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Desinformação sobre segurança e economia ganhou força em 2023

29 dez 2023 - 16h03
(atualizado às 16h06)
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O aumento no número de publicações falsas e enganosas sobre segurança e economia marcou o cenário desinformativo brasileiro em 2023. A estratégia dos desinformadores reproduziu o discurso dos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de que um novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) causaria uma onda de violência e uma crise econômica no país.

Os dados são baseados em levantamento feito por Aos Fatos a partir de todas as 598 peças de desinformação desmentidas durante o ano. Juntos, os posts acumulavam mais de 220 milhões de visualizações em plataformas como Facebook, Instagram, Kwai e TikTok.

A reportagem classificou cada uma das publicações enganosas de acordo com o principal assunto abordado. Os cinco temas mais recorrentes foram:

  • Política: peças que miravam figuras do Executivo e do Legislativo ou disseminavam mentiras sobre o processo eleitoral;
  • Segurança pública: posts que faziam menção a atos criminosos ou a medidas adotadas pelo governo para combater o crime organizado;
  • Economia: publicações que abordavam assuntos como crescimento econômico, desemprego, benefícios sociais e o orçamento da União, dos estados e dos municípios;
  • Saúde: peças que mentiam sobre curas milagrosas, doenças como a Covid-19 e vacinas;
  • Costumes e religião: desinformações que envolviam alegações preconceituosas ou com teor religioso, como falsas alusões ao satanismo.

Foram desmentidas 66 publicações sobre temas relacionados à segurança pública, número que representa cinco vezes o registrado em 2022 (13 checagens) e mais de três vezes o verificado em 2021 (18 checagens).

Circularam, principalmente, posts que atribuíam decisões falsas ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino (PSB) — que tomará posse no STF (Supremo Tribunal Federal) em 2024 —, ou que compartilhavam como se fossem reais cenas de séries e filmes ambientados em favelas brasileiras. Essas publicações fazem parte de um contexto desinformativo que tenta atribuir ao governo Lula uma relação com o crime organizado.

A série de atentados ocorridos em escolas brasileiras em abril também se traduziu em desinformação. Nove peças que circularam naquele mês compartilharam informações inverídicas sobre autores de ataques e geraram pânico ao inventar atentados que não ocorreram.

Economia. Ao longo deste ano, foram publicadas 61 checagens sobre temas econômicos. O número também é maior do que o verificado em 2022 (8 checagens) e em 2021 (29 checagens). A maior parte das peças desmentidas buscava causar desgaste ao governo, seja ao sugerir que Lula teria criado novos impostos, seja ao alegar que empresas privadas estariam indo à falência por conta do governo.

Houve também, no entanto, mentiras criadas para favorecer a gestão do petista. Aos Fatos desmentiu, por exemplo, publicações que inflavam a taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), exageravam a queda nos preços de itens do supermercado e inventavam benefícios sociais.

POLÍTICA

Apesar de terem perdido espaço neste ano em comparação com anos anteriores, as peças de desinformação sobre política continuaram sendo maioria entre os conteúdos desmentidos por Aos Fatos em 2023. O objetivo principal dos posts era descredibilizar o governo Lula.

Resquícios da desinformação eleitoral que contaminou as redes durante a disputa presidencial do ano passado também continuaram circulando em 2023. Grande parte dos conteúdos questionava a vitória de Lula e sugeria que teria havido fraude em 2022. Não há até o momento, no entanto, nenhum indício de irregularidades no pleito passado.

8 DE JANEIRO

Os atos golpistas perpetrados por bolsonaristas logo nos primeiros dias do governo Lula também se destacaram como assunto de peças de desinformação. Por mais que a maior parte dos conteúdos enganosos sobre o tema tenham circulado em janeiro, Aos Fatos desmentiu peças de desinformação sobre o assunto ao longo de todo o ano de 2023 (veja gráfico abaixo).

Nos dias posteriores aos ataques, circularam principalmente desinformações que sugeriam que a destruição teria sido causada por militantes de esquerda infiltrados. A tese, que nunca foi comprovada, persistiu nas redes ao longo do ano e foi inclusive defendida por parlamentares.

Também se destacaram, entre janeiro e fevereiro, publicações que afirmavam que a PF (Polícia Federal) estaria maltratando idosos e crianças detidos após o atentado. Desinformadores inventaram, inclusive, que uma mulher teria morrido no ginásio para onde foram levados os golpistas retirados do acampamento instalado em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília.

As imagens das câmeras de segurança que mostravam cenas dos ataques também geraram desinformação. O vídeo que mostrava a chegada de Lula e sua equipe ao Palácio do Planalto na noite daquele domingo, por exemplo, circulou nas redes fora de contexto (veja aqui e aqui) para afirmar que a cúpula do governo estava na sede do Executivo no horário da depredação, o que é mentira.

ISRAEL X HAMAS

De maneira similar ao que ocorreu em 2022 com a guerra na Ucrânia, o conflito entre Israel e o grupo extremista palestino Hamas também gerou uma onda de desinformação nas redes brasileiras. Ao todo, o Aos Fatos desmentiu 31 publicações enganosas sobre o tema.

No Brasil, as mentiras sobre o confronto foram usadas para alimentar a polarização política. O próprio ex-presidente Jair Bolsonaro publicou, logo após os primeiros ataques, ocorridos em 7 de outubro, mensagens que sugeriam que Lula seria ligado ao Hamas, o que é falso.

Usuários também compartilharam imagens descontextualizadas de outros conflitos para gerar engajamento e peças que tentavam acusar um ou outro lado de violência exacerbada. Viralizaram, por exemplo, vídeos falsos que acusavam israelenses de atacar reservatórios de água e caminhões com comida para matar palestinos de sede e fome. Também circularam posts preconceituosos que sugeriam que todos os palestinos seriam terroristas.

A ELEIÇÃO QUE NÃO ACABOU

De maneira similar ao que ocorreu no ano passado, Lula permaneceu sendo o personagem mais citado pelas peças desinformativas desmentidas pelo Aos Fatos em 2023. O presidente foi protagonista de 200 publicações, seguido por Bolsonaro, assunto de 42 posts. Apesar de ter mantido a posição conquistada no ranking de personagens de 2022, o ex-presidente saiu dos holofotes: o número de menções a ele caiu 74% desde o ano passado, quando foi citado 151 vezes.

O teor da desinformação relacionada aos dois políticos também se manteve em 2023: os conteúdos desmentidos por Aos Fatos geralmente atacavam Lula e defendiam Bolsonaro. Apenas 11 publicações checadas (cerca de 5% do total) criavam mentiras para beneficiar o atual presidente. Um exemplo é o post que alegava que Lula teria confirmado o pagamento do 13º do Bolsa Família.

Já no caso de Bolsonaro, a maioria das publicações (cerca de 76% do total) tinha teor positivo. As peças usavam imagens falsas ou descontextualizadas de manifestações para inflar o apoio ao ex-presidente ou criavam mentiras para tentar dissociá-lo de escândalos e negar suas derrotas políticas.

Também foram alvos recorrentes de desinformação o ministro do STF Alexandre de Moraes (citado em 17 publicações) e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino (protagonista de 15 peças de desinformação). Todas as publicações traziam mentiras prejudiciais às duas autoridades:

Transposição. Alvo de uma disputa de paternidade entre Lula e Bolsonaro durante as eleições de 2022, a transposição do rio São Francisco também se tornou assunto de uma série de publicações enganosas nas redes neste ano.

  • Ao longo de 2023, Aos Fatos desmentiu 15 posts que acusavam o presidente de estar destruindo o projeto ou desligando as bombas de água para obrigar a população a depender de carros-pipa;
  • Usuários também passaram a compartilhar imagens de canais secos nas redes para alegar que Lula estaria fechando as comportas do projeto para interromper o fluxo de água. Essas mentiras originaram inclusive uma trend desinformativa no TikTok;
  • Desinformadores inventaram ainda que o governo teria criado uma nova taxa para que estados pudessem usufruir da água, o que também não é verdade.

Colaborou Amanda Ribeiro.

O Aos Fatos já publicou outros balanços que analisavam o conjunto da desinformação desmentida durante o ano. Confira abaixo as reportagens anteriores:

Referências:

1. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 43)

2. O Tempo

Aos Fatos
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