De olho em eleições, ultradireita culpa migração por protestos na Europa
Políticos de ultradireita têm explorado os recentes protestos violentos na Europa para culpar a imigração e defender pautas de lei e ordem antes de eleições importantes. Embora os atos decorram da alta do custo de vida e da crise energética agravada por conflitos internacionais, líderes como Trump, Le Pen e Netanyahu associam os distúrbios ao extremismo islâmico. Em resposta, o presidente Emmanuel Macron rejeitou as acusações e denunciou o uso político e oportunista da crise francesa.
Políticos da ultradireita mundial tentam se apresentar como defensores da lei e da ordem e atribuem violência em manifestações a "migração descontrolada" e "islamismo extremista".Políticos da ultradireita em todo o mundo têm aproveitado os protestos na Europa para colocar a culpa por eles na imigração e se apresentar como os defensores da lei e da ordem à medida em que importantes eleições se aproximam.
Na França, manifestações inicialmente pacíficas contra o alto custo de vida e a falta de recursos para escolas tornaram-se violentas no fim de semana passado, com manifestantes mascarados entrando em confronto com a polícia. Cerca de 2.500 pessoas, a ampla maioria homens, foram detidas, das quais 174 permanecem presas.
Em Milão, a capital financeira e da moda da Itália, no sábado, manifestantes violentos entraram em confronto com a polícia, saquearam lojas e incendiaram propriedades.
Não há, porém, qualquer ligação entre imigração - nenhum grupo específico foi apontado como o responsável pelos distúrbios - e a violência que emergiu a partir de protestos pacíficos contra a alta do custo de vida.
Esta pode ser atribuída, em grande parte, à guerra no Irã, iniciada em fevereiro pelos Estados Unidos e por Israel e que levou a uma forte alta nos preços da energia, agravando os desafios de governos que já enfrentavam dificuldades para controlar a inflação, sustentar o crescimento econômico e reduzir gastos públicos.
A Comissão Europeia estima que o conflito com o Irã tenha custado à Europa cerca de 100 bilhões de euros (R$ 564 bilhões) devido aos impactos sobre o comércio e os mercados de energia. Os preços do gás aumentaram aproximadamente 140%, e os do diesel dobraram.
Seja como for, os protestos e sobretudo a violência se tornaram um tema favorito de políticos da ultradireita nos Estados Unidos, na Europa e em Israel, além de dar novo impulso a partidos radicais antes das eleições do próximo ano na França e na Itália, e em novembro deste ano na Espanha.
"Invasão do islamismo extremista"
A França foi "conquistada, saqueada e reduzida às cinzas por migrantes, jihadistas e comunistas", afirmou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, num comício antes das importantes eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro.
"Se a Europa não fechar suas fronteiras e retirar os criminosos das ruas, como as pessoas que estão protestando, a Europa estará acabada", declarou Trump. "Quando olho para a França, quando olho para a Itália, quando vejo toda essa turbulência e esse ódio, isso não é sobre escolas. É sobre pessoas entrando em países que elas odeiam."
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também em campanha eleitoral, fez declarações semelhantes ao afirmar que a França havia "cedido à invasão do islamismo extremista".
O líder do partido espanhol de ultradireita Vox, Santiago Abascal, que também disputa votos antes das eleições de novembro, alertou para o "islamoesquerdismo" numa postagem que mostra um incêndio consumindo o teto do prédio histórico da prefeitura da cidade francesa de Limoges. Abascal tem usado a migração para atacar o primeiro-ministro Pedro Sánchez, cujo governo permitiu que mais de 1 milhão de imigrantes indocumentados solicitassem a regularização de sua situação.
Em Portugal, o deputado André Ventura, líder do partido de ultradireita Chega, culpou os imigrantes pela crise habitacional que provocou protestos como os acampamentos em Lisboa e no Porto, já desmontados pela polícia. "A culpa da falta de habitação não é toda dos imigrantes, mas uma parte é do fluxo migratório que afeta Portugal", afirmou Ventura, defendendo que não se permita a entrada de pessoas "de forma descontrolada".
Na Alemanha, a colíder da bancada parlamentar da AfD Alice Weidel atribuiu os distúrbios na França a um "ataque de uma horda de migrantes e agitadores da extrema esquerda contra a civilização ocidental". Segundo ela, as causas seriam "fronteiras abertas e migração em massa", que "em última instância conduzem a condições semelhantes às de uma guerra civil". "Os distúrbios na França são um sinal de alerta para toda a Europa", afirmou.
Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni, do partido ultradireitista Irmãos da Itália prometeu firmeza contra a violência e disse que as forças de segurança detiveram e prenderam 330 pessoas, metade delas de origem estrangeira - seja por terem nascido no exterior, seja por serem nascidos na Itália de pais estrangeiros. O partido de Meloni enfrenta uma concorrência crescente de outra sigla ainda mais à direita, o Futuro Nacional,
Le Pen e o discurso de lei e ordem
Num vídeo que mais parece um pronunciamento presidencial, com uma bandeira francesa ao fundo, a candidata presidencial do partido da ultradireita francesa Reunião Nacional, Marine Le Pen, que lidera as pesquisas para as eleições do próximo ano, apresentou-se como a candidata da lei e da ordem.
Le Pen concentrou seus ataques no governo "em fim de linha e que já não tem o controle" do presidente Emmanuel Macron, mas não abandonou completamente sua pauta preferencial, afirmando que a França está "pagando por décadas de imigração anárquica".
Ela também acusou o partido esquerdista A França Insubmissa (LFI), que apoiou os protestos dos estudantes, de tentar provocar uma "guerra civil".
Le Pen posicionou-se firmemente ao lado da polícia, num contexto em que o debate passou a girar em torno de falhas de segurança e da restauração da ordem antes de novos protestos previstos para o próximo sábado.
A reação de Le Pen "se encaixa num esforço mais amplo e de longa data para se apresentar como uma figura mais credível para governar", disse Jess Middleton, analista sênior para a Europa da consultoria de risco Verisk Maplecroft.
Macron critica líderes estrangeiros
Macron pareceu responder, na quarta-feira, a Trump e Netanyahu. Ele acusou líderes estrangeiros, incluindo aqueles "do outro lado do Atlântico", de tentarem explorar o clima social tenso na França para obter vantagens políticas, "fazendo campanha às custas da França". "Houve pessoas afirmando que fomos invadidos por hordas de migrantes e islamistas, o que é completamente falso."
Macron declarou ainda que houve "uma manipulação estrangeira de informação que resultou em comentários inaceitáveis e estúpidos de muitos, incluindo líderes estrangeiros". Questionado por um jornalista se estava se referindo a Trump, Macron respondeu: "Entre outros".
O presidente reconheceu, porém, as "reivindicações legítimas" dos manifestantes indignados com o aumento do custo de vida e dos combustíveis, ao mesmo tempo em que condenou os responsáveis pela violência e pelos saques.
as (AFP, AP, Reuters, Lusa, Efe)
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