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Na contramão de Bolsonaro, vizinhos pregam pacto global pela Amazônia

Os apelos mais fortes saíram de países que, na esteira do desgaste brasileiro, assumiram protagonismo na agenda ambiental, como o Chile e a Colômbia. Tema deve ser levado à Assembleia Geral da ONU, em setembro

26 ago 2019
20h05
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BRASÍLIA - Na contramão do Brasil, países sul-americanos passaram a pregar uma cooperação de âmbito global para combater a destruição causada pelos incêndios florestais na Amazônia, com apoio da União Europeia. Os apelos mais fortes saíram de países que, na esteira do desgaste brasileiro, assumiram protagonismo na agenda ambiental, como o Chile e a Colômbia, ambos presididos por governantes de direita simpáticos ao presidente Jair Bolsonaro. Eles querem levar a discussão à Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que ocorrerá em setembro em Nova York. O movimento é apoiado pela Bolívia, também impactada pelas chamas.

Dos países vizinhos, Argentina, Chile, Colômbia, Equador e Venezuela ofereceram auxílio para conter as chamas em solo brasileiro, ainda na semana passada. Os países acenaram com o envio de aviões, centenas de brigadistas e especialistas em gestão de desastres, investigação e controle de incêndios florestais. Mas, até agora, o Palácio do Planalto só comunicou que aceitou o envio de um avião e equipamentos ofertados por Israel, que se tornou um dos aliados preferenciais de Bolsonaro. Governos estaduais, como o do Acre, decidiram pedir diretamente apoio às embaixadas sul-americanas.

Em uma dobradinha com o presidente da França, Emmanuel Macron, cuja relação com Bolsonaro se degradou, o presidente do Chile, Sebastian Piñera, assumiu a coordenação da ajuda emergencial oferecida pelos países ricos do G-7, o que inclui um fundo de U$ 20 milhões. Piñera afirmou que a soberania dos países amazônicos deve ser respeitada, mas que proteger a floresta "é dever de todos".

Embora não tenha território amazônico, o Chile tem histórico de cooperação prestada e recebida em incêndios florestais, inclusive com o Brasil. Piñera enviou um avião-tanque com capacidade de 3 mil litros para conter as chamas no pantanal do Paraguai. Santiago, a capital chilena, sediará em dezembro a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP25), em substituição ao Brasil, que abriu mão do evento por intervenção de Bolsonaro.

O discurso dos países vizinhos sobre os incêndios amazônicos destoa da visão de Bolsonaro. O Palácio do Planalto trata o caso como uma questão interna e sempre reforça que não aceitará ameaças à soberania nacional sobre o território e a biodiversidade da floreta brasileira. Hoje, o presidente voltou a rechaçar as iniciativas de Macron e do G-7.

"Não podemos aceitar que um presidente, Macron, dispare ataques descabidos e gratuitos à Amazônia, nem que disfarce suas intenções atrás da ideia de uma 'aliança' dos países do G-7 para 'salvar' a Amazônia, como se fôssemos uma colônia ou uma terra de ninguém", escreveu nesta segunda-feira Bolsonaro, pelo Twitter.

'Pacto pela Conservação'

O presidente da Colômbia, Iván Duque, anunciou a intenção de liderar, entre os países amazônicos, um "Pacto pela Conservação" e já conversou sobre o tema com Bolsonaro. Duque vai discutir o assunto nesta terça-feira com o presidente do Peru, Martín Vizcarra, e pretende apresentar mais detalhes na ONU.

No domingo, ele visitou uma comunidade indígena próxima a Letícia, cidade colombiana de fronteira com o Brasil na Amazônia, relacionou as queimadas ao desmatamento e disse que elas "estremeceram o mundo"."A proteção da mãe natureza e da Amazônia é um dever moral", disse Duque. "Esse tem que ser um chamado ao mundo, a proteção da Amazônia envolve a todos".

Duque estava acompanhado de representantes de Reino Unido, Alemanha e Noruega - os dois últimos, países que suspenderam repasses milionários ao Brasil por meio do Fundo Amazônia. Para o governante colombiano, que nega ter focos de incêndio em seu território, a Amazônia é "patrimônio do mundo" e "a tragédia ambiental da região amazônica não tem fronteiras". O país vai receber uma reunião prévia sobre diversidade da COP26, em 2020.

O presidente Lenín Moreno, do Equador, disse, ao oferecer um avião com três equipes de brigadistas a Bolsonaro, que as queimadas "alertam o mundo inteiro".

Segundo país mais afetado pelo fogo, a Bolívia faz uma campanha aberta por "qualquer ajuda internacional" e já recebeu dois helicópteros enviados pelo Peru para apagar as chamas em seu trecho Amazônia. O presidente Evo Morales, de esquerda, disse que vai participar da aliança a convite da França e propôs um encontro na ONU.

Ele convidou Macron para ir à Bolívia firmar compromissos de cooperação, com base em obrigações assumidas no Acordo de Paris. "Os membros do G7 devem entender que o incêndio na Amazônia é um chamado urgente para passar da preocupação à ação", disse Evo. "O incêndio na Amazônia é um chamado aos países e governo do mundo a proteger o meio ambiente com responsabilidade integral, inevitável e compartilhada. Devemos trabalhar unidos contra os efeitos do aquecimento global e também combater suas causas."

Da Venezuela, o regime Nicolás Maduro acenou com a "modesta ajuda" que possa dar para mitigar imediatamente essa dolorosa tragédia". A diplomacia chavista, apoiada pelos bolivianos, tenta convocar para uma reunião de emergência os chanceleres dos países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.

Participam ao bloco Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Com 41 anos, o tratado é visto como subutilizado e sem apoio pelos governos regionais. O presidente da Colômbia diz que o novo "Pacto pela Conservação da Amazônia" respeitará ações internas e soberanas dos governos, mas que elas serão mais bem coordenadas.

Pelo Twitter, Bolsonaro também defendeu o plano de Duque, reiterando sua defesa do respeito à soberania dos países. "Em conversa com o Presidente Iván Duque, da Colômbia, falamos da necessidade de termos um plano conjunto, entre a maioria dos países que integram a Amazônia, na garantia de nossa soberania e riquezas naturais. Outros chefes de estado se solidarizaram com o Brasil, afinal respeito à soberania de qualquer país é o mínimo que se pode esperar num mundo civilizado."

Estadão
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