Clima e trabalho: 'Quem conhece e vive a floresta pode e deve conduzir pesquisa também'
Em mais um artigo em parceria com o Pulitzer Center, um relato de como, na Terra Indígena Panará, nativos e acadêmicos unem conhecimentos, tecnologias e monitoramento científico para proteger a biodiversidade e fortalecer a governança do território
Na Terra Indígena Panará, uma parceria inovadora une cientistas e indígenas como copesquisadores no monitoramento da biodiversidade local. Ao integrar protocolos acadêmicos ao conhecimento tradicional sobre a floresta, o projeto catalogou centenas de espécies e avaliou a saúde dos ecossistemas frente a pressões externas. Essa colaboração horizontal valoriza os saberes originários, fortalece a conservação ambiental e transforma a ciência em ferramenta de autonomia e proteção do território.
Ao amanhecer, uma equipe avança lentamente por um igarapé na Terra Indígena Panará, entre o Pará e o Mato Grosso. Algumas pessoas carregam redes, recipientes de coleta e aparelhos para medir a qualidade da água. Outras observam as margens, o movimento dos peixes, os rastros na floresta e as mudanças quase imperceptíveis na correnteza. Não há, porém, dois grupos separados, com cientistas de um lado e moradores que auxiliam a pesquisa, de outro. Os Panará que participam dessa expedição também são pesquisadores. E aí está um trunfo que pode e deve ser cada vez mais comum nas parcerias entre cientistas e povos originários em trabalhos de campo na Amazônia e demais biomas do Brasil.
São os indígenas que conhecem os caminhos, formulam perguntas, selecionam áreas de amostragem, operam equipamentos, interpretam resultados e ajudam a decidir como as informações poderão ser utilizadas pelas comunidades. Essa diferença parece simples, mas altera profundamente o significado da colaboração científica.
Durante muito tempo, projetos realizados em territórios indígenas trataram os conhecimentos locais como informações complementares, úteis para encontrar espécies, identificar áreas ou facilitar a logística, mas raramente os reconheceram como parte do processo intelectual da pesquisa. Essa abordagem contrasta com um crescente reconhecimento de que a biodiversidade amazônica também é resultado de relações históricas e culturais entre os povos indígenas e seus territórios.
Esse problema também se manifesta na gestão de áreas protegidas da Amazônia, em que a exclusão das comunidades tradicionais pode comprometer tanto a conservação quanto a resolução de conflitos socioambientais. No projeto de monitoramento integrado da biodiversidade da Terra Indígena Panará, buscamos ir além desse modelo, promovendo a participação, mas também construindo uma investigação baseada na coprodução de conhecimentos e na divisão de responsabilidades.
A Terra Indígena Panará possui aproximadamente 500 mil hectares e está localizada em uma zona de transição entre a Floresta Amazônica e o Cerrado, no Corredor de Áreas Protegidas do Xingu. Apesar de sua biodiversidade e importância cultural, o território está próximo de frentes de expansão agropecuária, da BR-163, de áreas de mineração e de grandes projetos de infraestrutura.
Os próprios Panará têm percebido mudanças: redução da abundância de alguns peixes, alterações na água, aumento das queimadas e transformações nas áreas ao redor da Terra Indígena. Essas observações ajudaram a definir as perguntas do projeto e as áreas prioritárias de monitoramento.
Onze pesquisadores, sete aldeias e muitas formas de conhecer
As comunidades selecionaram 11 pesquisadores Panará, incluindo três mulheres e representantes de sete aldeias, para participarem de todas as etapas das atividades. O grupo reúne professores, jovens lideranças e uma pajé. Sua atuação começou antes das expedições e continuou depois delas: na definição das perguntas e dos locais prioritários, no planejamento, na aplicação dos protocolos, na interpretação dos resultados, na apresentação das informações às comunidades e na preparação de publicações científicas.
Dessa forma, os Panará não atuaram apenas como guias ou auxiliares de campo, mas também como pesquisadores e corresponsáveis pela produção, proteção e uso dos conhecimentos gerados sobre seu território.
Um projeto dessa dimensão, no entanto, não poderia ser realizado por uma única equipe. Ele representa uma soma de esforços entre a Associação IAKIÔ, as comunidades Panará, a Universidade Federal do Pará, a Conservação Internacional do Brasil, o Instituto Socioambiental, a Universidade Estadual de Campinas, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e diferentes pesquisadores e estudantes.
A iniciativa também foi fortalecida pela articulação com a Rede de Pesquisa da Amazônia Oriental, que reúne programas e redes de monitoramento de longo prazo, como o PPBio Amazônia Oriental, o PELD Amazônia Oriental, o INCT em Síntese da Biodiversidade Amazônica, o CISAM e outras iniciativas dedicadas à produção, integração e compartilhamento de informações sobre a biodiversidade amazônica.
Essa articulação permitiu reunir especialistas de diferentes áreas e utilizar protocolos comparáveis aos empregados em grandes programas de monitoramento da biodiversidade. Ao mesmo tempo, possibilitou que os dados produzidos na Terra Indígena Panará fossem conectados a uma escala mais ampla, contribuindo não apenas para compreender as condições locais, mas também para identificar padrões e transformações ambientais em outras regiões da Amazônia Oriental.
A pesquisa integrou ecossistemas aquáticos e terrestres, contemplando peixes, insetos aquáticos, macrófitas, aves, mamíferos, anfíbios, répteis, insetos terrestres, plantas e qualidade da água. Em 31 igarapés, foram registradas 65 espécies de peixes, 64 espécies de macrófitas aquáticas e 97 espécies ou gêneros de insetos aquáticos.
Esses organismos funcionam como importantes indicadores das condições da água, da vegetação das margens e da integridade ambiental dos riachos. Na floresta, diferentes técnicas revelaram uma fauna terrestre extremamente diversa. Em uma única expedição, foram registradas 234 espécies de aves, incluindo 10 consideradas vulneráveis. O monitoramento de mamíferos combinou caminhadas em cerca de 20 trilhas, entrevistas com caçadores Panará e 56 pontos de armadilhas fotográficas que permaneceram ativos por aproximadamente quatro meses.
Esse esforço permitiu documentar 43 espécies de mamíferos de médio e grande porte, entre elas a onça-pintada e o macaco-aranha-da-cara-branca, além de outras ameaçadas de extinção. O levantamento de anfíbios e répteis também combinou buscas realizadas durante o dia e a noite, registros de vocalizações e sensores bioacústicos. Foram documentadas 72 espécies, incluindo anfíbios, serpentes, lagartos, quelônios e jacaré. Borboletas, formigas, abelhas e besouros rola-bostas também foram monitorados, ampliando a capacidade de detectar alterações na estrutura e no funcionamento da floresta.
Os números formam uma linha de base indispensável para acompanhar mudanças futuras. Contudo, o resultado mais importante talvez não possa ser resumido em tabelas ou listas de espécies. Durante as expedições, tecnologias científicas como armadilhas fotográficas, gravadores acústicos, aplicativos, equipamentos de qualidade da água e protocolos padronizados foram combinadas ao conhecimento Panará sobre os caminhos da floresta, o comportamento dos animais, os períodos reprodutivos, os locais de caça, os ciclos dos rios e as mudanças observadas ao longo das últimas décadas. Esse encontro também criou oportunidades de transmissão de conhecimentos entre anciãos, adultos e jovens.
Em uma população majoritariamente jovem, acompanhar a biodiversidade significa registrar não apenas onde vivem os animais e como os ecossistemas estão mudando, mas também os nomes, histórias, usos e relações culturais associados às espécies. Uma onça, uma ave, um peixe ou uma árvore não representam apenas um registro científico: podem indicar a saúde do território, orientar deslocamentos, integrar narrativas e práticas culturais ou revelar transformações que instrumentos isolados ainda não conseguiram detectar.
Assim, a principal força do projeto reside na união entre diferentes pessoas, instituições, redes e sistemas de conhecimento. É essa colaboração continuada que transforma inventários pontuais em monitoramento de longo prazo e dados científicos em instrumentos de formação, memória, autonomia e defesa territorial.
Das tartarugas australianas aos rios amazônicos
Uma reportagem recente, apoiada pelo Pulitzer Center, mostra guardiões indígenas e cientistas marinhos trabalhando juntos diante de uma crise envolvendo tartarugas na costa australiana. Após dezenas de animais doentes ou encalhados serem encontrados em poucas semanas, os guardiões passaram a combinar sua experiência no chamado Sea Country com protocolos científicos para detectar ameaças e proteger as tartarugas.
Apesar da distância entre a costa australiana e os igarapés amazônicos, a experiência transmite uma mensagem semelhante à do projeto Panará: problemas ambientais complexos dificilmente serão compreendidos apenas com visitas ocasionais de especialistas externos.
Quem vive cotidianamente no território percebe alterações antes que elas apareçam em relatórios formais. Sabe quando uma espécie deixou de frequentar determinado lugar, quando um rio passou a comportar-se de maneira diferente ou quando o calendário de floração, reprodução ou migração começou a mudar.
Na Amazônia brasileira, outra reportagem do Pulitzer Center acompanhou monitores indígenas Juruna avaliando os impactos da usina de Belo Monte sobre os peixes e o pulso do rio Xingu. O trabalho mostra como medições de peso, tamanho, abundância e reprodução podem transformar percepções locais em evidências sistemáticas para disputas ambientais e decisões públicas.
O próprio Pulitzer já documentou a trajetória dos Panará e o monitoramento territorial realizado para combater as invasões. A história do povo inclui epidemias e deslocamento forçado após a abertura da BR-163, a destruição de parte de suas terras pelo garimpo e, posteriormente, a reconquista de uma área preservada.
Hoje, cercado por fazendas, monoculturas e novas pressões econômicas, o território necessita de vigilância permanente. O monitoramento da biodiversidade complementa essa proteção territorial. Imagens de satélite podem indicar desmatamento e a abertura de estradas, mas não revelam, sozinhas, se os peixes estão diminuindo, se a água está contaminada ou se espécies sensíveis desapareceram dos igarapés.
Evidências também devem fiscalizar as soluções ambientais
Nem toda iniciativa apresentada como sustentável é necessariamente capaz de gerar benefícios reais. Uma investigação do Pulitzer Center sobre um projeto de carbono administrado por uma grande empresa de celulose na Indonésia encontrou indícios de que o risco futuro de desmatamento teria sido superestimado. Uma ameaça hipotética mais grave permitia projetar mais emissões evitadas e, consequentemente, mais créditos de carbono. A reportagem oferece um alerta que vai além do mercado de carbono, projetos ambientais precisam de linhas de base confiáveis, transparência, verificação independente e mecanismos que reduzam conflitos de interesse. Caso contrário, números e certificações podem dar a impressão de conservação sem demonstrar mudanças efetivas nos ecossistemas.
O caso Panará aponta para outra direção. Em vez de definir o território apenas por meio de imagens, documentos empresariais ou projeções externas, o programa combina protocolos padronizados com observações acumuladas por quem vive na floresta. A continuidade do monitoramento permitirá comparar dados ao longo do tempo, revisar as interpretações e identificar mudanças antes que se tornem irreversíveis.
Proteger ecossistemas é também compartilhar poder
A principal lição dessas experiências não é que o conhecimento indígena deva substituir a ciência acadêmica, nem o contrário. É que ambos podem produzir evidências mais completas quando se encontram de forma respeitosa e quando as decisões não se concentram nas instituições externas. Para isso, não basta contratar moradores como auxiliares de campo. É necessário reconhecer a autoria, remunerar adequadamente o trabalho, discutir previamente o uso dos dados, respeitar as informações sensíveis e garantir que os resultados retornem às comunidades em formatos úteis e acessíveis.
Na Terra Indígena Panará, proteger a biodiversidade significa acompanhar peixes, árvores, insetos, aves e mamíferos. Significa também formar jovens pesquisadores, preservar palavras na língua Panará, registrar memórias e produzir informações que fortaleçam decisões territoriais. Quando as pessoas que conhecem profundamente um ecossistema também ajudam a formular perguntas, interpretar evidências e decidir o destino das informações, o monitoramento deixa de ser apenas uma atividade científica. Torna-se uma ferramenta de autonomia, de memória e de defesa do território.
Leandro Juen não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.