excepcional ao sistema educacional. Tratar a evasão escolar como responsabilidade exclusiva das escolas, além de impraticável, é algo injusto. E injusto, aqui, é porque literalmente fere uma lei: o artigo 205 da Constituição, que, além de tratar a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, define que será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade.

É claro que a escola também tem papel fundamental na busca ativa desses estudantes. Nesse momento, vale mobilizar as famílias, incentivar que um adolescente vá até a casa do amigo convidá-lo para voltar a frequentar as aulas, promover rodas de conversa. Porque, afinal, os alunos saíram de lá porque o vínculo foi quebrado. Trazê-lo de volta é o primeiro passo. A partir daí, começa a luta contra o desinteresse.

"Antes da pandemia, um dos principais motivos trazidos pelos municípios para a evasão era a escola ser desinteressante. Certamente há muitas questões dentro da escola que precisam ser revistas, mas essa causa, muitas vezes, esconde outras questões, como as relacionadas a racismo, bullying, discriminação ou mesmo formas de violência que acontecem dentro e fora da escola", explica Júlia Ribeiro, do Unicef.

Fracasso coletivo

Além dos prejuízos que a supressão dos estudos ocasiona na vida de um estudante - em suas dimensões socioemocionais, culturais e intelectuais -, há um impacto no desenvolvimento do Brasil.

Um levantamento do Banco Mundial, que avalia os índices de perdas de talentos para a economia de um país, mostra que, mesmo antes da pandemia, o Brasil só conseguia dar possibilidade de desenvolvimento para 60% de seu talento potencial. Agora, a estimativa é que esse porcentual tenha caído para menos de 50%.

"Não seria exagero dizer que a evasão é um dos maiores desafios do Brasil, não só no aspecto da educação, mas um desafio brasileiro no prisma do talento", afirma Ildo Lautharte Junior, economista especialista em educação do Banco Mundial. "Quanto talento é perdido porque uma criança sai da escola prematuramente?"

Estadão
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