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'Setor de couro é sustentável e suspensão não foi definitiva', diz ministra

Empresa americana anunciou nesta quinta suspensão da compra da matéria-prima brasileira até que haja segurança quanto ao dano ambiental provocado ao Brasil. Tereza Cristina fala em 'exagero' na forma como o País é mostrado no exterior

29 ago 2019
18h29
atualizado em 30/8/2019 às 00h44
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SÃO PAULO, BRASÍLIA E PORTO ALEGRE - A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou nesta quinta-feira, 29, que o setor brasileiro de couro é sustentável e que a suspensão da compra do produto por 18 importadores é temporária e deve ser resolvida da melhor forma possível. A empresa responsável por marcas como Timberland e Vans informou ter decidido não seguir se "abastecendo diretamente com couro e curtume do Brasil para os negócios internacionais até que haja a segurança" que os materiais usados nos produtos não contribuam para o desmate no Brasil, que tem sofrido com as queimadas na Amazônia. A Confederação Nacional da Indústria criticou a decisão das empresas estrangeiras.

Em entrevista na Expointer, feira agropecuária gaúcha que ocorre em Esteio (RS), a ministra afirmou: "Essa suspensão não foi definitiva. Temos de ter muito cuidado. Acho que o setor de couros do Brasil é sustentável, é um setor que tem muito a informar a essas indústrias", disse. "Neste momento, é melhor termos cautela e saber o que eles querem de informação para podermos passar para eles e resolver esse problema da melhor forma possível."

'Temos que mostrar nossa realidade. O que nós temos de mazelas já estamos resolvendo', disse a ministra
'Temos que mostrar nossa realidade. O que nós temos de mazelas já estamos resolvendo', disse a ministra
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil / Estadão

A ministra disse que a suspensão causa prejuízo à imagem do Brasil, mas que há "exagero" na forma como o Brasil é mostrado para o exterior. "Se ficarmos aumentando o tom dessa conversa, teremos ainda mais prejuízo. Ou é interessante ficarmos alimentando coisas que não são verdadeiras?", indagou. "Temos de mostrar nossa realidade. O que temos de mazelas já estamos resolvendo. O governo federal mandou tropas das Forças Armadas para coibir o ilegal e o ilícito na Amazônia."

A suspensão havia sido divulgada nesta quarta-feira, 28, em carta do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. No entanto, no mesmo dia o presidente da entidade, José Fernando Bello, disse que havia se tratado de um "erro de pré-avaliação" da entidade e que a exportação não estava, por enquanto, suspensa. Mais tarde, porém, a VF Corporation, empresa responsável pelas 18 marcas que compram couro, confirmou em nota ao Estado que decidiu não seguir se "abastecendo diretamente com couro e curtume do Brasil".

A maior produtora mundial de salmão, Mowi ASA (MOWI.OL), anunciou que poderá parar de comprar soja brasileira para ser usada na sua produção se o País não coibir o desmate. O anúncio foi feito pela empresa norueguesa também nessa quarta-feira, 28.

Confederação da Indústria repudia decisão

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) repudiou a decisão dos importadores de suspender a compra de couro. Em nota, a entidade avaliou como "injustas e equivocadas" as tentativas de se vincular a exportação de produtos industriais brasileiros às queimadas na floresa. "A Amazônia é um patrimônio de fundamental importância para o Brasil, sobretudo pela sua megadiversidade biológica, que abriga 20% do total de espécies de plantas e animais do planeta. Trata-se de uma riqueza potencial para ser desenvolvida e a indústria nacional é uma das principais interessadas no seu uso sustentável", afirmou o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade.

Ele associou a suspensão da compra de couro brasileiro ao questionamento de empresários chineses sobre a sustentabilidade dos produtos brasileiros e a ameaça de alguns líderes europeus de dificultar a aprovação do Acordo entre Mercosul e União Europeia recentemente. "Esses episódios demonstram no mínimo desinformação sobre a responsabilidade ambiental da indústria brasileira." Andrade também ressaltou que, nos últimos três acordos de comércio assinados pelo Brasil - com o Chile, União Europeia, e EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre) -, "a indústria brasileira assumiu compromissos ambiciosos no capítulo de desenvolvimento sustentável".

Empresas estão sendo cobradas, diz presidente de entidade

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Óleos Vegetais (Abiove), André Nassar, afirmou que as empresas ligadas à entidade "estão gastando o dia inteiro com esclarecimentos, mostrando que não tem soja ligada às questões do desmatamento". Nassar afirmou que as grandes empresas, mais acostumadas com operações globais, conhecem o mercado brasileiro e todas as suas garantias e certificações em relação ao meio ambiente.

"Agora, as empresas estão passando por um momento intenso de consultas de empresas europeias menores e que atuam mais localmente. Essas empresas, sem tanta experiência no mercado brasileiro, estão demandando esclarecimentos e querendo entender o que está acontecendo", completou Nassar.

Luiz Cornacchioni, diretor executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), afirma que é preciso "ficar alerta aos sinais" e olhar a questão do couro como algo relevante e também um alerta. "O meio ambiente entrou com um peso grande em qualquer negociação internacional", disse.

"É preciso investir em diplomacia ambiental. Ela será a porta de entrada para nossa diplomacia comercial. Além do mais, o consumidor está cada vez mais ligado em questões ambientais. A proteção do ambiente precisa se transformar em nossa vantagem competitiva", completou. Na Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Abrasoja), o cenário não é de temor, principalmente porque o maior parceiro comercial é a China - que não se manifestou sobre os problemas envolvendo queimadas na Amazônia ou outras questões ambientais./ COLABORARAM GILBERTO AMENDOLA e LUCIANO NAGEL, ESPECIAL PARA O ESTADO

Estadão
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