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Divulgação científica: por que a autocitação em artigos não deve ser considerada trapaça

Um pesquisador que retorna ao próprio trabalho e o cita em novos artigos deixa um rastro intelectual visível, que sinaliza a outros leitores uma linha de pesquisa com profundidade acumulada e direção clara

27 mai 2026 - 11h19
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Cupins não têm arquiteto. Cada operário reage ao que o anterior construiu, deposita material no ponto certo e segue em frente. Nenhum inseto conhece o projeto completo, mas o ninho surge assim mesmo.

A citação acima é do zoólogo Pierre-Paul Grassé, descreveu esse mecanismo em 1959 e o chamou de estigmergia: o fenômeno pelo qual ações passadas modificam o ambiente e estimulam ações futuras, sem uma coordenação central.

Num estudo publicado em abril de 2026 na revista Society eu aplico essa ideia à prática acadêmica e chego a um resultado que contraria o senso comum sobre autocitação.

O que o estudo mediu

Nesta pesquisa, analisei 42 artigos sobre estigmergia humana, selecionados a partir de 1.289 publicações em nove idiomas.

Para cada artigo, medi autocitações, ou referências do autor ao próprio trabalho anterior, e citações externas, recebidas de pesquisadores sem vínculo com o autor original.

O resultado foi que cada autocitação adicional estava associada a aproximadamente 11 citações externas a mais. Por outro lado, citar trabalhos de outros autores não apresentou relação estatística com o impacto posterior.

A variável que parecia suspeita foi a única que funcionou como preditor real.

Por que a autocitação produz esse efeito?

Um pesquisador que retorna ao próprio trabalho e o cita em novos artigos deixa um rastro intelectual visível. Esse rastro sinaliza a outros leitores que há uma linha de pesquisa com profundidade acumulada e direção clara.

A reação de outros pesquisadores, ao citar esse trabalho, replica a lógica do operário que retoma um ponto de construção já estruturado. O cupim não volta ao mesmo lugar por acaso. Volta porque aquele ponto já está desenvolvido o suficiente para continuar.

Este estudo, portanto, propõe que pesquisadores com alta autocitação podem ser também aqueles que construíram uma agenda. Agendas, sobretudo as de longo prazo, atraem mais citações externas por razões que vão além da contagem de referências.

O que os 80% restantes revelam

O modelo estatístico do estudo, no entanto, explica apenas 19,3% da variação no impacto dos artigos. O restante vem do que Grassé chamou de estimulação periférica, ou seja, prestígio do periódico, reputação do autor ou popularidade do tema.

Autocitação funciona como marcador de trajetória consistente, não como alavanca direta de visibilidade. Pesquisadores que citam o próprio trabalho com frequência tendem a ser aqueles que têm trabalho anterior suficiente para citar; o que, por si só, já é um sinal de acúmulo intelectual.

O filósofo Michael Polanyi argumenta que a autonomia científica é condição para a qualidade da ciência. Ajustar a produção continuamente a critérios externos pode corroer a flexibilidade que gera pesquisa original.

O problema com a lógica da CAPES

O sistema Qualis-Periódicos da CAPES avalia programas de pós-graduação com peso crescente sobre citações recebidas e volume de publicações em periódicos classificados. Pesquisadores precisam publicar com frequência, e em periódicos de estrato elevado, independente do tema.

O resultado é dispersão. Publicar em mais periódicos, sobre mais assuntos. Uma linha de pesquisa acumulada, onde cada artigo novo constrói sobre o anterior, não é geralmente bem avaliada nesse sistema. Autocitação coerente, que é exatamente o marcador dessa acumulação, tampouco.

Portanto, o atual sistema penaliza por omissão um comportamento que prediz impacto real.

O que o estudo não resolve?

A amostra cobre um campo específico e pequeno. Os dados vêm do Google Scholar, que indexa desde artigos revisados por pares até apresentações de congresso, o que pode distorcer contagens de citação.

Há também uma distinção que o estudo não faz: autocitar porque o trabalho anterior é relevante para o argumento é diferente de autocitar para inflar métricas. Qualquer sistema de avaliação sério precisa separar os dois casos.

O que o estudo oferece é evidência de que a suspeita automática sobre autocitação não tem respaldo empírico nos dados analisados.

O ninho surge do acúmulo

Cupins não conhecem o projeto que estão construindo. Pesquisadores que desenvolvem uma linha de trabalho ao longo de anos também não sabem exatamente aonde vão chegar. Mas cada passo reage ao anterior e essa cadeia de respostas autônomas produz estruturas que nenhum planejamento central conseguiria antecipar.

A CAPES mede produtos. A estigmergia mede trajetórias. Os dados sugerem que a segunda métrica também captura o que a ciência tem de melhor a produzir.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Marvin Starominski-Uehara não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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