Com saída dos EUA, Iraque celebra soberania, mas enfrenta dúvidas sobre sua segurança
A conclusão da retirada das tropas dos EUA do Iraque encerra décadas de presença militar no país e é celebrada por Bagdá como um marco de soberania plena. Contudo, o momento gera forte apreensão quanto à segurança interna, diante da resistência de milícias pró-Irã ao desarmamento, da presença residual de tropas turcas e da vulnerabilidade de minorias, como os curdos. Apesar da saída militar, ambos os governos buscam manter uma aliança focada na cooperação bilateral política e econômica.
Retirada das tropas americanas lança dúvidas sobre milícias, forças estrangeiras e o futuro do Iraque, enquanto Bagdá proclama uma nova era de soberania.Para o governo do Iraque, o dia 30 de setembro de 2026 marca o fim de uma era. "Primeiro de outubro será um novo dia na trajetória do Estado iraquiano, com o país livre de qualquer presença militar estrangeira e a conclusão da soberania nacional sobre seu território", afirmou o primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, em comunicado.
A ocasião será celebrada como "Dia da Independência", com quatro dias de feriado oficial.
Até esta quarta-feira, os Estados Unidos terão concluído a retirada dos 2.500 soldados que ainda mantinham em território iraquiano, conforme um acordo firmado em 2024. A saída encerra 12 anos da Operação Inherent Resolve, liderada pelos EUA contra o grupo Estado Islâmico (EI), que à época avançava pelo país e pela vizinha Síria.
A retirada também marca o fim de mais de duas décadas de envolvimento militar americano no Iraque. Após a invasão liderada pelos EUA em 2003, as forças americanas se retiraram em 2011 e retornaram em 2014 para combater o Estado Islâmico. A medida também segue a estratégia mais ampla de Washington de reduzir sua presença militar no Oriente Médio.
No entanto, a saída dos EUA não significa o fim de todas as operações militares estrangeiras no Iraque. A Turquia ainda mantém tropas no país, embora Ancara tenha informado no início desta semana que transferirá gradualmente para Bagdá o controle de uma base militar no norte do Iraque.
"Em 2024, Bagdá e Washington concordaram com o que chamaram de uma relação normalizada", disse à DW Renad Mansour, diretor-adjunto do programa para Oriente Médio e Norte da África e diretor da Iniciativa Iraque do centro de estudos Chatham House, sediado em Londres. "Para Bagdá, o objetivo político agora será deixar claro que o Iraque deseja continuar sendo aliado dos EUA", afirmou.
Na avaliação dele, o primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, teme que Washington passe a considerar o Iraque e suas milícias não estatais apoiadas pelo Irã excessivamente próximos de Teerã, dado que EUA e Israel estão em guerra com o Irã.
Bagdá amplia prazo para desarmamento
Inicialmente, Bagdá havia vinculado o fim da missão militar americana ao desarmamento dos numerosos grupos armados e milícias do Iraque. O plano também previa colocar essas forças paramilitares sob controle estatal.
O primeiro-ministro Ali al-Zaidi afirmou na semana passada que o novo prazo é 30 de junho de 2027. O plano revisado inclui um período de 90 dias durante o qual os grupos armados devem cessar os ataques em troca de garantias de paz das forças americanas. Em seguida, está prevista uma entrega gradual de armas, estimada para terminar em 30 de junho de 2027.
Ainda assim, nem todos os grupos armados devem aderir ao plano, já que várias organizações poderosas rejeitaram o desarmamento ou impuseram condições que podem atrasar o processo.
"Os grupos armados mais radicais, Kata'ib Hezbollah, Harakat al-Nujaba e Kata'ib Sayyid al-Shuhada, até agora não deram qualquer sinal de que estejam dispostos a entregar suas armas ao Estado e se integrar às Forças Armadas do Iraque", afirmou Alina L. Romanowski, pesquisadora sênior da Iniciativa de Segurança do Oriente Médio Scowcroft, vinculada ao programa para Oriente Médio do Atlantic Council.
Renad Mansour disse à DW que a ampliação do prazo não o surpreende. O cenário político iraquiano permanece altamente fragmentado desde a invasão americana que derrubou Saddam Hussein, em abril de 2003. Houve mais de oito anos de guerra, a ascensão e a queda do Estado Islâmico, além da retirada dos EUA em 2011 e seu retorno em 2014.
"Muitos movimentos políticos estão associados a organizações armadas, por isso é difícil imaginar uma transformação profunda no setor de segurança em um futuro próximo", afirmou à DW, prevendo que "mesmo no próximo ano, muitos grupos armados continuarão atuando à margem do governo central".
O que isso significa para as minorias do Iraque?
A retirada das tropas americanas também inclui a saída de militares e a remoção dos sistemas de defesa aérea dos EUA em Erbil, capital da Região do Curdistão, entidade semiautônoma no norte do Iraque.
O primeiro-ministro curdo, Masrour Barzani, pediu a Bagdá proteção contra ataques de mísseis e drones vindos do Irã. Desde o início da guerra entre EUA, Israel e Irã, em fevereiro, vêm aumentando os ataques de grupos armados iraquianos apoiados por Teerã contra alvos ligados aos EUA em Erbil. Também cresceram os ataques iranianos à infraestrutura de grupos curdos iranianos de oposição instalados no Iraque.
Na segunda-feira (28/09), autoridades curdas em Erbil informaram que três drones atingiram um acampamento ligado à oposição curda do Irã. Autoridades locais disseram que os drones eram de fabricação iraniana, mas a autoria do ataque não foi confirmada de forma independente.
Yerevan Saeed, pesquisador sênior não residente da Iniciativa Iraque do Atlantic Council e diretor da Iniciativa Global Curda pela Paz da Universidade Americana, teme que minorias étnicas e religiosas vulneráveis do Iraque, como cristãos e yazidis, além de comunidades curdas, fiquem mais expostas a partir de 1º de outubro de 2026. "A retirada sinaliza o fim de uma era em que tropas estrangeiras funcionavam como um amortecedor contra a predação exercida por atores centrais e regionais", afirmou.
Já Mansour, da Chatham House, observa que os laços entre EUA e Iraque não terminarão em 30 de setembro, mas passarão a se concentrar em "outras áreas, incluindo vínculos econômicos, em vez de uma relação centrada na segurança".
Em julho, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou após reunião com o primeiro-ministro Ali al-Zaidi que os dois discutiram como um Iraque soberano, estável e forte abriria caminho para uma cooperação comercial e de defesa mutuamente benéfica.
No entanto, no comunicado divulgado após o encontro, Hegseth acrescentou que "a construção de uma relação bilateral de defesa normal entre EUA e Iraque exige um ambiente seguro, livre de coerção terrorista".
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