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Com banco de questões velho, Enem fica menos atual

Exame termina sem abordar covid-19 ou Amazônia; itens com enunciados diretos e cobrança de fórmulas chamaram a atenção

28 nov 2021 20h35
| atualizado às 21h45
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O segundo dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) evidenciou o envelhecimento do banco de questões que compõem o teste. Neste domingo, 28, estudantes fizeram as provas de Ciências da Natureza e Matemática. Não caíram temas mais atuais, como a pandemia de covid-19, e a prova se mostrou mais conteudista - com questões diretas, que exigiam do estudante fórmulas e menos interpretação.    

Como o Estadão mostrou, o Banco Nacional de Itens, onde estão as questões que vão fazer parte das provas do Enem, não foi atualizado em 2020 e 2021, por causa da pandemia. O tamanho do banco hoje é limitado - não deve ter mais de 200 questões.

Estudantes chegam para realizar o Enem no centro de São Paulo
Estudantes chegam para realizar o Enem no centro de São Paulo
Foto: Werther Santana / Estadão

O Enem deste ano ocorreu em meio à crise interna no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Às vésperas da prova, servidores pediram exoneração por discordarem da gestão do presidente, Danilo Dupas. Também denunciaram pressão pela retirada de questões do exame, porta de entrada para o ensino superior.

Na prova deste domingo, apesar de caírem questões sobre o desastre ambiental em Mariana (MG), ocorrido em 2015, dengue e carros elétricos, assuntos como coronavírus, vacinação, aquecimento global e Floresta Amazônica não apareceram. "É uma prova que não consegue puxar muito para temas atuais, o que demonstra escassez do banco de itens", diz Fernando Santo, gerente de Inteligência Educacional e a Avaliações do Poliedro.

Os enunciados traziam textos retirados de sites ou reportagens publicados há pelo menos dois anos. O que foi visto na prova do Enem deste domingo difere da expectativa para outros vestibulares, como a Fuvest (da Universidade de São Paulo), exame mais atual, elaborado meses antes da aplicação.

Causou surpresa a prova de Biologia, com menos Ecologia - que tradicionalmente cai em peso no exame - e mais questões específicas de Botânica. "Foi diferente do tradicional. O aluno precisava de conhecimento, muitas vezes aprofundado e as questões estavam relativamente diretas, não tinham tantos textos introdutórios", diz Guilherme Francisco, professor de Biologia do Curso e Colégio Objetivo.

Edmilson Motta, coordenador-geral do Grupo Etapa, também notou alterações no perfil da prova. "Em Biologia foi possível perceber uma mudança em comparação com as últimas edições, principalmente no que diz respeito ao tamanho dos enunciados, que foram mais curtos neste ano." Segundo professores de cursinhos, uma das questões, que fazia referência à Copa do Brasil, não apresentava alternativa correta.

Para Santo, o conteudismo também se revelou em Matemática e Física, com comandos diretos e pouco contexto. Na prova de Física, por exemplo, uma das questões só poderia ser resolvida se o estudante lembrasse a fórmula - uma "novidade para o Enem".

O professor acredita que a montagem da prova ficou refém de um banco de itens pequeno - por isso, o aumento de questões menos interpretativas e mais diretas. "Ao longo dos anos, naturalmente foram escolhidas as melhores questões do banco." Isso não significa, porém, que a prova perdeu a capacidade de avaliar os candidatos.

"No poder de selecionar pessoas, a prova continua excelente porque vai identificar alunos que melhor se prepararam, tiveram melhores condições de acesso. Mas se distancia da realidade dos estudantes, vai mais para um conteudismo, em detrimento de (avaliar) o estudante que tenta aplicar o que aprende em temas do cotidiano."

A mudança foi sentida pelos candidatos. Bacharel em Educação Física, Jefferson Cruz, de 35 anos, fez o Enem em 2012 e voltou este ano. "Vi uma prova diferente, bem técnica, feita para testar o conhecimento ao extremo."

A candidata Elisângela Pereira Dias, de 36 anos, que prestou o Enem em Sorocaba, interior de São Paulo, considerou a prova deste domingo a mais difícil dos últimos anos. "Em nível de dificuldade, foi pior do que as outras vezes. Tinha uma questão de matemática que trazia gráficos complicados demais, além de muitas questões com cálculos longos", disse.

Prestando o primeiro Enem, o estudante Pedro Duran, de 17 anos, concordou com a colega. "Foi muito difícil mesmo e em algumas questões fiquei sem saber o que fazer. Eu me preparei para esse Enem, mas as questões de Matemática, Física e Química eram de nível de faculdade." Ele disse ter pouca esperança de uma boa nota. "Acho que vai ficar para outra vez."

Já Luana Nascimento, que fez a prova em Salvador, avaliou que o exame tinha questões densas em Matemática. "Química, Física e Biologia estavam muito fáceis, quem estudou e conseguiu equilibrar o nervosismo se deu bem." Ela quer estudar Medicina. "É o meu sonho e o de toda a minha família em jogo". 

Estadão
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