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Do colorau à indústria de cosméticos: como o urucum ganhou o mundo

13 ago 2026 - 15h11
(atualizado às 15h47)
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Apelidado de "açafrão dos latinos", ingrediente tradicional das Américas amplia exportações e abastece setores de alimentos e beleza da Europa e da Ásia, mas continua desconhecido por muitos consumidores.Bastante popular no Brasil, o urucum colore alimentos e tradições indígenas há séculos. Embora esteja presente em produtos consumidos diariamente em diferentes partes do mundo, o fruto originário das Américas permanece pouco conhecido fora das regiões onde seu uso faz parte da cultura local. Agora, impulsionado pela demanda da indústria alimentícia e de beleza, o ingrediente vê suas exportações crescerem. No Brasil, o pó-vermelho alaranjado das sementes moídas do urucum é vendido como colorau.

"É importante entender que o urucum começou como um pigmento ancestral. Ele era usado pelas culturas pré-colombianas do Equador e de outras regiões das Américas", afirma à DW Miguel Ángel Méndez, chef do restaurante Ayawaskha, em Madri.

Conhecido por diferentes nomes nas Américas e no Caribe, como urucú, bija, axiotl e anato e achiote, o urucum entrou nos registros europeus em meados do século 16 devido às primeiras expedições pelo rio Amazonas.

O fruto, de coloração vermelha intensa, abriga sementes da mesma cor. Ao longo dos séculos, elas foram utilizadas como pigmento natural para a pele e para tecidos, além de aplicações medicinais e culinárias.

"No nosso caso, usamos o achiote no refogado", explica Méndez, que define sua cozinha como uma vitrine da gastronomia equatoriana. Filho de imigrantes, ele destaca o uso de ingredientes produzidos por pequenos agricultores do país de origem de sua família.

O refogado preparado com cebola bem picada e óleo de urucum é a base de inúmeras receitas do litoral do Equador, da Colômbia e do Peru. Dependendo da região, também pode levar alho, tomate, pimentão, ervas e especiarias.

"Usamos nos pratos conhecidos como 'secos', preparados com carne bovina, cabra ou frango", diz o chef. O seco é um ensopado cozido lentamente após a carne ser marinada em naranjilla, fruta tropical de sabor ácido semelhante ao cubiu, ou em ingredientes como vinagre ou cerveja. Trata-se de um dos pratos mais emblemáticos da costa equatoriana.

No Ayawaskha, as sementes são usadas diretamente na produção de óleos aromatizados, mas também na forma de pasta. "Essa pasta vem de Loja, no sul do Equador, e chega com a textura ideal", afirma.

Exportações em crescimento

As exportações de urucum, comercializado em sementes, pasta, pó ou óleo, vêm aumentando. Segundo dados da PromPerú, o volume exportado no primeiro semestre de 2026 cresceu mais de 135% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Países como Brasil, Bolívia e Equador também vendem o produto ao exterior. Na América Central, Guatemala, México e Costa Rica participam do mercado em menor escala. Os Estados Unidos são o principal destino das exportações, seguidos por países europeus e pelo Japão.

O primeiro impulso comercial ao urucum ocorreu no fim do século 17, quando fabricantes de queijo da Holanda e da Inglaterra passaram a utilizá-lo para conferir coloração alaranjada a produtos como o cheddar. A substância substituía corantes mais caros, como o açafrão, e tornava os alimentos visualmente mais atraentes.

No século 20, o produto ganhou espaço na indústria de alimentos e cosméticos por meio da bixina, pigmento responsável pela cor das sementes. Na indústria alimentícia, ela é identificada como aditivo E160b; na cosmética, como CI75120. Quanto maior a concentração de bixina nas sementes, maior costuma ser seu valor comercial.

Presente no cotidiano, mas pouco reconhecido

Apesar da ampla utilização, o urucum segue pouco conhecido pelos consumidores.

Em um restaurante mexicano de Bruxelas, uma cliente afirmou que o conhecia apenas como "uma sementinha". Outra o associou ao preparo da tradicional cochinita pibil, prato típico mexicano feito com carne de porco marinada em pasta de urucum e frutas cítricas. Nenhuma delas, porém, reconheceu o fruto da planta.

Em Nova York, Leonor Martí lembra do uso doméstico do ingrediente durante a infância.

"Minha avó e minha mãe colocavam as sementes em uma lata vazia de atum, com pequenos furos. Depois adicionavam óleo e aqueciam a mistura, que ganhava uma cor amarela usada no refogado", conta.

Ela ainda utiliza o ingrediente, mas de forma mais prática. "Hoje compro o óleo pronto, importado do Equador", diz.

Cor, proteção e tradição

Leonor também conhece a aplicação cosmética do urucum. "Em Santo Domingo de los Tsáchilas, os tsáchilas usam a planta para tingir os cabelos", afirma sobre indígenas do Equador que ficaram conhecidos como "colorados" pelo uso de urucum.

Embora hoje esse uso seja visto como estético, sua origem está ligada às propriedades tradicionalmente atribuídas às sementes, empregadas por povos indígenas para aliviar problemas de pele e ajudar na proteção contra o sol.

Na Amazônia, diversas comunidades indígenas continuam utilizando o urucum, em práticas tradicionais associadas a cuidados corporais e bem-estar.

Atualmente, seja como E160b na indústria alimentícia ou como CI75120 no setor cosmético, o chamado "açafrão dos latinos" chega a mercados como Espanha, Holanda, Reino Unido, França, Itália e Alemanha. Neste último país, a planta é conhecida como Lippenstiftbaum, ou "árvore do batom".

Fabricantes de ingredientes para os setores alimentício e cosmético, além de empresas como L'Oréal e Lush, utilizam o fruto para produzir tonalidades que variam do laranja ao vermelho intenso.

Essas mesmas cores continuam presentes em comunidades amazônicas do Alto Marañón, onde a pintura corporal feita com urucum é usada para receber visitantes.

Para Miguel Ángel Méndez, o ingrediente segue sendo fundamental na culinária do Pacífico equatoriano. "O urucum está presente em praticamente todas as nossas receitas. Além de colorir os pratos de forma natural, acrescenta profundidade de sabor e um retrogosto marcante", conclui.

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