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Capes: Mais pesquisadores deixam cargos e número de renúncias chega a 80

Cientistas da Química divulgaram carta em que apontam falta de diálogo; Matemática e Física já haviam se desligado

1 dez 2021 19h39
| atualizado às 20h59
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Mais 28 pesquisadores pediram renúncia nesta quarta-feira, 1º, de suas funções no processo de avaliação de cursos de pós-graduação na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes). Somadas às registradas na segunda-feira, as renúncias chegam a 80. Dessa vez, a área da Química pediu desligamento das atividades na instituição. Os motivos são parecidos com os apresentados pelos pesquisadores da Matemática e da Física, que já haviam pedido renúncia.

Fachada de prédio da Capes em Brasília. Avaliação quadrienal da instituição está paralisada após uma decisão judicial; coordenadores afirmam que há pouco esforço do órgão para retomar processo
Fachada de prédio da Capes em Brasília. Avaliação quadrienal da instituição está paralisada após uma decisão judicial; coordenadores afirmam que há pouco esforço do órgão para retomar processo
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil / Estadão

Os cientistas da Química apontam falta de diálogo com a presidência da Capes e pouco compromisso desta com a principal avaliação conduzida pela instituição: a avaliação quadrienal, que periodicamente confere a qualidade dos cursos de pós no País. Também reclamam que o processo para a abertura de novos cursos de pós-graduação tenha caminhado antes que a avaliação dos cursos já existentes possa ser retomada.

"Entendemos que a inexistência de uma política nacional de pós-graduação formalizada torna todo o sistema frágil, no sentido de que diagnósticos, metas e desafios estratégicos não estão disponíveis para toda a comunidade. Também não se pode mais falar em um verdadeiro diálogo", escreveram os cientistas da Química, em carta de renúncia, obtida pelo Estadão.

A Capes é uma agência de fomento à pesquisa, ligada ao Ministério da Educação (MEC), que tem como missão avaliar os cursos de pós-graduação no Brasil. Desde abril deste ano, é presidida pela reitora do Centro Universitário de Bauru, Claudia Mansani Queda de Toledo.

O pedido de renúncia desta quarta foi feito por três coordenadores e 25 consultores ligados à área de Química. O Estadão apurou que houve uma conversa entre Claudia e os cientistas na terça-feira, mas os pesquisadores não notaram mudanças.

Para conduzir as avaliações dos cursos de pós, são montadas comissões em cada uma das áreas do conhecimento. Há 49 áreas de avaliação na Capes. Em cada uma delas, são convocados, por meio de um processo público, três coordenadores que têm um mandato de quatro anos. Esses coordenadores, por sua vez, contratam consultores especialistas em suas áreas. Este grupo é responsável por dar a nota para cursos de pós, seguindo uma série de critérios estabelecidos previamente.

Na carta de renúncia, os pesquisadores da Química lembram que a atuação das coordenações de área e dos consultores é um trabalho voluntário. "Aceitamos de bom grado colaborar com a Capes, sabendo que uma avaliação indutiva e formadora é o caminho para melhora a qualidade na formação de recursos humanos para o país, na produção de conhecimento e na transferência desse conhecimento para a sociedade", afirmam.

Segundo o grupo, a pós-graduação sempre foi tratada como uma "política de estado e não de governo", mas isso mudou na atual gestão. Os pesquisadores dizem que falta compromisso com a avaliação quadrienal e há inércia em ações necessárias para a retomada do processo, paralisado após uma decisão da Justiça. Outro ponto questionado é um pedido de documento para submissão de propostas de pós-graduação a distância.

"Uma boa parte das áreas, incluída a Química, tem pouca ou nenhuma experiência em EaD. A elaboração de tais documentos, em tempo tão exíguo, deveria ter sido precedida de uma ampla discussão com diferentes atores, se EaD na pós-graduação se aplica a todas as áreas e o que seria importante para fomentar sua implantação com a devida qualidade", escreveram.

A avaliação quadrienal da Capes já está atrasada. Logo que assumiu a presidência da instituição, Claudia Queda de Toledo aumentou o prazo de preenchimento de informações pelos próprios programas de pós-graduação. Em setembro deste ano, uma decisão da Justiça Federal suspendeu a avaliação quadrienal da Capes, sob justificativa de que houve mudança na forma de aplicação dos critérios de ranqueamento dos cursos de pós-graduação.

O cronograma da Capes previa a divulgação dos resultados entre o fim de dezembro e início de janeiro do ano que vem. Com o imbróglio na Justiça, o temor é de que a avaliação não seja feita, o que impactaria no controle de qualidade dos cursos de pós, no planejamento das instituições de ensino e até na distribuição de bolsas e verbas.

Com as renúncias, as áreas de Matemática, Física e Química ficam esvaziadas e a Capes terá de convocar outros pesquisadores interessados em participar da avaliação.

Estadão
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