Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

[Coluna] Quando o viral vale mais que o real

12 mar 2026 - 12h46
Compartilhar
Exibir comentários

Enquanto narrativas virais chamam atenção, conquistas reais ocorrem em silêncio: estudantes vencem obstáculos, projetos sociais mudam vidas, educadores fazem a diferença. É hora de valorizar o trabalho do dia a dia.Uma menina disse que foi aprovada em medicina em uma universidade pública, ganhou uma festa de comemoração nas ruas da cidade e até abrilhantou a festa com uns passinhos de samba

Uma jovem de 22 anos viralizou nas redes sociais ao informar sobre uma grande conquista: se tornava astronauta da Nasa e seria a primeira brasileira a ir ao espaço. O povo vibrou com a façanha.

E não podemos nos esquecer da cientista com um brilhante currículo e que ganhou o Brasil quando o país conheceu sua história: uma mulher preta e de origem humilde que havia estudado em Harvard, uma das melhores universidades do mundo. Ela até ganharia um filme estrelado pela atriz Taís Araújo

Eu, assim como boa parte do Brasil, acompanhei todas essas histórias, e elas têm dois pontos em comum: tiveram ampla cobertura midiática mas, no final, se revelaram histórias falaciosas. A primeira menina não havia sido aprovada em medicina, a segunda foi desmentida pela própria Nasa e a terceira teve a afirmação de vínculo com Harvard negada pela própria instituição.

O fora da curva em detrimento do real

Eu, enquanto cidadão, entendo o poder de mobilização que histórias como essas, sobretudo quando são reais, causam em nós. Quanto maior for o impacto e a distância entre a origem e o ponto de chegada, mais incrível é, pois podemos nos enxergar nos protagonistas dessas histórias e acreditar que são caminhos que também podemos trilhar.

No entanto, enquanto alguém que está há 10 anos à frente de um projeto social de educação, preciso confessar que me incomoda um pouco esse apreço exacerbado por histórias fora da curva.

E me entristece saber que, mesmo com um trabalho social solidificado de 10 anos e que já aprovou mais de 4 mil estudantes da rede pública no ensino superior, toda vez que preciso contar com a ajuda de pessoas externas ao projeto eu praticamente preciso implorar por atenção. Confesso que, nesses momentos, muitas vezes me sinto quase como um mendigo pedindo atenção.

Ao mesmo tempo em que passo por isso, um caso viral pode ganhar toda a atenção da mídia e do povo e pior: mesmo sem ser verdadeiro.

Mídia do engajamento

Meu incômodo não é tanto com o público que engaja, até porque, como disse, eu entendo o sentimento. A maior decepção é com os veículos de comunicação em geral.

"Ah, mas eles só pautam esses casos devido ao engajamento que têm com a população". É verdade, mas assumir essa hipótese como a única explicação é subestimar o poder da mídia.

Na literatura de políticas públicas, quando falamos de agenda, ou seja, dos assuntos que estão no radar e em pauta, há até uma subdivisão que trata da "agenda da mídia". Ela é tão poderosa que pode simplesmente influenciar o que estará na agenda do governo e, consequentemente, se tornará ou não política pública.

Assim, vale a provocação: os veículos pautam esses casos fora da curva à exaustão porque têm um alto poder de engajamento com o público ou o público engaja muito porque a mídia construiu a narrativa de que são os únicos que merecem atenção?

Histórias extraordinárias inspiram, mobilizam e fazem sonhar. Isso não é um problema. O problema é quando apenas o extraordinário merece atenção. Enquanto o país se encanta com narrativas virais, milhares de conquistas reais seguem acontecendo todos os dias em silêncio: estudantes que vencem obstáculos, projetos sociais que transformam vidas e educadores que insistem em fazer diferença. Talvez esteja na hora de aprender a valorizar menos o espetáculo e mais o trabalho real do dia a dia.

__

Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do programa no Instagram em @salvaguarda1.

Este texto foi escrito por Vinícius De Andrade e reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Compartilhar
TAGS
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade