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Como a vitória da ultradireita na Colômbia provocou mudanças na campanha de Lula no segundo turno

A derrota de Iván Cepeda, na Colômbia, serviu de alerta para a esquerda no Brasil. A campanha transferiu seu foco da retórica da soberania para questões que afetam diretamente a vida cotidiana das pessoas, e deixando a política externa em segundo plano

23 out 2026 - 10h21
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Resumo
Após a vitória da direita na Colômbia e a desvantagem no primeiro turno contra Flávio Bolsonaro, a campanha de Lula reagiu no segundo turno ao corrigir erros históricos da esquerda regional. O petista adotou uma postura mais agressiva, focando em mobilização, pautas econômicas práticas para a classe média baixa e confrontação direta na segurança pública. A estratégia reduziu a rejeição do presidente e levou a disputa a um empate técnico na reta final, recuperando o fôlego eleitoral.

Na noite de 4 de outubro, a esquerda brasileira acordou diante de um cenário que vinha desacreditando há meses. O senador de extrema direita Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno das eleições cerca de 2 milhões de votos à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 47% contra 45% dos votos válidos. As pesquisas que vinham mostrando o presidente confortavelmente à frente durante a maior parte do ano induziram em erro tanto sua campanha quanto seus apoiadores, e a equipe de Bolsonaro agiu rapidamente para transformar a surpresa em um sinal do destino. Em poucos dias, Flávio já falava sobre ministros e prioridades políticas como se o segundo turno fosse uma mera formalidade.

O roteiro foi, em muitos aspectos, inspirado na Colômbia. Em 21 de junho, Abelardo de la Espriella conquistou a Presidência por uma diferença de cerca de 250 mil votos de um total de mais de 25 milhões — 49,7% contra 48,7% de Iván Cepeda —, em uma das eleições com maior participação da história do país. Desde então, a direita brasileira vem apresentando esse resultado como o primeiro passo de uma onda regional que o Brasil certamente seguiria.

A narrativa da inevitabilidade sempre esteve errada, mas o diagnóstico colombiano não estava. A derrota de Cepeda isolou quatro variáveis que a esquerda latino-americana tem administrado de forma equivocada de maneira consistente. O que chama a atenção nas últimas três semanas é que a campanha de Lula, depois de tropeçar nessas variáveis, parece ter aprendido as lições. Três dias antes da votação, a disputa está virtualmente empatada, e o ímpeto está do lado do atual presidente.

Reenquadrando a "maldição do mandato"

A primeira lição diz respeito à aritmética do mandato contemporâneo. Cepeda perdeu, embora tenha obtido o maior número absoluto de votos que a esquerda colombiana já conquistou. Sua derrota não foi um colapso da coalizão progressista, mas a descoberta de seu teto, estabelecido pelo governo de Gustavo Petro, que deixou o cargo antecipadamente.

Nenhum presidente em exercício na América do Sul conta hoje com apoio majoritário. O baixo crescimento econômico, as restrições fiscais e a banalização do sentimento anti-establishment tornaram o próprio ato de governar eleitoralmente oneroso. Lula, cuja aprovação ficou atrás da desaprovação durante grande parte de seu terceiro mandato, não é exceção. O primeiro turno mostrou que uma vantagem construída sobre uma oposição fragmentada e enfraquecida por escândalos não é a mesma coisa que popularidade governamental, e que ela se esvai assim que um adversário se consolida.

A resposta da campanha de Lula tem sido deixar de conduzir um referendo e passar a oferecer uma escolha. Em vez de se concentrar no legado de seus governos anteriores, Lula agora tenta destacar sua experiência inigualável, contrastando-a com um adversário que não possui histórico executivo próprio. O efeito é visível no único fator que candidatos à reeleição mais precisam melhorar, a rejeição: na pesquisa da Quaest divulgada em 21 de outubro, a proporção de eleitores que afirmam que nunca votariam em Lula desabou de 53% para 47% em uma única semana, enquanto a rejeição a Flávio diminuiu apenas dois pontos percentuais, de 54% para 52%.

Do excesso de confiança à terapia de choque

A segunda lição diz respeito à complacência e às suas raízes distributivas. O Pacto Histórico (PH), partido de Petro e Cepeda, entrou no primeiro turno da eleição na Colômbia convencido de que poderia vencer de forma direta, sem um segundo turno. Esta convicção justificou uma exposição mínima na mídia, a recusa em participar de debates e uma aposta na mobilização em vez da persuasão. O primeiro turno de Lula parecia desconfortavelmente semelhante: um candidato aproveitando-se de pesquisas favoráveis, investindo pouco em alcançar além de uma base que se mostrou insuficiente.

A diferença está no que aconteceu a seguir. Em menos de uma semana, a campanha de Lula se reinventou, tanto nas redes sociais quanto nas ruas. Uma combinação de conteúdo digital agressivo e mobilização de base — desde campanhas porta a porta nos bairros até grandes comícios em estados onde a esquerda tinha ficado em silêncio — mudou o clima do segundo turno. Uma campanha que vinha se dirigindo aos já convencidos passou a buscar os que podiam ser persuadidos — uma massa de 33 milhões de eleitores que não compareceram ao primeiro turno.

Mais importante ainda, Lula começou a se dirigir a um eleitorado que Cepeda havia perdido na Colômbia. A redução da pobreza continua sendo a principal bandeira política da esquerda e seu instrumento eleitoral mais fraco, pois seus beneficiários já estão comprometidos com a causa, e aqueles que não se beneficiam dela se veem cada vez mais como seus financiadores.

A versão brasileira desse problema é uma periferia urbana cujas aspirações giram em torno do trabalho, do crédito e do empreendedorismo informal, e não da redistribuição. No meio do segundo turno, Lula garantiu a aprovação do Senado para acabar com a semana de trabalho de seis dias e renegociou as dívidas de pequenas empresas e trabalhadores autônomos. Essas medidas atendem exatamente aos eleitores da classe média baixa que decidiram a eleição na Colômbia e permitem que Lula fale sobre o futuro com algo já concretizado.

Contestando a apropriação da pauta da segurança pública pela direita

Em terceiro lugar, a segurança pública substituiu a economia como tema central do eleitorado latino-americano, e a direita vinha dominando essa pauta quase sem resistência. De la Espriella fez campanha contra a desmobilização negociada de grupos armados, enquanto Cepeda, pessoalmente identificado com a paz total, passou o segundo turno tentando justificar uma política que se tornara indefensável. Sua concessão soou mais como oportunismo do que como aprendizado.

A estrutura federal do Brasil, no entanto, torna o terreno da segurança pública mais difícil para Lula: constitucionalmente, a segurança é uma competência dos estados, o que permite que governadores da oposição atribuam a si mesmos o mérito pelo sucesso de operações, ao mesmo tempo em que culpam Brasília pelos fracassos.

A resposta padrão da esquerda — de que a criminalidade é consequência da pobreza e da desigualdade —, por sua vez, é defensável em teoria, mas fraca nas urnas. A campanha de Lula escolheu um caminho diferente. Em vez de recuar, ela direcionou a questão do crime organizado para seu adversário, intensificando os ataques ao histórico de Flávio, desde acusações de corrupção até supostas ligações com grupos criminosos no Rio de Janeiro.

O momento decisivo ocorreu no debate dos candidatos da TV Bandeirantes no último 18 de outubro, quando Lula desafiou ambos os candidatos a divulgarem seus extratos bancários. Foi um gesto simples, mas poderoso, que transformou um argumento abstrato sobre integridade em um teste que Flávio teve de responder diante das câmeras. Certamente, a campanha de Lula ainda não igualou a mano dura da direita com uma agenda de segurança institucional própria, e isso continua sendo uma lacuna para um possível quarto mandato. Mas ela deixou de ceder nessa questão.

Líderes estrangeiros como variável interna

Em quarto lugar, De la Espriella se inspirou fortemente no atual presidente de El Salvador, Nayib Bukele, desde sua estratégia de segurança até sua imagem pública. Para um eleitorado substancial da classe média, as imagens da megaprisão salvadorenha CECOT ofereceram um modelo que parecia prático, e 53% dos colombianos tinham uma opinião favorável de Bukele.

O Brasil, no entanto, difere em grau e, possivelmente, em natureza, neste ponto. Suas tensões de longa data com os Estados Unidos estão no centro da história. A soberania está profundamente enraizada na cultura política brasileira, e Lula tirou vantagem real ao enfrentar a pressão tarifária de Washington em 2025.

Mas o efeito de "empunhar a bandeira" tem retornos decrescentes: uma tarifa afeta o emprego antes de afetar a dignidade, e pesquisas anteriores revelaram que menos da metade dos eleitores aceitava a alegação de Lula de que essas medidas eram resultado do lobby de seu adversário. A campanha do segundo turno parece ter compreendido isso, transferindo seu foco da retórica da soberania para questões que afetam diretamente a vida cotidiana das pessoas, e deixando a política externa em segundo plano em vez do tema principal.

O que a comparação nos diz agora

O segundo turno na Colômbia foi decidido por um ponto percentual. O do Brasil provavelmente será igualmente acirrado. A pesquisa Datafolha de 15 de outubro mostrava Flávio com 51% dos votos válidos contra 49% de Lula, uma queda em relação aos 52% contra 48% registrados uma semana antes. No dia 22, o Datafolha apontava 50% a 50%.

A pesquisa da Quaest divulgada em 21 de outubro aponta a disputa em 45% para Flávio contra 44% de Lula na intenção de voto total, dentro da margem de erro, com os dois candidatos empatados em 40% quando os eleitores são questionados sem que seus nomes sejam mostrados. Todas as tendências nesses números apontam para uma ascensão de Lula.

A Colômbia nunca foi um exemplo de uma onda ideológica. Foi um fracasso específico e pontual: a incapacidade de se comunicar com eleitores que não são pobres o suficiente para serem beneficiários nem ricos o suficiente para serem adversários, agravada por uma campanha que percebeu tarde demais que estava perdendo.

A esquerda brasileira recebeu seu aviso em 4 de outubro, quando ainda faltavam três semanas para a votação do segundo turno. A boa notícia para o Partido dos Trabalhadores - e a onda cada vez maior de setores da sociedade que vêm na candidatura de Flávio Bolsonaro um risco para o futuro da democracia - é que a campanha de Lula parece ter dado ouvidos. Se isso será suficiente, veremos no domingo.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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