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Da floresta à mesa: como a biodiversidade brasileira pode gerar mais alimentos, mais saúde e mais renda

Novo INCT de alimentação enfrenta o desafio de transformar o potencial dos biomas brasileiros em conhecimento, alimentos mais saudáveis e geração de riqueza

17 set 2026 - 09h10
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Resumo
O projeto do INCT FoRC une ciência e produção para valorizar a biodiversidade brasileira, investigando frutos nativos como pitanga, cambuci, uvaia e araçá-amarelo. Em três plataformas integradas, a iniciativa analisa os benefícios dos compostos bioativos à saúde humana, desenvolve processos sustentáveis para criar novos ingredientes alimentares e apoia pequenos produtores na estruturação de suas cadeias. O foco é transformar a riqueza vegetal em saúde, inovação e renda sem agredir o meio ambiente.

Quando uma fruta nativa chega ao prato, raramente pensamos em tudo o que existe entre a planta que gerou essa fruta e o alimento. É preciso descobrir quais compostos bioativos estão presentes, avaliar os efeitos no organismo, desenvolver formas eficientes e sustentáveis de processamento e garantir que produtores e comunidades também se beneficiem.

Essa visão integrada orienta o Food Research Center, um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT FoRC), iniciado em setembro de 2025. Nosso foco é a intersecção entre biodiversidade vegetal, produção sustentável de alimentos, biotecnologia e saúde humana.

O desafio é transformar a riqueza biológica brasileira em conhecimento, alimentos e renda, sem prejudicar a rica biodiversidade em nosso país. Para isso, reunimos pesquisadores, empresas e comunidades em três plataformas que trabalham de modo conectado.

O que os alimentos fazem no organismo

A primeira plataforma identifica compostos bioativos presentes no vegetal e investiga como eles agem em nosso organismo depois que os ingerimos. Isso inclui saber quais são, sua biossíntese no vegetal, como são absorvidos e metabolizados pelo organismo humano, e quais as respostas biológicas observadas.

Uma das frentes, por exemplo, investiga quatro frutas nativas — pitanga, cambuci, uvaia e araçá-amarelo — produzidas principalmente por pequenos produtores. Como esses frutos precisam atingir a maturação no pé e têm vida pós-colheita curta, sua comercialização in natura é limitada.

Estudos anteriores já indicaram a presença de compostos bioativos, especialmente compostos fenólicos, tanto na polpa quanto na casca desses frutos. Agora, os pesquisadores estão caracterizando as fibras alimentares presentes nessas duas frações.

O objetivo é conhecer não apenas a quantidade de fibras, mas também sua solubilidade, sua composição molecular, os monossacarídeos que as constituem e a forma como essas unidades estão ligadas nos polissacarídeos, ou seja, as fibras.

Nossa equipe investiga os possíveis efeitos biológicos dessas fibras. Em modelos de fermentação colônica in vitro, frações das fibras são colocadas em contato com a microbiota de fezes de voluntários para avaliar a formação de compostos como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e alterações na abundância das bactérias, inclusive por análise baseada no gene 16S.

As frações solúveis em água são testadas em células de câncer colorretal, buscando identificar respostas celulares que indiquem um potencial a ser aprofundado em estudos sobre câncer. São, por enquanto, experimentos in vitro, fundamentais para selecionar as frações mais promissoras.

Depois da caracterização e dos ensaios in vitro, as melhores frações e os frutos mais promissores deverão avançar para estudos in vivo, principalmente em camundongos, em modelos de inflamação intestinal crônica e de câncer colorretal.

A partir desses resultados será possível planejar estudos clínicos em seres humanos, com a fruta ou com ingredientes derivados, como farinhas de fruta ou frações ricas em fibras alimentares.

Da descoberta ao produto sustentável

Conhecer a bioatividade é apenas parte do caminho. A segunda plataforma estuda processos limpos para extrair compostos de interesse e transformar frutos e subprodutos em alimentos. Entre as metas, estão implantar processos em escala piloto, desenvolver novos produtos e analisar sua digestibilidade, bioatividade, sustentabilidade e viabilidade econômica.

A lógica é aproveitar melhor cada matéria-prima. Folhas, cascas, sementes e resíduos podem conter óleos, fibras, aromas e muitos outros compostos de interesse. Em vez de terminarem como descarte, esses materiais podem retornar à pesquisa e originar ingredientes para alimentos, cosméticos ou bioinsumos.

No caso das frutas nativas estudadas, uma possibilidade é que as frações com maior potencial deem origem, no futuro, a ingredientes como farinhas de fruta ou produtos enriquecidos em fibras alimentares. Essa passagem do laboratório ao alimento, porém, dependerá de evidências de segurança e eficácia, além de viabilidade de processamento, impacto ambiental e custo.

Como transformar biodiversidade em valor

A terceira plataforma pergunta como esse conhecimento chega ao território de plantio e ao mercado. Ela combina capacitação de pequenos produtores, mapeamento de cadeias produtivas, educação e avaliação de impactos socioambientais.

Esse desafio aparece de forma concreta nas cadeias de pitanga, cambuci, uvaia e araçá-amarelo. Como a produção está fortemente ligada a pequenos produtores e a venda in natura é limitada por sua alta perecibilidade, ampliar o valor desses frutos depende de melhorar a produção, a regularidade da oferta, a conservação, o processamento e o acesso ao mercado.

Uma das frentes do INCT FoRC busca justamente apoiar esses pequenos produtores para aumentar a produção desses frutos e torná-la mais consistente, ampliando as oportunidades de comercialização.

Ao conectar o conhecimento sobre composição e efeitos biológicos ao desenvolvimento de novos ingredientes e às necessidades da cadeia produtiva, o INCT FoRC procura criar condições para que a biodiversidade gere valor também perto de quem a produz.

Um patrimônio que precisa produzir futuro

Ao longo de cinco anos, o INCT FoRC pretende caracterizar alimentos vegetais, realizar estudos pré-clínicos e clínicos, desenvolver tecnologias, mapear cadeias e formar pesquisadores. Todas essas metas são importantes, mas o principal resultado será a capacidade de ligar etapas que costumam avançar separadamente.

Um composto promissor só produzirá impacto se houver alimento seguro, processo sustentável, escala, mercado e repartição de benefícios. Da mesma forma, uma cadeia comercial só será duradoura se conservar a espécie e reconhecer o conhecimento das comunidades.

A biodiversidade brasileira não é apenas um acervo a proteger nem uma promessa abstrata de inovação. Ela pode sustentar dietas mais diversas e mais saudáveis, gerar conhecimento e criar oportunidades econômicas. Para que isso aconteça, precisamos acompanhar todo o percurso: da planta ao organismo humano, do laboratório ao produto e do produto ao território.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco recebe financiamento da CAPES, CNPq e FAPESP.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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